Mãe de gêmeos: trabalho e diversão em dobro

Por Adília Belotti , especial para o iG São Paulo |

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Se a criação de um filho já envolve muito trabalho, dedicação e amor, o que dizer de criar dois ao mesmo tempo? Conheça histórias e emoções de quem vive a aventura de ser mãe de gêmeos

Arquivo pessoal
Carol se diverte com os gêmeos em casa

Grávida de gêmeos. A notícia, que antigamente deixava todo mundo meio atônito, hoje já é encarada com mais naturalidade. A gravidez de múltiplos tem sido mais comum devido aos tratamentos de reprodução assistida, que aumentaram 166% em menos de uma década, de acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH).

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Mas ainda que as mães de gêmeos venham se multiplicando, esse tipo de gestação continua a despertar curiosidade, principalmente depois do nascimento dos bebês. Como será que elas se viram? Os seis primeiros meses são mesmo enlouquecedores? Como dividem igualmente o carinho, a atenção, as mamadas? Para saber das alegrias, estratégias e preocupações dessas “mães em dobro”, nada melhor do que ouvir suas histórias.

“Trabalho em dobro, descanso pela metade”

Para a consultora Caroline Passuello, de 35 anos, mãe de Leonardo e Rafael, o grande desafio foi estabelecer uma rotina. Até os seis meses, Carol se virou sozinha, apenas com a funcionária da casa que operava nos bastidores. No início, ela sofreu para criar um ritmo. Aos poucos, no entanto, os horários foram se estabelecendo e a rotina com os bebês parecia afinal estar sobre controle.

“Difícil mesmo continuava sendo o turno da noite,” brinca a consultora. Os dois ainda não dormiam bem e acordavam bastante. Perto de completarem seis meses, apesar de ouvir o choro de um dos meninos na madrugada, Caroline se sentiu tão cansada que não conseguiu levantar da cama. Naquela noite, o marido assumiu a tarefa integral e a dupla foi alimentada com mamadeira.

Arquivo pessoal
Caroline: diversão e trabalho em dobro

“Esse episódio foi como uma luz vermelha que se acendeu para mim: tinha atingido o meu limite físico”, relembra. Depois disso, Carol contratou uma pessoa para ajudá-la à noite com os gêmeos. Hoje, superada a fase das noites mal dormidas, ela arrisca um diagnóstico: “o difícil não é o trabalho em dobro, mas o descanso pela metade”.

A história de Carol mostra que uma mãe de gêmeos se adapta sim, mas não dá para subestimar o trabalho. A melhor receita, como ela mesma descobriu naquela madrugada, é respeitar-se como ser humano e reconhecer o cansaço e as próprias limitações.

Distribuir tarefas e pedir ajuda

A psicóloga Katia Cruz Valente, 35 anos, e o marido Filipe, 42, dividiram a surpresa e a apreensão com a notícia da gravidez de João e Luiz e até hoje continuam vivenciando dúvidas e sentimentos muito particulares.

Embora João e Luiz sejam gêmeos idênticos, cada um foi uma experiência diferente para a mãe. “Com meus filhos nada foi e nada ainda é tão igual assim, desde o primeiro dia”, revela Katia. E começou logo após o parto, quando o mais novo, João, precisou ficar internado por 11 dias, enquanto Luiz, o mais velho, ia para casa com o pai.

“É claro que desde o começo eu senti que a ligação da mãe com gêmeos é diferente, porque quando você está com um, falta o outro. O amor fica dividido”, reflete a psicóloga.
Mas, apesar de se sentir dividida e de saber que todo mundo imagina que gêmeos são ‘idênticos’ ou muito semelhantes em tudo, Katia acha que os meninos desenvolveram naturalmente temperamentos diferentes.

Hoje, a psicóloga acha que exagerou na dose. “Se eu voltasse atrás, teria sido menos centralizadora, teria delegado banho, mamadeira, troca de fralda. Mas não deixava nem minha mãe me ajudar com isso. Na época, sentia culpa de fazer por um filho e não pelo outro, um medo enorme de não ser justa na divisão dos cuidados”, relembra. Na prática, como não aceitava ajuda de ninguém, Katia pouco saía de casa, já que carregar dois bebês, montar e desmontar carrinhos de passeio é uma operação praticamente impossível de fazer sozinha.

