Corpo de mãe

As mudanças do corpo na gestação vão muito além do ganho de peso, mas a vergonha impede que se fale a respeito

Carina Martins, iG São Paulo |

Grávida nua todo mundo já viu. Na capa da revista. Braços, pernas e rosto esguios como sempre, nada a denunciar a gestação além do perfil da barriga, invariavelmente na mesma pose em que as mãos cobrem as "vergonhas". Fora esta versão impecável, bidimensional e imutável que é repetida a cada vez que alguma celebridade chega ao terceiro trimestre, as mudanças do corpo na gravidez e logo depois do parto seguem escondidas e isoladas. Sem terem em sua intimidade mulheres mais experientes com quem trocar informações e soterradas por imagens e notícias de emagrecimento recorde que mais soam como uma vitória contra o corpo de mãe, mulheres jovens e informadas são pegas de surpresa por mudanças absolutamente naturais.

Enquanto carregava seu bebê, uma jovem mãe se contorcia para passar entre as mesas de um café na Califórnia, EUA, há quase cinco anos. Sua camiseta levantou um pouco, deixando à mostra o corpo magro e em forma da moça, mas também uma sobra de pele na barriga que Bonnie Crowder logo reconheceu como se fosse a sua. Ela, também mãe recente, teve então a idéia de criar "The Shape of a Mother" , um site com imagens daquilo que considera “um dos maiores segredos da sociedade”: o corpo na gravidez e pós-parto.

O aforismo talvez não seja exagero de Bonnie. “Nem sempre a mulher tem a oportunidade de compartilhar o que está passando. A gravidez vem com muito preconceito, às vezes até de quem chega já vir falando ‘nossa, como você está feliz’, o que nem dá a oportunidade de ela falar o que realmente sente”, diz a psicóloga Vera Iaconelli, coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal . “A maternidade é perseguida por idealizações”. Isso não significa que ser mãe seja padecer onde quer que seja. Mas que fingir que a concepção transforma as mulheres em seres plenos e intocáveis pode impedir que elas se conheçam melhor e vivam essa fase, aí sim, plenamente.

A estudante de jornalismo Bruna Pereira, 22, mãe de uma menina de seis meses, nunca tinha visto o corpo de uma mulher grávida ou que tivesse dado à luz recentemente. Não sabia, por exemplo, que virilha, axilas e bico dos seios quase sempre escurecem bastante. As manchas a pegaram de surpresa. “Eu me esfregava com algodão e álcool para aquilo sair”, conta. “Depois me disseram que era normal, mas aí eu não tinha preparado meu psicológico”. Após uma gravidez tranquila, sem grandes inchaços nem estrias, ela amamenta Duda e espera que a linha nigra da barriga desapareça e que os seios voltem à cor normal. “Minha médica disse que a tendência é clarear, e o tamanho diminuir. Agora sei que isso não acontece só comigo, mas é assustador”, confessa.

Arquivo pessoal
A gaúcha Bruna posa grávida de oito meses
“A gente vive numa cultura de isolamento, as pessoas não têm mais aquela família estendida. Tudo bem, essa é uma das mazelas da atualidade. Mas nunca antes disso a mulher teve que criar o bebê sozinha, sem pares”, diz a psicóloga. “Antes tinha sempre três ou quatro mulheres que já tinham passado por isso para orientar aquela que engravidava pela primeira vez. Agora, se o bico racha e dói na hora de amamentar, ela vai chorar sozinha”. Esse isolamento somado à idealização da maternidade – o conceito de que as mães de verdade se sentem plenas e realizadas durante toda a gestação – faz com que não se fale abertamente das mudanças normais do corpo.

Inchaço
Cristina Bertoni, 33 anos, já tinha acompanhado de perto a gestação de sua mãe, que deu à luz seu irmão quando a paleontóloga tinha 13 anos. Com isso, ela já conhecia boa parte das alterações que seu corpo sofreria quando ficou grávida de Henrique. Mesmo assim, ela não esperava que seus seios e axila escurecessem tanto. “Sou meio natureba e não pensava em ter corpo de mãe de novela. Adorava meu corpo de grávida, todo redondo. Mas a axila preta incomodava”, conta.

