“As pessoas ficavam na dúvida. Depois do silicone, isso acabou. Meu termômetro do resultado é a sociedade aí fora”, conta Carla

Carla Amaral largou a escola por causa do bullying que sofria por ser transexual
Arquivo pessoal
Carla Amaral largou a escola por causa do bullying que sofria por ser transexual
Até conquistar as curvas que sempre sonhou, Carla Amaral não sossegou. “Tenho lembranças dos 7 anos de idade, me imaginando adulta, com corpo violão e cabelos compridos.” Na adolescência, sem orientação nem segurança, começou a tomar doses cavalares de hormônios. “Eu injetava, tomava pílulas. Do jeito que eu fiz, não recomendo para ninguém.”

Na conta final, foram 17 litros de silicone injetados para garantir os quadris arredondados, a cinturinha esculpida e os seios fartos. “As pessoas ficavam na dúvida. Depois do silicone, isso acabou. Meu termômetro do resultado é a sociedade aí fora”.

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Ela é transexual desde os 13 anos. Por conta da discriminação em casa e na escola, largou os estudos na adolescência. “Foi a maior pressão psicológica dos meus pais, tentando me ‘corrigir’. Brigava com minha mãe para não cortar o cabelo, era uma choradeira”, lembra. “Mas ser mulher era muito mais forte do que as pessoas me diziam ao me reprimir.” Ela aproveitava a moda de homens de cabelos compridos e brincos para ficar do jeito que queria, mas “disfarçada” na multidão. Aos 13, adotou para si o nome feminino. “Um dia alguém me perguntou meu nome e eu respondi: Carla.”

Ao se mudar com a família do interior do Paraná para Curitiba, por volta dos 15 anos, Carla passou a se apresentar como mulher e conheceu pessoas que ajudaram na transformação. “Na adolescência, estava sempre preocupada com o olhar do outro. Eu já sabia como eu era, e queria que me vissem assim também.” Carla foi balconista de farmácia, trabalhou numa transportadora, em cartório, como doméstica, atendente de locadora. Ao 21 anos, se apaixonou por um rapaz e optou por ficar em casa. “Quando a gente separou, me vi sozinha, sem meu marido, sem trabalho. Descobri a prostituição como meio de sobrevivência”, conta Carla, que hoje trabalha em uma ONG.

Há quatro anos, Carla decidiu dar um basta em um dos grandes constrangimentos na vida de transexuais: a chacota pela discrepância entre o nome civil e o social. Num episódio, ela precisou ser internada para uma cirurgia, e a enfermeira-chefe disse que ia deixá-la na ala masculina. A enfermeira disse que só iria interná-la na ala feminina depois que ela mudasse de nome, independentemente de como Carla se apresentasse. “Saí do hospital com isso na cabeça”, conta. “As pessoas usam isso para te ofender. Te chamam de senhor, ou pelo nome de homem, mesmo com sua aparência feminina, é horrível.” Hoje, os documentos ostentam seu nome feminino, para quem quiser ver.

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