O diretor da Globo e sua mãe, que se tornou atriz profissional aos 70 anos, contam ao iG os segredos de sua relação especial

Jorge Fernando:
Isabela Kassow
Jorge Fernando: "Ela é meu eixo, minha formação, minha alegria"
A cumplicidade de Hilda Rebello, 86 anos, com seu filho mais velho, o diretor da TV Globo Jorge Fernando, 56 anos, não é novidade para o público que está acostumado a acompanhar a programação global. Ela estreou fazendo figuração como uma das amas da rainha da novela “Que Rei Sou Eu?” e virou figura comum nos trabalhos dele. Com o tempo, não era mais só figura, e nem estava mais só em obras dele – foi ganhando fala, espaço, personagens e, depois de muito tempo, até uma nota dez do filho.

Infográfico: Quanto custa um filho?

Hilda, que está registrada no Livro dos Recordes - “na página 72, no ano de 1994” - como a atriz que começou a carreira com idade mais avançada – começou a atuar aos 65 anos e se profissionalizou aos 70 – é objetiva ao explicar a relação que tem com o filho famoso e com a família em geral. “O que nos simboliza é o sorriso. É o que nos une”, afirma ela, que também é mãe da produtora teatral Maria Rebello.

Jorge aposta em outras qualidades. “Lealdade, verdade e espiritualidade. Nunca escondi nada dela. A gente sempre conversou muito. Ela sempre foi muito presente na minha formação”, diz ele.

Mas a mãe conta que também encontrou nos filhos apoio fundamental. Mais especificamente para recomeçar a vida após ter ficado viúva. Foi aí que nasceu a carreira de atriz –que hoje inclui 16 novelas, 3 filmes e diversas participações em séries e minisséries, além dos trabalhos nos palcos. Mas ela gosta de frisar, logo no começo da conversa, que não foi o filho o responsável por ter enveredado na carreira artística.

“Todo mundo pensa que foi o Jorge quem me colocou na Globo. Mas, na verdade, entrei por estar matriculada no curso de teatro da Maria Clara Machado. E quem me contou que existia um curso de teatro para a terceira idade foi a Louise Cardoso. Ela que pagou a minha matrícula e me fez ir até lá”, conta a atriz que, na época, estava “muito triste” após perder o marido.

Jornada
Foram três anos de curso até que, vendo a alegria da mãe, Jorge comentou que a produção da novela “Que Rei Sou Eu?” iria até lá em busca de figurantes e perguntou se a mãe gostaria de participar. Hilda fez o teste e foi aprovada. Costureira desde os 15 anos, no início afirma ter se sentido num conto de fadas. “Mudei de um dia para o outro de costureira para atriz. Fui uma Cinderela”, conta a matriarca que, na trama de Cassiano Gabus Mendes, levou a primeira bronca do filho.

Jorge Fernando ao lado da mãe, a atriz Hilda Rebello
Isabela Kassow
Jorge Fernando ao lado da mãe, a atriz Hilda Rebello
“Uma vez, durante uma cena, eu tinha que segurar uma caixinha de costura de prata, muito bonita e fina, com a tesourinha, o dedal... Eu fiquei entusiasmada com aquela caixinha. Aí o Jorge veio: ‘Mamãe, o que você está fazendo aí?’. Eu disse que estava admirando a caixinha. Aí ele: ‘Mamãe, não é para você admirar a caixinha, é para olhar a cena que está acontecendo!’. Na minha cabeça eu ainda era costureira e não atriz”, diverte-se Hilda, que não guarda mágoa das broncas do filho. Pelo contrário. “Havia uma cumplicidade em eu querer ser boa e ele querer que eu fosse melhor ainda”.

Jorge endossa: “No início, além de começar a carreira com 70 anos, era a mãe do Jorge Fernando. Não podia fazer feio. Então acho que o barato dela é que foi conseguindo melhores papéis não por ser minha mãe, mas porque foi estudando. É mérito dela”.

Nota dez
Hilda conta que o filho costumava avaliar suas cenas com notas e que custou a ganhar um 10. “No começo ganhava 5. Na ‘Rainha da Sucata’ comecei a ter fala e ele dava 6, 7, 8. O 10 foi em ‘Vamp’. E nem foi ele quem dirigiu a cena. Quando assistiu, falou: ‘Hoje você mereceu 10! A sua cena foi boa’”, lembra.

Com um largo sorriso, dedica a Jorge a oportunidade de ter papéis mais elaborados. “Ele me espremeu muito. Hoje, se fiz papéis com um roteiro, verdadeiros personagens, agradeço a ele”, afirma Hilda, que nutria o sonho de ser atriz desde a adolescência. “Mas meu pai não permitiu”, explica.

Na criação dos filhos, porém, não conseguiu evitar compartilhar o gosto pelas artes cênicas. Quando, aos 4 anos, Jorge lhe disse que seria artista, ela começou a ajudar o menino a escrever peças. “O talento dele é nato. Ele foi exatamente o que queria ser. Deslanchou e, quando vi, estava deslanchando com ele”, comemora.

União
A união é tanta que Jorge garante se emocionar sempre que tem a presença da mãe na plateia. “Entrar em cena e ver que ela está lá parece que dá um relaxamento, um conforto. E olha que ela vai muito. Se não vai um dia, sinto falta da energia dela. O público gosta da nossa relação. Fica uma coisa a mais quando ela está presente. Ela dá um aval à baixaria que eu faço no palco”, ri.

Quando não está trabalhando, o que mais gosta de fazer é reunir a família nos almoços de domingo. “Vou para a cozinha se tiver que ajudar. Jorge é muito simples. O que ele quer é carne moída, batata corada, carne assada...”.

Se o assunto são os defeitos dos filhos, é franca. “Mãe faz a forma, mas não dá tudo. Uma vez, o Jorge falou de um jeito com os contra-regras de ‘Chocolate com Pimenta’ que chamei a atenção dele. Disse que na minha frente não queria que ele falasse com ninguém daquele jeito. No dia seguinte, ele reuniu todo mundo e disse que queria pedir desculpas na minha presença. Morri de vergonha”, conta.

Mas Hilda também é boa de briga. “Ela me dá bronca, sim! Mas está ficando velha”, diz, aos risos. “ Sempre me deu. Puxa orelha com ranzinzices. Mas é normal”, brinca o diretor.

Segundo ela, enquanto Jorge “é a criação”, a irmã, Maria, é “a cabeça dele”. “Ele geralmente só pensa na Globo, mas os pés no chão são dela. É ela quem cuida de tudo e organiza. Principalmente o dinheiro. Jorge não tem amor ao dinheiro. Se hoje tem vários apartamentos foi a Maria quem comprou. Não ele”, exemplifica, antes de se desmanchar em elogios aos dois.

O filho retribui: “Ela é meu eixo, minha formação, minha alegria”.

No melhor estilo mãe coruja, Hilda pede para agradecer a todas as pessoas que sempre torceram por Jorge durante a vida e deixa um recado para os filhos nesse dia das mães. “Sejam mais atenciosos, mais carinhosos. Não é preciso estar no dia a dia porque eu e o Jorge não estamos juntos todo dia. Passamos às vezes até dois, três dias, sem nos falar, mas quando a gente se fala nos identificamos, trocamos ideias, gostos. Acho que isso une cada vez mais a nossa amizade. Porque não existe barreira, não existe censura”.

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