Três gerações de mulheres dividem o mesmo teto. Com doçura e firmeza, elas dão o tom da própria vida, sem palpites masculinos

Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
TriciaVieira/Fotoarena
Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
Numa casinha pink, perdida em ruas sinuosas da Zona Norte de São Paulo, moram cinco mulheres. Cortinas rendadas protegem as janelas de olhares curiosos. Na sala, os móveis, quadros e vasos de flores se alinham no aconchego de paredes lilás. Num quarto dorme Márcia Santana, a chefe de família que dá as regras desse bunker cor-de-rosa, e sua filha mais nova, Laís, de 17 anos. No outro extremo, fica o quarto de Jéssica, de 22 anos, onde corre o sangue mais quente da família.

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Compartilhando o quintal, moram nos fundos ainda Aparecida de Araújo Santana, 60 anos, mãe de Márcia e avó das meninas, e Rosane, filha temporã de Aparecida, que tem 18 anos – mais próxima das sobrinhas que da irmã nos gostos, medos e sonhos.

Toda essa concentração de estrogênio começou na última noite do ano de 1999, quando se mudaram para a casa. “Consegui desencaixotar tudo, arrumar as coisas e ainda preparamos a ceia de Ano Novo”, lembra Márcia. “O resto da família, primos, tios, também passaram aqui”. Laís passou ali a virada, mas não veio para ficar. Um desentendimento com a mãe aos 10 anos de idade fez com que ela preferisse morar com o pai. Mas a saudade da mãe a trouxe de volta. “Foi bom ter morado com meu pai”, diz Laís. “Ele me fecharia numa caixinha para me proteger, se pudesse, mas eu nem ligo”, diz a adolescente. “Eu ligo!”, protesta a irmã contra a superproteção de Laís.

“Ela também não tinha privacidade, sabe? Morava com o pai e a avó, mas não parava de entrar e sair gente na casa”, diz Márcia. “É primo, tio, criança correndo para todo lado”, completa Jéssica. Laís concorda com a cabeça. A mais quieta e chorona das três não perde um diálogo das mulheres ao seu redor, mas pouco fala. “Para de chorar, Laís, vira homem”, provoca a irmã às vezes. Laís nem precisa responder: o rosto diz tudo.

TPM e doçura
Quando falam de TPM, os olhos reviram só de lembrar do clima que paira na casa. Os ciclos das moças não coincidem somo, dizem, às vezes acontece com mulheres que vivem juntas. E isso significa que há sempre alguém sob efeito dos hormônios. “É um horror. Você já acorda e percebe que é melhor não dar nem bom dia”, diz Jéssica. Márcia está tomando pílula e parou de menstruar há dois anos – uma a menos a sofrer com o carrossel hormonal. Resta a ela gerenciar o mau humor das duas. “Cada uma é numa época do mês”, suspira.

Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
TriciaVieira/Fotoarena
Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
Mas muita mulher junta não é só TPM. É também não ter vergonha da doçura. Pela casa não faltam docinhos. Dos potes de jujuba e bala de goma na cozinha às barras de chocolate e balas de coco escondidas na sala ou na cabeceira da cama, tem sempre açúcar por perto. “Sabe o que não falta no nosso carrinho de supermercado? Doce, muito doce”, diz Jéssica. É fácil acreditar: numa espiada nos armários da cozinha, sete quilos de açúcar, seis de latas de leite condensado e outras seis de creme de leite na geladeira, chantilly e três bandejas de danoninho comprovam. “Outro dia minha mãe abriu o armário e gritou ‘Não tem leite condensado’ como se estivesse faltando arroz com feijão na casa”, se diverte a primogênita. Donas de uma genética privilegiada, as três são magras e elegantes.

Tudo é de todas
Dividir é mesmo coisa de menina. Maquiagens, sapatos e peças de roupa, claro, são emprestadas, trocadas e compartilhadas. “Perdeu alguma coisa?” é o mote quando uma delas entra no quarto pé ante pé e começa a fuçar no guarda-roupa alheio. Sem papas na língua, a outra logo responde: “Quem perdeu foi você!”, e sai rindo, com o objeto de desejo emprestado na mão. Bom humor é uma regra instaurada na casa por Márcia: “Não quero ninguém de cara fechada, não na minha casa”. O que não impede que antes de uma festa ou saída à noite, as mulheres troquem críticas (duras, mas construtivas) sobre a aparência uma da outra. As alfinetadas vão de um muxoxo de Laís a um “Mãe, você está ridícula”, da sempre afiada Jéssica.

