Ao pegar Marcela no colo, disseram à Carla que ela não reagia a nada. A futura mãe cantou para a criança, que chorou – e virou a primeira de suas 4 filhas

Carla com Marcela e Rafaela no colo, ao lado do marido e das outras filhas: sonho de ter 4 crianças
Arquivo pessoal
Carla com Marcela e Rafaela no colo, ao lado do marido e das outras filhas: sonho de ter 4 crianças
Um é pouco, dois é bom, três é demais? No caso de Carla Penteado, quatro sempre foi o número ideal de filhos. Mas o que ela não imaginava é que o primeiro viria de forma tão inesperada. Como uma gravidez que não se planeja, mas que sempre se sonhou, a antiga workaholic da Bolsa de Valores tinha 30 anos quando resolveu participar de uma festa em um abrigo durante suas férias no Nordeste. Nem imaginava que sairia dali com a notícia de que iria ser mãe. Muito menos que fosse comunicada pela própria filha - considerada até então incapaz de responder a qualquer estímulo.

“Passei de berço em berço pegando os bebês, cantando, fazendo todos chorarem, aquela coisa que os cuidadores odeiam!”, brinca. “Quando fui pegar a Marcela, a moça do abrigo me disse que ela não reagia a nada. Achavam que ela não escutava, não via, porque ela nunca tinha chorado”. Turrona, Carla respondeu que quem não chorava era boneca. Pôs a menina nos braços e cantou. Ao ser devolvida ao berço a criança abriu o berreiro pela primeira vez, comovendo o orfanato inteiro. Diante das exclamações de “ela é a sua filha!”, Carla, acostumada com trabalhos voluntários desde os 16 anos, deu risada. Mas naquela noite não conseguiu dormir. “Eu estava na beira da piscina de madrugada quando o meu marido olhou para mim, me viu com os olhos cheios de lágrimas, e eu disse que havia deixado a minha filha no abrigo”.

No dia seguinte correram para a casa do juiz, já que o Fórum estava fechado. Para adotar a menina, Carla precisava ao menos morar na cidade em que estava. Não teve dúvida: “Você tem alguma preferência de bairro?”. Apenas 15 dias depois já estava com todos os documentos necessários em mãos, embora a equipe técnica não tenha visto o caso com bons olhos. “Viram tudo como irresponsabilidade, colocaram todos os empecilhos possíveis na minha habilitação, falavam que eu não tinha o perfil para ser mãe de uma criança especial”, conta ela, que, de tanto insistir, conseguiu a guarda. Marcela tinha apenas sete meses. Mesmo com a guarda, Carla ainda teve que acompanhar o pessoal da vara ligar para 70 casais que estavam na frente em relação à lista do CNA para saber se estavam interessados em adotar a menina. “Eu não sabia que todos iam negar. Sofri o pão que o diabo amassou”.

O processo posterior não foi menos complicado: Marcela não tinha apenas um problema de paralisia cerebral. Após passar por 18 neurologistas, Carla percebeu por conta própria que a menina poderia ter autismo, levando a filha ao melhor especialista de São Paulo. “Juntei dinheiro durante três meses para a consulta e, no fim, ele me disse que ela tinha um autismo severo, prescreveu medicação e disse para eu preparar meu coração, porque no futuro minha filha provavelmente precisaria morar um local especial”. Saiu furiosa, pesquisou na internet e entrou para uma lista de discussão sobre o assunto, conhecendo uma terapia comportamental ainda pouco conhecida no Brasil. Marcela, que poderia nunca falar, frequenta hoje o segundo ano de uma escola regular. Embora precise do apoio de uma facilitadora na sala de aula (paga pelos pais), está sendo alfabetizada.

Diante de comentários preconceituosos – chegou a ouvir frases como “Quando você tiver o seu filho biológico ele será saudável” –, Carla tomou uma atitude radical. Decidiu fazer laqueadura. “Eu ia acabar odiando uma criança que eu gerasse na minha barriga e que pudesse competir com ela, então decidi naquele momento que todos os meus filhos seriam adotivos”. Dois anos depois, quando Marcela estava com quatro anos, decidiu adotar novamente, mais uma vez uma criança especial. “Não queria que o irmão 'normal' se tornasse cuidador do 'especial'”. Rapidamente, se dispôs a adotar uma menina de 8 meses com síndrome de Down, cuja história tinha conhecera pela internet, através de uma psicóloga do Rio de Janeiro. “A juíza não me deixou ficar com a criança porque eu ainda não estava habilitada”. A burocracia a impediu de pegar a menina antes que fosse submetida a uma cirurgia cardíaca à qual não sobreviveu.

Palestras, grupos de apoio à adoção no orkut e cadastro de pessoas interessadas em crianças especiais passaram a ocupar, junto aos cuidados com Marcela, o dia-a-dia de Carla. Foi então que, visitando um abrigo, ela se viu novamente diante de um berço especial: uma menina com síndrome de Down deitada. “Cheguei até ela extasiada, quem era aquela coisinha linda?”, conta. Luana, sua segunda filha, tinha 1 ano e 4 meses, mas, por falta de estimulação, parecia ter apenas oito meses. Mais uma vez, confusão no Fórum: a criança não estava destituída. Carla se dispunha a apenas ficar com a guarda, independente do fim que ela teria, apresentando um laudo de 15 páginas sobre a necessidade que a menina tinha de ser cuidada e amada. Um mês depois, ligaram para informar que Luana estava doente – tinha princípio de pneumonia – e que, caso estivesse interessada ainda, poderia buscá-la. Mais tarde, algumas pessoas da própria família biológica se uniram para exigir que a adoção fosse rápida.

“Adotei a Luana e estava bem satisfeita com as duas, mas sonhava em ter quatro! Mantive a minha habilitação”. Nesta fase, já estava com um pé em São Paulo, para onde teria voltado após a adoção de Marcela, e outro pé em Joinville, para onde o marido partia em função do trabalho. Mesmo assim, foi na capital paulista que Carla encontrou Nadine, que iria completar 18 anos e teria que deixar o abrigo, sem ter para onde ir. Resultado: como teria uma casa maior, poderia levar a nova amiga. “Contrariando todas as expectativas, já que ela não me conhecia, passou um fim de semana na minha casa antes da minha mudança e nunca mais foi embora, só voltou para o abrigo para buscar suas coisas”, comenta. “No dia-a-dia, descobri que ela precisava muito de uma mãe, pois a vida no abrigo não a havia preparado para a adoção, para uma família, para obrigações como estudar”.

A família estava grande, bem grande, mas para Carla realizar o sonho dos quatro filhos faltava um. “Quando cheguei ao Fórum de Joinville para me habilitar, todos já me conheciam”, conta. Foi assim que uma assistente social deu o primeiro passo para que ela conhecesse sua quarta filha, Rafaela, entregue pela mãe há apenas cinco dias e internada com hemorragia intracraniana. “Ela tem hidrocefalia, nos últimos oito meses já passou por nove cirurgias, teve 20 dias de UTI, foi duas vezes desenganada pelos médicos”. Por conta de válvulas que não se adequavam ao problema, Rafaela teve duas meningites e ficou surda. Agora a família se prepara para uma nova briga: fazer Rafaela escutar novamente. “Sou um trator, não entre na minha frente, porque eu consigo tudo o que eu quero”, define Carla. Alguém duvida?

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