Baida foi presa por seu envolvimento com terroristas iraquianos. Ela explica porque abandonou os filhos e abraçou a perigosa causa

Os ataques de mulheres-bomba aumentaram quando
ficou mais difícil para os homens furar os
bloqueios policiais no Iraque
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Os ataques de mulheres-bomba aumentaram quando ficou mais difícil para os homens furar os bloqueios policiais no Iraque
Em Baquba, o detetive de polícia iraquiano folheava, em vão, um arquivo sobre sua escrivaninha: a luz diurna estava fraca demais para lê-lo e há muito tempo já não tinha mais eletricidade. Ele parecia querer dizer algo. Foi quando uma bomba explodiu a algumas quadras dali, fazendo seu escritório tremer. Os rádios sobre sua escrivaninha crepitaram. Ele fez um sinal com a cabeça para seus colegas, que correram para o corredor e se juntaram a policiais que já se apressavam para alcançar o local da explosão. Ao levantar-se para segui-los, o detetive tentou me tranquilizar.

“Você vai gostar de Baida”, disse o major Hosham al-Tamimi – diretor do Escritório Nacional de Investigação e Informação do Comando de Polícia de Diyala – acenando a cabeça em sinal de aquiescência diante do arquivo a sua frente. Era curioso dizer aquilo sobre alguém que quer matar pessoas como ele ou como eu. Ele completou, com um ar um pouco pensativo: “Eu gosto de Baida. Ela é...”, pausou ele, prosseguindo em seguida: “Honesta”.

Baida faz parte da lista de 16 suspeitas de serem mulheres-bomba, ou suas cúmplices, capturadas pela polícia na Província de Diyala desde o início de 2008: quase o mesmo número de mulheres que já promoveram ataques suicidas a bomba. Quando conheci Baida, em fevereiro, ela já havia passado mais de dois meses na prisão. Ela dividia a cela com outra suspeita, Ranya, que aos 15 anos foi pega a caminho de uma explosão – ela, inclusive, já estava usando o colete suicida. A mãe de Ranya também estava na prisão por suspeitas de ligações com os envolvidos na organização do suicídio de Ranya.

Aparentemente, nenhum lugar teve mais ataques suicidas a bomba promovidos por mulheres em tão pouco tempo do que o Iraque, onde já ocorreram cerca de 60 tentativas ou ataques deste tipo, a maioria deles em 2007 e 2008, segundo estatísticas coletadas pelo exército americano e pela polícia iraquiana (apesar dos ataques continuarem, os números, tanto para homens como para mulheres, reduziram neste ano).

Ao menos um terço destas suicidas vêm de Diyala, e a maioria delas de Baquba – capital da província, situada a pouco menos de 65 quilômetros ao nordeste de Bagdá – ou, ainda, de uma pequena faixa de terra no vale do Rio Diyala. Com vegetação densa de palmeiras centenárias, riachos e campos verdejantes, Diyala parece um oásis no meio do deserto. Ao longo dos últimos quatro anos, porém, o lugar tem sido o lar das facções terroristas mais violentas do Iraque. Foi aqui, em Bagdá, que as armas mais letais de extremistas foram aperfeiçoadas. Uma delas são as mulheres-bomba.

É difícil saber muito sobre estas suicidas, já que raramente sobram vestígios das mesmas após o ataque. Em Diyala, porém, como tantos destes ataques foram promovidos por mulheres, a polícia se viu levada a estudar o fenômeno, desenvolvendo uma imagem apurada e cheia de nuances dessas mulheres que decidem se matar. Foi com a ajuda da polícia, bastante prestativa para me dar acesso a algumas mulheres suspeitas, que pude escrever este relato. Sendo assessorada por uma ex-assistente social iraquiana como intérprete, pude ter conversas longas e íntimas com duas dessas mulheres sob a guarda da polícia. Policiais conseguiram confirmar muitas das informações fornecidas por elas.

