Depoimentos de gente que, por simples curiosidade ou por paixão, hoje é dona de coleções tão preciosas quanto imensas

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Homero Rodrigues começou coleção de artigos da Coca-Cola em 1982
Colecionar faz parte da experiência dos homens. A museóloga Maria Paula Cruvinel, do Museu da Energia de São Paulo ensina que "coleções sempre existiram porque os objetos não são vazios, eles guardam memórias, tanto individuais quanto coletivas".

Os primeiros museus nada mais eram do que coleções de objetos artísticos, raros ou curiosos, reunidos por pessoas ricas, famílias ou instituições. E no século 19 virou moda entre os grandes colecionadores os “gabinetes de curiosidades”, onde eram cuidadosamente arrumadas suas preciosidades e onde apenas os amigos eram admitidos.

Esses gabinetes de ‘maravilhas’, como também eram chamados, restritos aos ricos e poderosos, foram os precursores dos museus modernos. Maria Paula conta que o acervo de obras de arte e esculturas acumulado pelos reis da França foi a primeira coleção a ser exibida publicamente, em 1793, no Louvre. A exposição foi parte de uma iniciativa pioneira de usar o antigo palácio dos monarcas franceses para criar não só o primeiro museu público do mundo, como uma rede de museus espalhada por toda França.

A importância das coleções vai muito além do hábito de guardar algo bonito ou com o qual as pessoas individualmente se identificam. Durante milênios, apropriar-se dos objetos e coleções de arte dos derrotados nas guerras era prática comum, conta Maria Paula, que ressalta, "era uma forma de demonstrar autoridade sobre a outra nação. Foi assim no período Napoleônico."

Com tempo e disposição, diz a museóloga, colecionadores podem se tornar especialistas no assunto. “O que motiva os colecionadores é a curiosidade e a paixão pelo que guardam. E o interesse vem necessariamente acompanhado de muita pesquisa”.

Amor puro, simples e verdadeiro

O sentimento e a quantidade de objetos são superlativos. Leandro Lapagesse é DJ no Rio de Janeiro, mas o amor pelo cantor Michael Jackson, "puro, simples e verdadeiro", ele sente desde os cinco anos de idade.

A coleção está em levantamento, já que Leandro pretende dar entrada no Guinness Book, o livro dos recordes, e precisa saber exatamente quantos objetos já conseguiu reunir. Mas ele afirma que são mais de mil capas de revistas, mais de 100 LPs, cerca de 300 CDs, mais de 150 DVDs e pelo menos 30 bonecos, além de copos, canecas, camisetas, adesivos, jornais do mundo inteiro, livros, catálogos, bolsas, bonés. Enfim, tudo que carrega a marca do rei mundial do pop.

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Leandro Lapagesse quer entrar para o Guinness Book por conta da coleção inspirada em Michale Jackson
História para contar é o que não falta para o DJ, que é referência mundial quando o assunto é Michael Jackson. Com orgulho, ele recorda que seu primeiro objeto de desejo foi um livro de poemas escritos pelo cantor. "Foram anos de busca pelo meu exemplar, até que em parceria com a Ibis Libris Editora, comprei os direitos autorais para a publicação de A Dança dos Sonhos no Brasil, em uma versão bilíngue", conta.

Leandro garante que, com o passar dos anos, o valor sentimental de cada objeto se torna inestimável. A paixão é tanta que, em 2009, quando Michael Jackson faleceu, o colecionador pegou um vôo para os Estados Unidos para se despedir do ídolo, sem sequer ter certeza se o velório seria aberto ao público.

E todo o amor de Leandro pelo criador de hits como Thriller e Billie Jean será representado no teatro. "Michael & Eu", peça baseada na sua experiência, tem estreia prevista para agosto deste ano e o elenco tem presença confirmada do ator Bruno Garcia.

Uma coleção para a Coca-Cola e outra para o Timão

Free Port foi o nome escolhido por Homero Rodrigues em 2000, quando abriu seu restaurante na zona norte de São Paulo. A ideia era associar o nome à decoração, baseada em motivos náuticos. Mas os cerca de 450 clientes diários chamam-no mesmo de "o restaurante da Coca-Cola". O terreno tem 600m² e, dos 300m² em construção, há pouco espaço em branco. De ursos polares de pelúcia a garrafas de porcelana chinesa, tudo remete à marca de refrigerante mais famosa do mundo.

