A síndrome do ninho vazio

Para preencher o vazio que fica na casa e no coração quando os filhos saem de casa vale (quase) tudo: trabalho voluntário, esporte, romance e atividades de lazer. Só não pode é deixar a depressão tomar conta

Alessandra Oggioni

Thinkstock/Getty Images
A vida acaba quando os filhos saem de casa? Ou ela está apenas começando?
Sensação de casa vazia, refeições silenciosas, quarto sem uso. Em meio a este cenário, muitas mães associam a saída dos filhos de casa com a perda daquilo que consideram seu papel principal na vida: a maternidade. 

Foi assim quando o filho caçula da dona de casa Helena Prudente Martins de Luna avisou que viajaria para a Austrália estudar inglês. Mesmo sabendo que dali a alguns meses Mario estaria de volta, ela teve dificuldade em aceitar a decisão do filho. “Fiquei chateada, aborrecida, mas não demonstrava. Dei força para ele”, diz Helena. 

O baque maior para a mãe veio quando Mario retornou do exterior e, tempos depois, anunciou que se casaria e mudaria para a Europa. Bastante apegada ao caçula, a dificuldade em lidar com a situação foi grande porque Mario era o último a deixar a casa dos pais. Helena, também mãe de Marta e Marcelo, que já estavam casados há alguns anos, ficou deprimida, emagreceu dez quilos e precisou tomar medicamentos controlados. “Chorava à toa. Andava pela rua e achava que ia encontrá-lo”, conta.

Acervo pessoal
A família de Helena de Luna na Europa: reunir a família vira um acontecimento muito especial

As mães sofrem mais quando os filhos saem de casa
Assim como Helena, muitas mulheres são acometidas pela chamada síndrome do ninho vazio, que se caracteriza pelo sofrimento dos pais quando os filhos deixam a casa. De acordo com um estudo realizado pela psicóloga Adriana de Castro Ruocco Sartori, que atua no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e concluiu uma tese de mestrado sobre o assunto, o problema acontece com ambos os sexos, mas são as mães que sofrem mais com a partida dos filhos. 

Na pesquisa, Sartori entrevistou 46 pessoas, sendo 50% mulheres. A psicóloga constatou que quase a totalidade delas sofriam com a saída dos filhos de casa e de maneira mais intensa que os homens. “Elas têm mais dificuldade de ver o filho partindo”, afirma.


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Previna-se: não seja uma mãe “desempregada”
Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, quando os filhos deixam a casa dos pais por volta dos 18 anos, no Brasil, a saída do lar é motivo de sofrimento para muitos pais e mães, especialmente aqueles que se dedicaram de modo quase que exclusivo à educação dos filhos. “Isso acontece porque boa parte das pessoas se vê ‘desempregada’ da função de pais com a partida dos filhos”, comenta Sartori.

O psicólogo Luiz Cuschnir, que se depara com o problema a todo momento no Gender Group, grupo de psicoterapia focado em problemas de gênero do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, concorda. “São casos de mulheres que se fecharam para o mundo, dedicando-se exclusivamente e só se alimentando afetivamente dos filhos”, explica.

Ele diz que nas sessões de psicoterapia do grupo procura resgatar nas pacientes os papéis abandonados de cada uma, recuperando suas histórias de vida e seus momentos mais importantes. “É como se acordássemos essas mães de novo para os seus desejos”, ressalta Cuschnir.
 

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Como a síndrome do ninho vazio afeta a vida do casal
Além de quadros depressivos, a síndrome do ninho vazio também pode afetar a vida conjugal. Com a saída dos filhos de casa, a família ganha um novo formato e muitos casais sofrem porque se dedicaram tanto aos filhos que não se “encontram” novamente como parceiros.

Por outro lado, Cuschnir explica que a situação também pode afetar positivamente o relacionamento. “O casal pode passar a conviver mais e se aproxima. Eventualmente, aos parceiros até aprendem a depender mais um do outro, criando rotinas que podem ser saudáveis para a recuperação da intimidade e vivendo novas experiências em conjunto”, diz o psicólogo.


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Como lidar com a separação dos filhos: abra-se para o mundo
Neste processo de recuperação de identidade, trabalhar, estudar, praticar esportes, fazer serviços voluntários e ter outras atividades prazerosas é, sim, um meio de lidar a síndrome do ninho vazio.

Arquivo pessoal
Mariza encheu a agenda de atividades variadas, como tear, crochê, natação, para lidar com a casa vazia depois da partida do filho, Renato
Foi com o artesanato, o tear, o crochê e a natação que a cozinheira Mariza Petruci Romero enfrentou numa boa a saída do filho único, Renato Petruci Romero, de casa. Mãe superprotetora assumida, ela preparava a comida dele todos os dias e até fazia massagem nos pés para acordá-lo. Quando o rapaz se casou, há três anos, além do trabalho que já exercia fora de casa, ela tratou de ocupar o tempo com outros afazeres, e tirou o foco da maternidade. “Tem mãe que quer o filho só para ela, mas eu, não. Quero vê-lo amparado, com a família e a casa dele”.

Já no caso da funcionária pública Maura Fátima dos Santos, superar a saída dos três filhos de casa não foi tão simples assim, apesar de trabalhar fora. Depois que Luis Fernando e Luis Gustavo se casaram, em 2009, no ano passado foi a vez da filha caçula, Clariana, deixar o ninho e morar em outro Estado. Bastante apegada à filha, Maura caiu em depressão. “Era ao lado dela que eu passeava no shopping e ia ao supermercado. Perdi minha companhia”, conta.

De acordo com o estudo de Sartori, apesar de ser um recurso importante, mães que trabalham fora de casa não estão “vacinadas” contra a síndrome, porque o aparecimento do problema depende também da relação estabelecida com os filhos e da realização como mãe e profissional. Além disso, a aposentadoria e o início da menopausa podem agravar os sentimentos de depressão e autoestima neste período, piorando o problema.

Por isso, além de procurar outras atividades, voltar-se para a família de origem, dar mais atenção aos pais idosos e visitar os irmãos com mais frequência também podem ajudar no processo de superação desta fase. “O principal conselho é se preparar antes, ao longo da vida. Quanto mais exclusiva a vida afetiva, mas vulnerável ela se torna.  Quanto mais expandida é a vida, mais elementos as pessoas terão para se preencher”, aconselha Cuschnir.


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Como saber se a tristeza está virando uma coisa mais séria
A fase de tristeza pela saída dos filhos de casa pode durar anos até ser totalmente superada, mas é preciso ficar atenta à intensidade deste sentimento. Não conseguir mais sair, passar o tempo todo chorando, perder ou ganhar muito peso são sinais alerta. “A tristeza é normal, a pessoa leva um tempo para se conformar, mas o problema é quando há um sofrimento exagerado”, diz Adriana Sartori.

Nestes casos, a terapia pode ser o caminho mais indicado para superar a síndrome do ninho vazio. É assim que mulheres como Helena e Maura estão conseguindo vencer a depressão. “Como mãe, ainda sofro por ele estar longe, mas o pior já passou. Hoje, penso: se ele está bem, é o que importa”, diz Helena.  

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