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Katia atribui o mau juízo de dispensar qualquer tipo de ajuda principalmente à falta de sono e seu argumento, acreditem, é validado pelos profissionais da área de saúde: segundo a Société Marcé Francophone, da França, especializada no estudo das patologias psiquiátricas das gestantes e das mães de recém-nascidos, o período de até um ano após o nascimento do bebê é delicado para as mulheres em relação à padronização hormonal e isso pode favorecer quadros de estafa e até de depressão. No caso de mães de gêmeos, a instituição estende esse período até o segundo ano de vida.

Tão iguais, tão diferentes

O nascimento de um bebê é talvez a maior transformação que ocorre na relação de um casal e na vida pessoal de um homem e de uma mulher. O nascimento de dois bebês, ao mesmo tempo, potencializa essa situação, já que demanda maior dedicação e atenção de ambos. Pais e mães, no entanto, têm mecanismos diferentes para lidar com a mesma situação.

E quando são pais de gêmeos de sexos diferentes, será que essas diferenças ficam mais evidentes? Será que, na hora de dividir os cuidados dos bebês, o pai acaba mais apegado ao menino e a mãe à menina? Para o pediatra Marcos Ruiz esse tipo de preferência por gênero não tem qualquer fundamento clínico, embora “o senso comum ensine que homens têm menos resistência a cuidar de um bebê do sexo masculino, principalmente em relação à assepsia”.

Na casa de Luiza Visoni, agrônoma, 42, e de Claudio, 52, a chegada dos gêmeos Alex e Joana marcou um ponto para o senso comum. “Eu já saí da maternidade carregando a Joana e meu marido, o Alex”, relembra. Luiza acabou precisando complementar a amamentação de Alex no peito desde cedo, porque o menino tinha refluxo e não ganhava peso. Na prática, o que acabou acontecendo é que Joana mamava no peito e Alex no colo do pai. “Aí, por pura conveniência, eu trocava a fralda dela e meu marido punha o Alex para dormir.”

A distinção entre os bebês sempre se resumiu a esses cuidados práticos, pontua a agrônoma, mas o hábito estava criado: “chegou um momento em que o Alex só acalmava se ficasse ‘de um certo jeito’ no colo do pai e foi aí que fiquei na dúvida se não precisávamos ‘trocar’ um pouco de filho”, brinca Luiza. Nessa época, com os bebês perto dos três meses, ela quebrou os dois braços ao cair da escada e o casal decidiu contratar uma babá, pois “era impossível um pai cuidar de gêmeos sozinho”.

Alex e Joana vão fazer três anos e, hoje, são absolutamente diferentes, concordam pai e mãe. “O maior desafio de ser mãe ou pai de gêmeos é ajudá-los no processo de individuação e de conquista de autonomia. O fato dos meus bebês serem de sexos diferentes ajudou muito, claro, mas é preciso ficar sempre atento para garantir o espaço de cada um e não misturar tudo,” avalia Luiza. E quer saber o que é mais curioso? Alex é muito mais parecido com a mãe, no físico e no temperamento, enquanto Joana é o Claudio escrito. Há mais mistérios no mundo dos gêmeos do que sonha a nossa filosofia!

Cinco conselhos rápidos para mães de gêmeos:

- Até se acostumar com as feições dos bebês, mantenha a pulseira da maternidade;

- Não vista os bebês com roupas iguais porque na hora da mamada ou da troca de fraldas da madrugada, você, com sono, poderá se confundir;

- Coloque brincos no bebê do sexo feminino, essa é uma estratégia que vai ajudar na identificação de modo discreto;

- Faça uma tabela de horários de mamada e de troca para cada bebê – é um jeito de garantir que nem você nem ninguém pulará a vez de nenhum dos dois;

- Pense que identificar os bebês não deve fazer você se sentir mal ou culpada, ao contrário, essa é sua maior garantia de que ambos vão receber atenção igual, principalmente em relação às outras pessoas que vão ajudá-la com eles, como o pai, avós, babás ou enfermeiras.

 

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