Ranya, companheira de cela de Baida, afirmou que não sabia estar carregada de explosivos

Mulher anda com criança próximo ao local onde,
em 4 de janeiro, uma mulher-bomba explodiu
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Mulher anda com criança próximo ao local onde, em 4 de janeiro, uma mulher-bomba explodiu
A estrada até o distrito de Abu Sayda, em Diyala, deveria cruzar uma gigantesca ponte na rodovia, mas a mesma tinha sido detonada há mais de um ano e ainda não tinha sido consertada. Carros serpenteavam em fila única em um barranco profundo, margeando uma fileira de vigas muito altas e finalmente alcançando o outro lado. O distrito está situado próximo a uma curva do Rio Diyala e muitos das fazendas e vilarejos são cortados por água dos três lados, fazendo do lugar um paraíso para insurgentes.

Um dos vilarejos do distrito é Makhisa, de onde vieram pelo menos três mulheres que se tornaram suicidas. Um assentamento na divisa de Makhisa por muitos anos foi o lar da companheira de cela de Baida, Ranya Ibraim. A cidade tem a distinção duvidosa de ser favorecida pelo líder da al-Qaeda na Mesopotâmia, Abu Musab al-Zarqawi. A polícia me contou que ele foi casado com uma mulher de Makhisa e às vezes ficava no vilarejo, até ser assassinado no dia 7 de junho de 2006.

Situada em meio a exuberantes palmeiras centenárias e pomares de romãs, a cidade tem apenas algumas ruas ladeadas por casas e simples e bastante instáveis, em sua maioria, muitas delas com alpendres recobertos de palha. Nas cercanias, um em cada quatro veículos é uma carroça de madeira puxada por um cavalo. Os animais puxam botijões de gás de cozinha, transportam madeira e ainda servem como serviço de ônibus informal para mulheres e crianças da cidade. O último ataque suicida a bomba ocorrido na região foi nesta primavera. Pelo menos 47 pessoas foram assassinadas, muitas delas peregrinos xiitas iranianos.

Até 2007, era perigoso demais para a polícia e o exército iraquianos entrar na área. Quando finalmente o fizeram, encontraram uma comunidade estranha. “Quando entramos em Makhisa não encontramos televisões, pois estas eram proibidas”, contou-me o coronel Khalid Mohammed al-Ameri, que estava no exército sob o comando de Saddam Hussein e já serviu em todo o país. “Também não tinha gelo, nem cigarros, nem tomates e pepinos misturados na mesma loja”.

Sunitas extremistas acreditam que não devemos ter nada que não existia quando o islamismo surgiu. Como não havia eletricidade no século VII, então não podia também haver nem geladeira, nem gelo e muito menos TV. A aversão a misturar tomates e pepinos é porque o segundo é visto como um vegetal masculino, enquanto o primeiro é considerado feminino - então misturá-los em uma mesma caixa é considerado um comportamento lascivo, disse Khalid, balançando a cabeça.

Ranya
Assim como Baida, Ranya veio de uma família de insurgentes. Sua tia Wijdan era considerada recruta de mulheres pela polícia; seu pai estaria envolvido na fabricação de bombas para a insurgência e pode ser que seu irmão também estivesse envolvido. Um ano depois do sequestro e morte de seu pai por uma milícia xiita, sua mãe consentiu, sem protestar, que Ranya se casasse em 2007 com uma figura menor no Estado Islâmico do Iraque.

Menos de um ano depois de casar-se, seu marido a levou a uma casa em Baquba onde duas mulheres que ele descreveu como primas a vestiram um colete suicida: “Elas me deram algo para comer e beber; o cheiro era bom”, ela se recorda. “Depois disso, puseram o cinto explosivo em mim; foram as duas meninas que puseram. Lembro-me de ver cabos elétricos vermelhos, mas eu não sabia o que tinha dentro. Elas enfiaram o cinto pela minha cabeça”. Mais tarde Baida me contou, a partir de conversas que teve com Ranya na prisão, que estava claro que ela sabia exatamente o que estava fazendo e tinha orgulho disso.

Ranya me contou que, depois de vestirem o colete nela, uma mulher de nome Um Fatima, que também estava na casa, levou-a para fazer compras. As duas foram a um dos mercados de Baquba e enquanto Um Fatima estava vendo umas panelas, Ranya se afastou.

“Houve um momento, apenas um momento, em que Ranya teve medo da morte”, disse Hosham. Ranya me contou que tudo o que ela queria era ver sua mãe. Você pode imaginar esse momento: perceber que sua vida provavelmente está para se acabar e você não está pronta.

Quando Um Fatima percebeu que tinha perdido Ranya, ela fugiu do mercado, livrando-se do detonador remoto que planejava usar caso Ranya falhasse em detonar-se. Nesse ínterim, Ranya, usando o colete suicida, sem saber onde estava indo, ficou perambulando pelos becos de Baquba.

Ao aproximar-se de um ponto de revista comandado por integrantes da Awakening - a milícia apoiada por americanos para lutar contra o al-Qaeda na Mesopotâmia - eles ordenaram que ela parasse, segundo relatou o tenente Kadhim Ahmed al-Tamimi, detetive envolvido no caso. Os guardas da Awakening acharam suspeito o fato dela estar sozinha e usando uma abaya muito grande.

“Quando ainda estavam em dúvida se ela era ou não uma mulher-bomba, eles pediram a uma mulher na rua que a revistasse: a mulher abriu a abaya e quando viu os cabos elétricos, soltou um grito e saiu correndo”, disse Kadhim. Algumas horas depois, Ranya estava na prisão juntamente com sua mãe. Ranya foi condenada a sete anos e meio de prisão no dia 3 de agosto, sob as leis terroristas iraquianas.

Em março passado, uma intérprete me contou que Baida havia ligado diversas vezes do hospital psiquiátrico e gostaria de nos ver novamente. Senti que tínhamos ganhado sua confiança. Talvez ela se abrisse mais. Ligamos para dizer-lhe que iríamos até lá na manhã seguinte.

Leia aqui a última parte da matéria sobre Baida, a mulher-bomba

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