Semelhante à infantil, a creche canina oferece brincadeiras, alimentação e higiene adequadas para pets

Daniel e Eliane mudaram de casa para ficarem mais próximos à creche dos cachorros
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Daniel e Eliane mudaram de casa para ficarem mais próximos à creche dos cachorros
De manhã, hora da brincadeira. Todos os alunos esbanjam energia e correm pelo pátio. As professoras separam por preferência: quem gosta de natação vai para a piscina, outros preferem jogos com bola. Há brinquedos educativos também, que ajudam a desenvolver habilidades motoras e o raciocínio. Logo mais, hora do almoço. Cada aluno tem sua lancheira e pertences pessoais, como escova de dente. De tarde, sonecas e mais brincadeiras. No fim do dia, as professoras entregam os alunos de volta aos “pais” e contam o que fizeram. Quase tudo é muito parecido com uma creche infantil – a principal diferença é que os “alunos” são cachorros.

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O analista de sistemas Daniel Silva de Castro, 35 anos, e a gerente de agência de viagens Eliane Cristina Kral, 30 anos, buscavam uma alternativa para não deixar o lhasa apso Mike sozinho, em casa. Mudaram da Zona Leste para o bairro de Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, para ficarem perto da creche DogTown. “É melhor para os cachorros, né?”, diz Daniel. Ter outros bichos para socializar e espaço para correr e brincar foi tão bom para Mike que eles decidiram aumentar a família com a yorkshire Jackie. “Começamos deixando-os duas vezes por semana e agora eles ficam de segunda a sexta na creche”, diz Eliane. “É quase um treino para ser pai”, brinca Daniel.

Creche x hotel
Só em 2010, pelo menos oito creches para cachorro foram abertas em São Paulo, segundo as contas de Renata Caetano, proprietária da DogTown, em Perdizes. “A localização faz toda a diferença no conceito de creche. Precisa estar perto da casa dos donos do animal, já que ele vai ficar lá com freqüência. Essa é uma das maiores diferenças de um hotel para animais.”

No hotel, o pet fica durante viagens ou ausência do dono, por exemplo, e dorme no local. Os animais ficam restritos em baias quando não estão no horário de brincadeiras.
Nas creches, os únicos momentos individuais são a alimentação, a escovação de dentes e o banho a seco, antes de serem devolvidos aos donos, no final do dia. Na hora das brincadeiras estimuladas pelos recreadores, os animais são separados entre os de menor porte e os maiores, para que todos possam ficar à vontade. No resto do tempo, eles ficam juntos.

Mingau, um buldogue adotado por Roberta, precisava aprender a conviver com outros cães
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Mingau, um buldogue adotado por Roberta, precisava aprender a conviver com outros cães
Vida de cão
“São dois os principais perfis de pessoas que nos procuram: donos culpados e donos preocupados. No primeiro caso, o cachorro fica muito tempo sozinho em casa, estressado, e começa a destruir o apartamento. No segundo, os donos acham que a creche ajuda a melhorar a qualidade de vida do cão”, afirma Paulo Carreiro, dono da DogWalker, empresa na Zona Sul de São Paulo, que recebe cerca de 60 cães – a lotação máxima.

Para as diferenças comportamentais de raça e porte resultarem num ambiente harmonioso e divertido para os peludos, é importante ter regras. Algumas creches não aceitam fêmeas no cio nem machos não castrados. “São os casos mais complicados, porque causam disputa entre os cachorros”, afirma Carreiro. Os animais passam por uma avaliação completa de saúde, e só são aceitos cães que estejam com todas as vacinas em dia. Cachorros tímidos ou medrosos passam por uma socialização e aprendem a conviver com os outros. “Temos profissionais que conseguem fazer um cachorro se tornar mais sociável. Dependendo do caso, o trabalho é feito por um adestrador externo”, diz Carreiro.

O convívio com outros cães e o gasto de energia são fundamentais para Mingau, um buldogue de um dois anos, que foi adotado por Roberta Castro, oficial registradora de 35 anos. “O buldogue tem um temperamento difícil, um jeito meio bruto de brincar”, conta Roberta.

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Na DogWalker, os cachorros passam por uma rotina que inclui higiene com escova de dentes e banho a seco, brincadeiras no playground, piscina para os cães que gostam de brincar na água, playground e rotinas de integração para o cachorro gastar energia física e mental. “Ao frequentar a creche, a relação com o dono geralmente melhora. Quando os dois chegam em casa, estão no mesmo nível energético”, afirma Carreiro. “Temos até festinhas entre os donos para promover a interação. A festa junina é um sucesso”, diz. Dá até para matar a saudade dos focinhos por meio de câmeras que transmitem as atividades da creche online.

As mensalidades variam de acordo com a quantidade de vezes por semana que o cachorro freqüenta o local. Na DogWalker, os preços variam entre R$ 360 mensais, duas vezes por semana, a R$ 660 todos os dias, incluindo fins de semana. A diária avulsa sai por R$ 50. Serviços de van para transporte de ida e vinda, banho e tosa e convênios com veterinário costumam ser oferecidos à parte.

Igor mora em apartamento e queria que os cachorros fizessem mais atividades
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Igor mora em apartamento e queria que os cachorros fizessem mais atividades
Cachorro feliz, dono tranquilo
A gerente de marketing Isabella Helou Doca de Andrade, 31 anos, é uma das clientes da Dogtown e usou a creche de cachorros como tema de sua pesquisa de pós-graduação pelo Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). “O perfil do usuário da creche é uma mulher, casada, sem filhos, com renda entre R$ 5 mil e R$ 15 mil, que mora em apartamento e se preocupa com a qualidade de vida do animal”, afirma Isabella. As mulheres são 75% dos clientes, e 41% têm entre 41 e 50 anos.

A pesquisa identificou também que a clientela reside próxima ao daycare canino. “Na prática, é muito parecido com uma creche infantil. São casais com alto poder aquisitivo em mãos, que adquirem bens e serviços para ter mais qualidade de vida. São pessoas que tratam o animal como um membro da família”, afirma Isabella.

O publicitário Igir Archipovas, 35 anos, mora em apartamento, e acredita que seria difícil oferecer às boxers Lua, de seis anos, e Dakota, de um ano e seis meses, uma rotina de atividades adequadas para os animais. “Aqui elas gastam energia. Senti uma grande melhora comportamental, elas estão mais sociáveis”, afirma.

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