Transferida para o hospital psiquiátrico, Baida espera o momento de cumprir o que acredita ser seu destino

Em 4 de janeiro, uma mulher-bomba explodiu em
meio a uma peregrinação, em um bairro ao norte
de Bagdá; as mulheres passam pelo isolamento policial com mais facilidade
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Em 4 de janeiro, uma mulher-bomba explodiu em meio a uma peregrinação, em um bairro ao norte de Bagdá; as mulheres passam pelo isolamento policial com mais facilidade
O Hospital Psiquiátrico de Rashad está localizado bem no final da crescente favela xiita da Cidade de Sadr. Naquele dia, em especial, houve uma tempestade de areia e era difícil enxergar além de uma curta distância. O céu tinha uma cor amarronzada e sentíamos na boca o gosto de poeira.

O hospital ocupava uma grande área e há anos era negligenciado: em alguns lugares, a grama chegava na altura dos ombros, as plantas estavam mal cuidadas e os pavilhões estavam praticamente desprovidos de móveis (grande parte havia sido saqueada logo depois da invasão americana).

Alguns pacientes andavam sem direção, conversando sozinhos. Outros usavam roupas manchadas e pareciam não tomar banho há meses. Ao nos aproximarmos da ala de Baida, uma mulher completamente nua veio gritando e correndo: ela estava sendo seguida por funcionários do hospital e outros pacientes e acabou sendo coberta por um lençol e levada para dentro.

Nós nos encontramos com Baida no escritório da enfermeira-chefe responsável por criminosos insanos. Baida nos contou que tinha grande afeição pela enfermeira-chefe, uma anã impecavelmente vestida com um véu branco e com o rosto maquiado. Baida nos contou que a enfermeira a deixava fazer o que bem entendesse – inclusive manter seu telefone no hospital.

Baida parecia cansada e muito menos efervescente do que quando a vimos na prisão. Eu pude perceber que ela estava tendo dificuldades em viver com pessoas tão estranhas. Eu tinha levado um saco de tangerinas frescas para ela. Ela aceitou o presente com um sorrisinho amarelo e apenas perguntou: “Quando vocês vão voltar? Amanhã?”. Temi que ela precisasse da companhia de pessoas mais normais.

Perigo à vista
Quando voltamos para o escritório do “New York Times”, um de nossos outros intérpretes me chamou de lado. Antes de se tornar jornalista, ele tinha sido intérprete militar e tinha muita vivência; era um xiita que morava em um bairro sunita, um sobrevivente.

Ele me contou que, nas últimas três semanas, Baida havia ligado diversas vezes para o escritório querendo saber quando eu iria novamente ao hospital – um mau sinal, segundo ele. Nosso conselheiro de segurança concordou. Nada é certo quando lidamos com insurgentes, mas uma regra é não dizer a eles o momento exato que você estará em algum lugar. Se eles souberem, poderão planejar uma emboscada, um sequestro ou detonar uma bomba debaixo de seu carro. “Não vá visitá-la de novo”, disse o intérprete.

Nosso conselheiro de segurança estipulou um tempo limite para nosso próximo encontro com Baida, estimando que logo que chegássemos ao hospital ela poderia ouvir dizer que estávamos lá e ligar para algum de seus amigos jihadistas. Baida nos ligou duas vezes para “saber exatamente quando vocês vão vir”. Nós mentimos, deixando a data meio vaga. Seria complicado armar uma emboscada dentro hospital, mas relativamente mais fácil em suas imediações.

Quando finalmente fomos até lá, encontramos Baida sozinha, sentada em uma cama no escritório da enfermeira, pois não havia cadeiras. Perguntei a ela educadamente, da maneira mais neutra possível, se ela queria me matar por eu ser estrangeira.

“Francamente, sim”. Depois ela completou, de maneira mais suave: “Não especificamente você, pois eu te conheço”.

Será que ela tinha falado sobre mim para seus primos extremistas? Será que ela me descreveria para eles, contando o suficiente sobre mim para que eles pudessem me encontrar?

“Não vou sacrificar minha amizade”, disse ela. Um momento depois ela mudou de posição. “Mas, se eles insistissem, sim, eu iria. Como você é estrangeira, é halal te matar”. Ela continuou: “Se eles matam americanos, eles fazem um banquete enorme para o jantar”.

Ela deu um sorriso de puro júbilo. Como Hosham tinha dito: “Ela é honesta”.

“Falando francamente, eles me ligaram quando ficaram sabendo que eu iria me encontrar com um jornalista e uma intérprete e fizeram o que puderam para ter uma descrição e saber a data exata que viriam. Eles sabem como chegar ao hospital. Eles ficariam esperando por vocês e os matariam. Eles me disseram que se eu fizesse isso para eles, eles me ajudariam a fugir do hospital, até mesmo da prisão. Eles perguntaram outros detalhes, como o nome e a aparência de vocês”.

Naquele momento ela parecia empolgada ao pensar em nossa captura. “Eles não querem matar vocês, eles querem torturá-los e comê-los picadinhos. Não pude fazer nada para ajudar vocês”.

Ela descreveu certa vez que viu – ela não disse como – um soldado americano sequestrado pelo grupo. “Eles arrancaram os olhos dele e queimaram seu corpo”, disse ela. “Que Deus proteja vocês”.

Quando ela descreveu o evento, me dei conta que eu já o conhecia. Fiz a cobertura do julgamento dos envolvidos no assassinado. Perguntei quando ela tinha presenciado o fato, ela acertou na mosca: em 2006. Senti náuseas.

Integrantes do que viria a ser O Estado Islâmico do Iraque sequestraram três jovens soldados que protegiam uma ponte. Um deles foi assassinado imediatamente, mas os outros dois foram torturados lentamente até a morte. Um deles teve os olhos arrancados, seu corpo amarrado à traseira de um caminhão e arrastado por estradas.

“Eles mostraram aquilo para as mulheres porque temos o coração mole, então temos de ver essas coisas para nos acostumarmos”, disse ela.

Olhei para o meu relógio: Temi que tivéssemos nos prolongado demais. Levantei às pressas, derrubando meus cadernos no chão. Ajustei meu véu, agradeci Baida pelo tempo cedido, por ter me ensinado sobre a jihad e por me fazer entender que suas palavras eram perigosas.

Baida estava sorrindo novamente: “Se eu não tivesse te visto antes de falar com você, eu a mataria com minhas próprias mãos”, ela falou de forma prazerosa. “Não se deixe enganar por meu rosto pacífico. Tenho um coração de pedra”.

Alguns dias depois Baida foi transferida novamente para a prisão de Baquba, depois médicos do hospital de Rashid determinaram ausência de transtornos psicológicos (Baida me disse que os médicos haviam lhe dito anteriormente: seu cérebro é como um computador, você não deveria estar aqui”).

Até o momento em que escrevi esta matéria, ela ainda estava na prisão. Por enquanto, ela diz a quem quer que a pergunte que ela está preparada para sair e matar o inimigo, mas se ela fosse começar a dizer que não iria mais fazer isso, acredito que ela logo seria solta. E eu não tenho nenhuma razão para duvidar que ela realizaria seu sonho de se detonar.

* Alissa J. Rubin é chefe de reportagem do escritório do “New York Times” de Bagdá.

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