27/06 - 15:27
Será que ser gordinha é tão ruim assim?
O final do SPFW trouxe, entre outras coisas, uma novidade sobre a qual vale refletir: a forma física da top model Karolina Kurkova
Lícia Egger Moellwald
A linda tcheca arrasou desfilando sem pudor suas dobrinhas e o derrière com celulite, entre os corpos magérrimos, cheios de ossos à mostra e pernas finas.
Para quem é “normal”, a modelo surpreendeu porque sugeriu, mesmo que sutilmente, que existe possibilidade de vida para quem não está em dia com a balança.
A abrangência do desfile de Kurkova e do estilista que a deixou subir na passarela, com o corpo totalmente fora do padrão, é enorme, e deixa claro que a beleza não tem como pré-requisito a magreza.
A moda de maiôs, biquínis e roupas que não permitem que o corpo se esconda tem obrigado o mundo feminino à busca incansável de uma plástica impecável. Exigência esta que começou como um decreto só para modelos, mas está, mais do que nunca, no dia-a-dia de mulheres do mundo inteiro.
Hoje, para uma boa parte das integrantes do mundo feminino, ser qualquer coisa menos que magra tem o mesmo significado de ser uma derrotada. Bulimia e anorexia estão aí como dramas do cotidiano de muitas famílias, e tudo porque a imagem da magreza se sobrepõe a qualquer outra possibilidade de identidade feminina.
O que está normatizado como ideal corporal, mesmo com a denúncia física de sofrimento, parece não ser suficiente para servir de alerta sobre uma vida de dietas sem um propósito efetivo.
E foi justamente a traição contra o “stablishment” cometida por Kurkova que encantou. Mesmo acima do peso, ela mostrou que continua linda e, o melhor, parecia se divertir com o fato.
Na opção pela magreza, as mulheres se esquecem de que optam também por abrir mão de muitas outras possibilidades, como a de ser boa companhia num jantar, num drink desencanado ou de cometer um abuso só porque a companhia valia a pena.
Não se trata aqui de defender que se abra a boca para qualquer tentação, ficar obesa ou abandonar uma vida saudável, mas de viver no sentido mais amplo da palavra, de abandonar a escravidão da penúria alimentar.
Submeter-se com radicalismo à balança acaba, na maioria das vezes, penalizando quem compartilha o dia-a-dia com a pessoa e, não há ninguém que aprecie conviver com quem vive em abstinência.
Kurkova inovou ao dar provas concretas de que um pequeno excesso de peso pode ser uma deliciosa sugestão do quanto é bom viver com certa luxúria alguns aspectos da vida.
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