Modalidades típicas da cultura urbana, skate e fixa atraem cada vez mais interessadas em aliar atividade física e estilo de vida

De acordo com a Confederação Brasileira de Skate, mulheres já são 186 mil praticantes do esporte no país
Eduardo Cesar/ Fotoarena
De acordo com a Confederação Brasileira de Skate, mulheres já são 186 mil praticantes do esporte no país
Elas estão tomando as ruas. Skates e bicicletas de roda fixa estão cada vez mais sendo usadas por mulheres. Nas pistas, o aumento de mulheres skatistas é constante e gradual. “Em 2004, 5% dos praticantes eram meninas. Em 2006 o número cresceu para 8%. Em 2009 já representavam 10%. São 186 mil mulheres que praticam skate no Brasil”, diz Edson Scander, diretor esportivo da Confederação Brasileira de Skate. “O skate chegou ao país na década de 70, quando mulheres tinham menos liberdade para praticar esportes. Com a emancipação feminina, foi natural que elas começassem mudar esse cenário”, afirma.

A timidez e o receio de passar vexame na frente de um grupo de homens é um potencial afastador de mulheres da modalidade. No Rio de Janeiro, fazer aulas de skate com professores na orla virou uma febre. A dentista Renata Paschini, 38 anos, não larga do seu shape – nome técnico da prancha do skate. “Eu era a princesa da família e não podia fazer nada. Quando meu primo comprou um skate, adorei.” A dentista conta que sofreu preconceito em casa por praticar um esporte tido como masculino e que já foi visto como “coisa de maloqueiro”.

Ela saía com o skate dentro da mochila para emendar um treino depois da aula da faculdade. “Não cabia uma mulher praticando. Já imaginou uma doutora, saindo escondida, com skate dentro da mala? Sofri bastante”. De acordo com a skatista, o último boom começou em 2007. “A mídia passou a divulgar eventos internacionais de skate e a visão começou a mudar”, acredita.

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Renata dá aulas para meninas que estão começando. “A pista de São Bernardo do Campo tem um horário só para mulheres. Sempre aparecem várias para trocar ideia e fazer manobras”, diz. “Os ‘roxos’ no corpo incomodam pouco. O que mais incomoda é a vergonha de cair na frente de todo mundo.” Como boa parte das mulheres que estão há algum tempo no esporte, ela começou treinando com homens. “Eu sofri muita discriminação no começo, mas está bem melhor agora. Quando a mulher vê que ela também pode fazer manobras difíceis, ela abraça o desafio.”

Em Cuiabá, a skatista Estefânia Lima, 22 anos, sentia falta de companhia feminina. Criou o grupo Divas Skateras, convocando skatistas de todo Brasil a mandarem seus vídeos. “Eu queria amigas que pudessem compartilhar experiências. Usei a internet para buscar outras pessoas que pudessem falar de manobras, de preconceitos. Muitas meninas entraram”, conta. O grupo deu certo, e ela conseguiu formar uma comunidade de mulheres que andam de skate em Cuiabá. “Não são todas que agüentam, tem que ter muito amor pelo esporte”, afirma. “Quando comecei, todo mundo pensava que era só uma fase, que eu ia me machucar e desistir. Mas fui mostrando força de vontade e conquistando respeito dos meninos.”

Karen Jonz, 26 anos, é profissional e lembra que quando começou, o esporte era underground. “Hoje em dia toda pista tem alguma menina andando. Na época que eu comecei, era bem alternativo”

Bike fixa não tem “banguela”: conforme o pedal gira, a roda traseira acompanha o movimento
Eduardo Cesar/Fotoarena
Bike fixa não tem “banguela”: conforme o pedal gira, a roda traseira acompanha o movimento
Sem freios
Já as bikes de roda fixa, uma modalidade urbana que chegou ao Brasil há cerca de quatro anos, precisaram de bem menos tempo para conquistar adeptas. A bicicleta é semelhante a uma de corrida em pista, que não tem marchas nem freios. . Ou seja, até mesmo nas descidas as pernas pedalam. As fixas permitem manobras e exigem um pouco mais das pernas em subidas.

A designer Carina Chandan, de 26 anos, se apaixonou à primeira vista pelas fixas. E faz piada: “Pedalo desde os três anos de idade, quando ganhei meu velotrol, que por sinal era uma roda fixa.” Há um ano, ela viu um vídeo na internet, achou a bike diferente e começou a pesquisar. “Fiz um projetinho, pintei o quadro e fui atrás das peças, tentando economizar o máximo possível e deixando ela com a minha cara.”

O que Carina obteve foi uma fixa com as características clássicas desse tipo de bike: minimalista, leve, rápida, simples e prática. “Quando você começa a pedalar ela não para mais, ela te embala. Costumo dizer que a fixa tem um coração, só pedalando para sentir.” A designer adora manobras, e não perde uma oportunidade de praticar – e ensinar, se houver uma mulher em volta disposta a aprender. “Acredito que a fixa diz muito do dono. Você sabe quem realmente gosta desse estilo de vida e quem só tem uma porque está na moda.”

“Em 2008, montamos uma por semestre. Hoje são quatro por mês”, diz Leandro Valverdes, sócio da Ciclourbano , loja de bicicletas em São Paulo especializada em fixas. Ele nota uma diferença de perfil entre compradores homens e mulheres. “Um homem chega com uma demanda, mas se não tem para pronta entrega, ele escolhe outra e leva na hora. Mulheres pesquisam mais, decidem o que querem, negociam preço. Elas compram menos por impulso do que homens”, afirma. Com o aumento na procura, a tendência é que a variedade no mercado brasileiro de fixas disponíveis em tamanhos menores, adequados para mulheres, cresça nos próximos meses, de acordo com Valverdes.

Pablo Gallardo, sócio da loja de design Tag and Juice , que também trabalha com fixas, afirma que a possibilidade de customização das bikes e combinação de cores enche os olhos das meninas. “Gera uma relação mais pessoal com a bike. Ela está no contexto de quem trabalha com design, arte, música e fotografia. Não é só uma bicicleta”, afirma. “No exterior tem pouco a ver com cultura ciclística, muito mais com comportamento”, afirma.

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