Histórias semelhantes
A história de cada uma delas é única, mas suas jornadas na jihad têm suas similaridades. Muitas delas perderam membros da família do sexo masculino. Tanto Baida como Ranya perderam seus pais e irmão. Muitas dessas mulheres vivem em comunidades isoladas dominadas por extremistas, onde o entendimento radical do Islã é a norma vigente.

Em tais lugares, as mulheres geralmente não têm o poder de controlar suas vidas: elas não podem escolher o futuro marido, quantos filhos terão ou se poderão frequentar a escola além do primário. Tornar-se uma mulher-bomba é uma escolha importante, que dá às mulheres a sensação de serem especiais – dotadas de um destino distinto. Hosham, porém, recomendou-me insistentemente para não generalizar: “Cada caso é um caso. Algumas são velhas, outras são jovens; algumas são criminosas, outras são fieis. Elas têm razões diferentes”.

Algo chamava a atenção: o surgimento de mulheres-bomba em Diyala foi simultâneo ao surgimento do Estado Islâmico do Iraque – a versão local da al-Qaeda, usada por grupos sunitas extremistas da região que têm alguma liderança estrangeira. Apesar de muitos grupos insurgentes operarem no Iraque, aqueles com ligações com a al-Qaeda na Mesopotâmia são associados a ataques suicidas.

Além de brutal e bastante organizado, o Estado Islâmico do Iraque era particularmente forte em Diyala. O mesmo orquestrava sequestros e execuções em massa, decapitações e emboscadas. Mulheres, crianças, sunitas, xiitas ou curdos: ninguém era poupado. Vilarejos inteiros eram forçados a fugir, enquanto outros eram tomados por controle extremista. Muitas das mulheres que se tornaram suicidas eram de famílias imersas na cultura jihadista.

“Uma das diferenças entre os homens-bomba palestinos e iraquianos é que os islâmicos não estão tão envolvidos no recrutamento de mulheres na Palestina”, diz Mohammed Hafez, professor associado de questões de segurança internacional da Naval Postgraduate School, de Monterey, Califórnia, especializado em movimentos extremistas islâmicos e autor de um livro recente sobre ataques suicida no Iraque. “Os islâmicos têm estado muito envolvidos no Iraque. Geralmente há também um debate no mundo islâmico em relação ao uso de mulheres e crianças; no Iraque, porém eles não hesitam em usar mulheres”.

Mulheres invisíveis
O aumento no número de mulheres-bomba no Iraque coincidiu com o aprimoramento das forças de segurança em derrotar os homens-bomba. Em 2006 e 2007, forças iraquianas começaram a aumentar o uso de barreiras de concreto para isolar prédios governamentais, mercados e outros locais para protegê-los dos carros-bomba. Os insurgentes começaram a admitir mulheres, que tinham a vantagem de usar o vestido típico do país: a volumosa abaya preta e longa, feita de várias camadas de tecido vaporoso. Tradições tribais e noções árabes de modéstia tornam impensável que policiais ou guardas revistem mulheres. Elas podiam passar até mesmo por cordões de isolamento relativamente fortes como se fossem invisíveis. Elas subiam os degraus de prédios governamentais, aproximavam-se de pontos de revista e entravam em escritórios e casas de pessoas que os militantes gostariam de assassinar.

Aos poucos a polícia foi aprendendo a procurar por sinais reveladores, contou-me Hosham. As mulheres geralmente usam duas abayas sobrepostas para esconder o colete suicida. Elas também costumam usar maquiagem carregada, pois como acreditam que irão para o céu, querem estar com ótima aparência.

Em setembro passado, o governo iraquiano completou o treinamento de 27 policiais femininas em Diyala. O esforço chegou um pouco tarde demais para salvar pelo menos 130 pessoas, ou mais, que morreram na província em ataques suicidas promovidos por mulheres-bomba.


* Alissa J. Rubin é chefe de reportagem do escritório do “New York Times” de Bagdá; leia as outras partes da matéria nos links a seguir.

Como Baida queria morrer, parte 2: perfil

Como Baida queria morrer, parte 3: Ranya, outra mulher-bomba

Como Baida queria morrer, final

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