E elas conhecem bem a aparência uma da outra. Numa casa só de mulheres, ninguém sofre com vergonha de si mesma. Enquanto uma toma banho, tudo bem outra entrar no banheiro para buscar alguma coisa. “Toalha, aqui, é na cabeça. A gente anda pela casa de calcinha e sutiã sem problema nenhum”, comemora Márcia. As filhas fazem coro: poder fazer o que querem é a melhor parte de morarem sem a companhia masculina.

Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
TriciaVieira/Fotoarena
Os guarda-roupas de todas acabam sendo compartilhados
A geladeira junk é outro orgulho das três. “Fruta estraga aqui”, diz Jéssica. “Quando vou na casa do meu pai, ele cobra que eu coma direito. Não agüento mais ouvir o sermão dele para eu tomar leite”. As três não gostam muito de exercício, e também não se obrigam. “Se eu tivesse alguém pegando no meu pé, eu acho que até malharia”, diz Márcia, que trabalha em uma academia. “Mas como não tem, só malhamos a língua, fofocando e mastigando o dia inteiro”. Quando não está a fim de cozinhar, Márcia passa longe do fogão, sem culpa.

Liberdade e limite
Tanta liberdade entre elas tem por trás regras firmes. Márcia mantém o tempo todo o olho nos namorados das filhas, que passam parte do fim de semana por lá. Quando ela não está em casa, eles não podem ficar. Nessa hora, a casa de mulheres vira um organismo vivo em que uma tem o instinto de proteger a outra.

“A Laís é quase minha irmã”, conta Rosane. “Morar com elas é legal e complicado ao mesmo tempo. Se um dia tem gente estressada de TPM, por outro lado elas entendem e sabem o que você sente”, diz. “Por ser mulher, a gente usa muito o emocional, mas é por isso mesmo que a gente consegue pedir desculpa. Eu sou chorona, peço desculpa milhões de vezes.” Como Márcia é tutora da irmã, a marcação é forte. “Ela é minha ‘irmãe’, tem um cuidado redobrado comigo”. Rosane é filha de um segundo casamento, e perdeu o pai aos 5 anos. Com tantas mulheres ao redor, amortizou a falta, que ainda bate no Dia dos Pais.

Homens na casa são visita. “Meu pai aparece às vezes para trocar uma lâmpada ou algo assim, mas fica pouquinho”, diz Jéssica. Márcia se casou jovem, com 17 anos, e, depois de uma década, o casamento acabou. Acredita que se casaria de novo. “Com a experiência que tenho hoje, seria diferente. A mulher amadurece mais rápido, principalmente quando tem filhos”. Jéssica já corta: “Não quero estranhos aqui não. Não ia dar certo. É só para não tirar nossa privacidade. Imagina se a gente não vai poder mais andar de calcinha e sutiã pela casa?”. Márcia reconhece que estarem só entre elas a deixa mais individualista, mas se defende. “Se tivesse um homem aqui, não ia mudar minha decoração. A casa é sua, você cuida, você tem todo o trabalho, e vem um homem dizer como deixá-la? Não!”

Elas confessam que há horas, contudo, em que homens por perto fazem falta. Quando uma barata invadiu o quarto de Jéssica e parou justo em cima da maçaneta do quarto, por exemplo, ela não teve dúvidas: escapou pela janela. Em uma madrugada, ela ouviu um barulho na cozinha e foi ver o que era. Deparou-se com um ratinho. “O grito foi tão alto que um vizinho saiu de casa armado, achando que a gente estava sendo roubada”, ri Márcia. Esse é um medo que passa longe. “Nunca grilei de ficarmos sozinhas aqui”, afirma.

Nas duas vezes em que engravidou, Márcia quis filhos homens.“ Eu sabia que era menina, mas queria meninos de qualquer jeito. O enxoval das duas foi azul”, conta Márcia. Perguntadas se preferem filhos homens ou mulheres, Jéssica e Laís respondem em coro: “Meninos!”.

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