“Foi como se eu tivesse apenas nascido na casa errada”, conta a quarta filha, recebida aos cinco anos

Elisabete recebe um beijo da filha Daiana: mãe atribui sucesso da adoção, tardia, ao amor
Tatiana Gerasimenko
Elisabete recebe um beijo da filha Daiana: mãe atribui sucesso da adoção, tardia, ao amor
“Não, vamos voltar, não posso fazer isso assim, é crueldade”. Foi assim que Elisabete voltou com sua futura filha, então com apenas dois anos de idade, para entregá-la aos pais biológicos depois de ter aceitado ficar com Daiana. “Ela chorava porque queria o pai, não poderia levá-la para casa daquele jeito, ela estava aos prantos”. Três anos depois, familiares ligariam para dizer que a mãe da menina tinha ido embora de casa e que a pequena pedia para morar com Elisabete, sua madrinha.

“Eu tinha uma viagem marcada para os Estados Unidos. Meu marido falou para eu viajar, pensar com calma na situação e, se eu decidisse ficar com Daiana, iríamos buscá-la no Rio de Janeiro”. Doze dias se passaram e Elisabete voltou para Campinas, onde morava, com a missão de encarar uma nova viagem em busca da sua quarta filha. Seus novos irmãos – um menino de 10, uma menina de 12 e outro menino de 14 – foram chamados para uma conversa e entenderam que, a partir daquele momento, tudo o que era deles era também de Daiana.

Definitivamente, a menina não era uma estranha: havia um laço muito além do sangue que as ligava desde cedo. “A Andréa, mãe biológica da Daiana, falava que um dia ainda ia dar aquela garota para mim”, conta. “Aos cinco, foi Daiana quem quis. Fui atrás dela, ela entrou no carro feliz da vida e, naquele momento, foi como se ela tivesse sido sempre minha. No segundo dia já nos chamava de pai e mãe”. Daiana, hoje com 19 anos, conta que a relação entre as duas sempre foi muito natural: “Era como se eu tivesse apenas nascido na casa errada”. Não à toa, passou a seguir os mesmos passos da nova mãe, e a convivência as tornou extremamente parecidas no jeito de falar e agir.

Tudo transcorria tão bem que Elisabete nem pensou em colocar nada no papel, e assim ficaram – pais e filhos – vivendo durante dois anos. Foi quando a vizinha, advogada, conversou a respeito da situação, aconselhando a dar início ao processo de adoção na Justiça. “Na vara ouviram a menina, fomos a várias audiências... Me interrogavam, mas as psicológicas falavam que Daiana já tinha assumido a gente como a família dela, era ela nossa”. Então conseguiram a guarda. Depois veio a adoção, e Daiana mudou o sobrenome, tornando-se Motta Coutinho Rego. “Ela até pegou cidadania portuguesa antes do irmão!”, brinca a mãe.

Dentro do contexto, Daiana não deu tanto trabalho, assegura Elisabete. “Dei a base fundamental, que são a fé e o amor, e tudo deu certo”. Tão certo que hoje Daiana cursa o segundo ano de enfermagem da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (onde, conta orgulhosa a mãe, passou sem a ajuda de cursinhos), encanta as pessoas com seu sorriso aberto e deixa o irmão mais velho de cabelo em pé quando resolve colocar um ou outro decote. “Ele morre de ciúmes da Daiana”, cochicha a mãe, enquanto retribui ao toque da mão de Daiana durante a conversa. “Quem iria imaginar... quando ela chegou em casa, pequenina, estava infestada de piolhos, o corpinho cadavérico!”.

Elisabete ressalta que Daiana sempre teve as mesmas oportunidades que os irmãos tiveram antes na casa, mas atribui o sucesso da relação ao amor – muito além do que o dinheiro poderia dar. “O amor é o maior presente para um filho, porque com isto você luta, passa por cima das dificuldades”, diz. “Porque se há amor, a essência de tudo, uma família pode até passar fome, não ter casa, mas ela vai ser feliz”. Foi com esta mentalidade que os pais ensinaram Daiana a falar sobre a sua própria adoção, não sentir ódio da mãe biológica e entender que, diante de situações adversas, às vezes basta agir com o coração aberto.

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