Como sempre teve uma boa relação com seu corpo, Cristina fala abertamente das mudanças que enfrentou durante a gestação. Até mesmo das mais íntimas. “Uma das mudanças que me pegou de surpresa foi o inchaço da vagina”, diz. Apesar de ser muito comum e, como o escurecimento, voltar ao normal depois do puerpério, poucos médico avisam suas pacientes a respeito, e o inchaço pode assustar algumas mulheres. “Parei de usar calcinha três meses antes de o Henrique nascer, e só voltei depois do parto”. Não acontece só com ela. E é normal.

Vazio
A única mudança de que se fala abertamente em qualquer círculo em que esteja uma grávida é o ganho de peso. Mas isso nem sempre alivia. “Estar grávida está quase sempre associado a estar gorda, o que em nossa cultura é quase um desvio de caráter”, diz a psicóloga Vera Iaconelli. Para ela, as mudanças são encaradas de forma diferente de acordo com a relação que cada mulher tem com o próprio corpo. De qualquer forma, são sempre profundas. “É claro que é uma adaptação muito drástica. A mulher ganha de 12 a 20 quilos, o eixo corporal muda, tem toda uma adaptação a uma nova configuração corporal”. E depois, uma nova adaptação, quando o bebê nasce e ela se vê com uma barriga vazia.

Arquivo pessoal
Mesmo magrinha, Cintia tem vergonha da barriga
“A gente até lê que 'demora' um pouco para 'voltar ao normal'. Eu tinha uma vaga noção de que a barriga ficaria grandinha logo depois do parto. Segundo me falaram, 'parecia que ainda estaríamos grávidas de uns quatro meses'. O que pra mim significava somente não servir nos jeans, né”, diz Cintia Del Rio, 24 anos e mãe de dois meninos. “No pós-parto, o que assusta muito é a barriga. Ela fica um saco murcho, muito grande. É bem isso: tiram o bebê e fica vazia”.

Acontece com quase todas. “A sensação é de esvaziamento mesmo”, afirma Vera, explicando que a partir daí a mulher tem que se adaptar à transferência de atenção de sua barriga para o bebê. “Tem também a fantasia de que a barriga nunca mais vai voltar, o que é uma bobagem”.

Cintia sempre foi magra, e rapidamente perdeu o peso que ganhou nas duas gestações. Diz que, como no caso da mulher que inspirou Bonnie Crowder, ficou com alguma flacidez na região. “Meu mais velho tem 2 anos e eu não tenho coragem de usar biquíni. Sinto vergonha da minha barriga, a mesma que gerou dois meninos lindos”, desabafa. “E parece que, se ficamos 'feias', a culpa é nossa. Se temos estrias, flacidez, é porque 'não nos cuidamos'. E não porque esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer um, por melhor que cuide”.

Fase
E não ajuda nada o bombardeio de famosas que saem do parto direto para esteira, tentando se livrar seu corpo de qualquer indício de maternidade. “Não é só o corpo de gestante que ela quer superar, é também esse esvaziamento, mostrar que tem absoluto controle sobre o corpo dela”, analisa Vera. “A rapidez com que isso é feito é muito suspeita. Tem um pouco de fobia de cair no papel de mãe e não sair nunca mais”.

Para algumas, a postura das famosas causa inveja. Para outras, ofensa. Bruna Pereira, que ainda não voltou ao peso de antes da gestação, diz que sente “uma pontinha de inveja” dos recursos que permitem a elas exibirem um corpo impecável logo depois do parto. Já Cristina desaprova. “Me ofende a Juliana Paes falando na revista que se odeia grávida e que não vê a hora de voltar ao peso. Isso é um desserviço à maternidade e fora da realidade das mães normais, como eu”, afirma.

“As mulheres estão um pouco fóbicas no pós-parto. Ficam apavoradas e deixam de viver o puerpério, que não dura 30 anos. São meses. Depois passa”, lembra Vera.

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