Não adianta negar: a maioria já passou por aquela sensação que nos faz querer desistir da segunda-feira e fugir do mundo

Força do hábito e medo da segunda-feira: a síndrome de fim de domingo pode ser combatida com reflexão
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Força do hábito e medo da segunda-feira: a síndrome de fim de domingo pode ser combatida com reflexão
Você pode se entusiasmar com o happy hour da sexta-feira, se contentar com momentos de lazer e descanso do sábado e encontrar com amigos e familiares no almoço de domingo, mas basta cair a noite para tudo mudar de figura. Desconforto, irritação e desânimo são alguns dos sintomas da “síndrome do fim de domingo”, que começam a nos atingir – sem razões aparentes – perto da hora em que a música do “Domingão do Faustão” ecoa pela sala de estar, nos lembrando de que a segunda-feira está cada vez mais perto.

Os motivos que podem colaborar para o descontentamento – e até o aborrecimento – nas últimas horas do domingo são diversos. Pode ser uma situação desgastante no trabalho ou o possível encontro com uma pessoa indesejada nos dias úteis da semana. Mas por que sentimos isso antes, se a segunda-feira nem chegou? De acordo com Erica Brandt , psicoterapeuta especializada em psicologia transpessoal, a maioria das pessoas foi educada a pensar sempre adiante, no que acontecerá no próximo momento. E é exatamente isso que acontece no domingo: os pensamentos da segunda.

Ela lembra uma cena típica de toda infância para ilustrar. “A criança está brincando na sala e os pais a interrompem para dizer que ela tem mais 15 minutos para brincar, já que depois terão outra atividade”. Segundo Brandt, esta criança já começará a pensar no depois e, se este “depois” não é algo que a agrade, ficará estressada, desestimulada. “No domingo, já começamos a nos preocupar com a segunda, a pensar no depois”, explica.

Amanhã é dia de...

Mas não é só a antecipação que colabora para a síndrome. “Cada um possui uma expectativa diferente em relação à segunda-feira. Uma insatisfação profissional, uma visita ao dentista ou até mesmo a gozação que alguém terá que enfrentar diante dos colegas de trabalho porque o time perdeu influenciam para o nível de estresse no domingo”, diz Brandt. Se o que estiver marcado na agenda vier à tona na hora do “Fantástico”, será difícil relaxar – e fácil deixar prevalecer o mal estar.

Além disso, segundo Denise Pará Diniz, psicoterapeuta comportamental e Coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp, se alguma coisa não estiver caminhando bem na vida da pessoa, há ainda mais razões para a síndrome. “Se ela não estiver satisfeita com a maneira que a vida está evoluindo, seja no campo emocional, profissional ou social, o domingo pode deixá-la mais melancólica, porque é o recomeçar da rotina”, afirma a especialista.

Estresse desde a infância

Segundo a psicanalista Elizandra Souza, a responsabilidade a segunda-feira exige – responsabilidade tal que não marca presença no domingo – é justamente o principal causador do desânimo que aparece desde a infância, quando temos que dormir cedo no domingo para irmos à escola no dia seguinte. “As pessoas não param para pensar que a segunda-feira é necessária para darmos continuidade à vida. Fica esta marca da infância, de que no domingo acabou a diversão e que na segunda é preciso voltar a ser adulto”, compara.

Para ela, isso pode acontecer até mesmo quando as pessoas gostam muito do que fazem: “Há uma introspecção maior e algumas pessoas podem ficar mais irritadas, mesmo sem saberem a razão disso, que é justamente pelo domingo estar terminando”. Para Brandt, a “síndrome do fim de domingo” pode ter manifestações ainda mais complexas. “Além de dor de cabeça, angústia, insônia e até pesadelos, também existem reações físicas ao estresse do fim de domingo, como desconforto abdominal e alterações do batimento cardíaco”, relata Brandt. “E, na maioria das vezes, as pessoas não sabem o porquê daquilo”.

Tomada de consciência

A partir do momento em que você percebe quais os motivos para todas aquelas reações diante da voz do apresentador de TV que você só escuta aos domingos, a primeira coisa a ser lembrada é que, se não produzirmos – atividade que usualmente se inicia na segunda-feira –, tampouco nos sentiremos bem. “É possível se relacionar bem com essa situação”, acredita a psicanalista Elizandra Souza. Mas é preciso reflexão.

Para Brandt, é essencial fazer um questionamento sobre a própria vida e sobre o que está tornando os domingos dias mais insuportáveis. “Enquanto você não toma consciência da sua relação com o mundo e de tudo o que é um incômodo em sua vida, você não vai poder usar a força que possui para encontrar uma solução”, afirma.

Ficar achando que nada vai dar certo, portanto, não é uma saída. Antes, é melhor descobrir o que já não está dando certo – e tentar eliminar isso da rotina. “A gente precisa aprender a se observar”, afirma. E não adianta cair em desespero na hora em que termina o “Fantástico”. O melhor é “abraçar” a segunda-feira e o que ela representa. “Você estará mais arejado e saberá que é momento de amadurecer, sair do mundo imaginário do fim de semana e lidar com os desafios”, diz. Mas fique tranquilo: em poucos dias chega o sábado novamente.

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