Fóruns, blogs e comunidades na internet viram ponto de encontro de mulheres que discutem desde carreira até a criação de trigêmeos

. Trocar conselhos de amiga já dependeu de horas ao telefone ou intimidade com a vizinha, mas não mais. As mulheres são 49% dos internautas brasileiros, e maioria em praticamente todas as redes sociais: Twitter, Facebook e Orkut entre elas. Com essas ferramentas, elas se organizam em fóruns, comunidades, grupos de discussão e listas de blogs para resolver questões do dia a dia e discutir o cotidiano. “Mulheres são educadas para serem sociais, enquanto os meninos são educados para serem autossuficientes e isto repercute nos relacionamentos”, diz Maria Piedad Rangel, doutora em psicologia pela PUC-RS.

Grupo de amigas que se conheceu através de um site para mães de
Divulgação/Site Múltiplos
Grupo de amigas que se conheceu através de um site para mães de "múltiplos"
Em muitos casos, as comunidades são abertas por mulheres que buscam desabafar ou resolver problemas que elas mesmas têm, mas acabam se tornando referência para outras na mesma situação. E não é raro que as trocas virtuais “vazem” para o mundo real, seja ajudando usuárias a resolver problemas ou tornando-se verdadeiras empresas.

Gladis Costa, gerente de marketing e comunicação para América Latina de uma empresa de software, criou há pouco menos de um ano o grupo “Mulheres de Negócios” na rede de contatos profissionais LinkedIn. Hoje, o grupo tem mais de 700 participantes, e é o maior do gênero no site. “Queria conversar sobre negócios com pessoas da minha área em tempo real, não ter que esperar um encontro, um almoço, happy hour”, explica Gladis sobre a criação do grupo. O “Mulheres de Negócios” é aberto também para homens, apesar de eles representarem apenas cerca de 5%, e não trata apenas de discussões com viés feminino. Algumas das questões mais debatidas servem para profissionais dos dois gêneros, como gestão de carreira. Mas há também trocas de experiências e debates sobre discriminação e assédio moral. “A gente discute muito a coisa da idade, que é uma coisa que pesa mais para a mulher. Falamos da dificuldade de quem é mãe e descobre que quando a escola liga, a reunião dele vai ser sempre mais importante que a dela”, exemplifica.

O grupo de Gladis realiza encontros no “mundo real”, em que ela convida palestrantes para falar sobre os temas mais procurados. No último encontro, criaram uma hierarquia para designar responsáveis por diversos grupos de trabalho dentro do mundo virtual. “Isso é uma empresa. Seria muito egoísmo da minha parte querer fazer tudo e impor meu ponto de vista”, diz Gladis. Além disso, os encontros têm sempre uma rodada de negócios. “No primeiro encontro, uma advogada fez uma apresentação tão boa que impressionou uma nova cliente e ganhou a contratação lá mesmo”, conta Gladis. “Também publicamos vagas. A gente se ajuda. Se você não faz alguma coisa com a informação, ela não vira conhecimento”.

Mas nem tudo são negócios. “No fim do ano fizemos um encontro de confraternização. Aí pintou o lado “lulu”, largaram a roupa de trabalho corporativo e começaram a falar delas, se estavam de felizes ou não. Ficamos conversando até meia-noite”, diz ela. No dia a dia, no entanto, clichês femininos são proibidos. “Dos três “Cs” – celulite, celebridades e carreira-, só carreira pode entrar nas conversas do grupo”.

A blogueira Lu Francesa mostra o
Divulgação
A blogueira Lu Francesa mostra o "antes e depois" de seu emagrecimento
Se em um grupo voltado para o mundo dos negócios celulite é assunto proibido, na rede de blogs de emagrecimento ela é quase a estrela principal. A blogueira conhecida como Lu Francesa é autora de um dos pioneiros no segmento. Há sete anos compartilha na internet o cotidiano de sua reeducação alimentar. Ao longo dos dois primeiros anos, perdeu 40 quilos. “A cada dia aumenta o número de blogs sobre o assunto, mas muitos têm curta duração. Hoje pelo menos 800 pessoas seguem o blog pelo sistema do Google, mas existem outras que não estão ligadas a este sistema”, diz, afirmando que sua página tem entre mil e duas mil visitas diárias.

Nos comentários de seus posts, o tom predominante entre as leitoras é de apoio. Muitas também criam páginas para celebram quando as demais conseguem seguir sua “R.A.” (sigla que usam para reeducação alimentar”, e dão força quando confessam ter tido um dia de “pé na jaca”. “A grande vantagem é manter o ânimo, compartilhar momentos diários com pessoas que passam pelo mesmo que você”, diz Lu Francesa. “É um grande grupo de apoio e ajuda sim”.

Mães de muitos  

A identificação entre quem vive as mesmas situações também é o trunfo apontado por Majoy Antabi, fundadora do site Múltiplos , voltado para mães de gêmeos, trigêmeos e que tem até sêxtuplos. “Em 2002, eu me vi grávida de trigêmeos e completamente perdida, alucinada, assustada”, conta com bom humor. “Então ia escrevendo tudo que acontecia comigo. Quando me dei por conta, estava recebendo muito email de gente na mesma situação”. Hoje são quatro mil cadastradas “na mesma situação”, além de mais de mil no fórum de discussões. “Essa comunidade só cresce, todo dia entra gente. E eu acabo virando um pouco uma referência para elas”. Segundo Majoy, os temas mais discutidos dependem da fase em que as mães estão, já que tem desde grávidas até mãe de adolescentes trocando informações. Mas tratam, por exemplo, de como escolher bem as babás, se é certo separar na escola, como lidar com o marido.

O primeiro encontro de usuários do site Múltiplos reuniu 45 famílias
Divulgação/Site Múltiplos
O primeiro encontro de usuários do site Múltiplos reuniu 45 famílias
Assim como no caso do “Mulheres de Negócios”, o Múltiplos também promove uma série de atividades fora do mundo virtual, que vão desde encontros com centenas de pessoas na casa da própria Majoy até happy hours beneficentes em que crianças não entram, passando por cursos de assessoria para grávidas. Um dos casos que mais marcaram Majoy, aliás, começou fora do site. Ela conta que muitas das usuárias têm adesivos que as identificam como membros e mães de múltiplos em seus carros. Por causa disso, sua representante em São Paulo foi parada no trânsito por uma mulher que minutos antes tinha descoberto uma gravidez de trigêmeos e estava muito confusa. Ela então foi tomar um café com a futura mãe para trocar experiências, e essa troca continuou depois através do site. Agradecida, a nova mãe batizou seus trigêmeos com os nomes dos trigêmeos da representante do site: Nicholas, Gabriel e Stéphanie.

“A discussão que temos que propor é sobre a responsabilidade social das chamadas redes sociais através da mídia. Temos que nos aproximar para construir ferramentas que possam intervir na construção de redes sociais virtuais que sejam promotoras de bem-estar e saúde”, acredita a psicóloga Maria Piedad Rangel, que afirma que ainda há muito a ser estudado sobre essas relações. “Devemos estar abertos à aceitação de novas formas e modos de relações. O futuro está aí, para nos apresentar novas e impensadas formas de relações humanas pessoais e sociais”.

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