Essa paixão começou na lua de mel. Era 1982 e Homero estava na Inglaterra com sua esposa quando encontrou uma 'garrafa diferente' da Coca-Cola e comprou. De lá para cá são 30 anos de paixão - pela esposa e pela marca.

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"Não faço loucuras para ter um objeto, se não o prazer vira desespero", diz colecionador
"O que me motiva é o diferente, a novidade, o que dificilmente outra pessoa terá", diz o empresário de 69 anos. Mas ele ressalta: "tudo que adquiro está dentro dos meus padrões. Não faço loucuras para ter um objeto, se não o prazer vira desespero".

A peça mais antiga da coleção é de 1904. "É um tipo de pregador, para segurar cédulas. Deve ter um nome específico para isso", diz Homero enquanto exibe sua peça secular com a marca Coca-Cola. Garrafas compõem a maior parte da coleção. Em uma sala com exatas 997 unidades, uma garrafa do ano de 1942 é a mais antiga colecionada. "Encontrei em uma feirinha de antiguidades no Rio de Janeiro", lembra. E sim, todas estão cheias com a bebida.

Entre salas, escadas e prateleiras cedidas à Coca-Cola, subindo um andar e virando à esquerda, o colecionador deu espaço a um memorial destinado ao clube de futebol Corinthians. Em apenas dois anos de empenho na nova coleção, já são mais de 400 camisas. "Tenho desde as comemorativas, como a de homenagem ao dia das mães, até com autógrafos, como essa aqui do Sócrates", diz enquanto aponta para a peça com o nome do inesquecível jogador do time, falecido em 2011.

Entre tantos objetos, um consegue unir as duas coleções. Mostrando uma faixa em destaque na descida de uma escada, Homero diz sorridente “essa foi a homenagem que a Coca-Cola fez para o Corinthians, quando a gente comemorou o centenário”.

Carrinhos e bibelôs

Dona Lúcia, como prefere ser chamada, é avó de 23 netos e bisavó de 14 crianças. E que ninguém ouse tocar nas dezenas de carrinhos dispostos sistematicamente na estante. As miniaturas de automóveis dividem espaço com bibelôs. O motivo da coleção é a memória afetiva. “Meu pai adorava carros e eu dirijo desde 30 de outubro de 1950, sem nenhuma multa”, se gaba, sorrindo, Lúcia de Lacerda Corrêa.

A coleção começou depois que a aposentadoria chegou. Antes, tempo era coisa escassa, conta a colecionadora, que também tem inúmeros selos guardados. “A gente precisa de tempo, dedicação para algumas coleções. Mas é muito bom ter esses objetos dentro de casa. Trazem recordações de um tempo gostoso, irradiam carinho”, diz Dona Lúcia, que brinca: “tenho 46 primos-irmãos, acho que também coleciono parentes”.

Uma coleção de coleções

No bar Drosophyla, em São Paulo, o critério para a coleção que decora o ambiente é diversão. Em uma vitrine de mais de cinco metros de extensão, a proprietária Lilian Malta Varella expõe os objetos garimpados em viagens feitas ao redor do mundo. Lá, é possível se encantar com itens vindos de todo o Brasil, mas também da China, Polinésia, Tailândia e Indonésia, entre outros países.

Artigos curiosos de diversas partes do mundo compõem a coleção de Lilian Malta Varella
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Artigos curiosos de diversas partes do mundo compõem a coleção de Lilian Malta Varella
“Colecionar para mim é natural, é como respirar”, diz Lilian. O hábito de colecionar vem desde a infância da dona do bar. Ela conta que, ainda pequena, já guardava flores que, depois de secas, iam para dentro dos livros. “Os objetos que tenho me chamaram a atenção por serem divertidos, estranhos ou até mesmo bizarros. Muitos remetem ao universo da infância. Tenho uma coleção de coleções. E minha coleção tem somente o valor sentimental”, admite.

Gostou das histórias? Veja as dicas dos entrevistados para começar sua própria coleção:

- Paciência. Uma coleção não acontece da noite para o dia. É preciso dedicação em longo prazo;
- Tempo. Catalogar, contar, manter. Alguns objetos precisam de cuidados específicos, como para a limpeza, por exemplo;
- Espaço. Uma coleção bem exposta pode até inspirar novos colecionadores;
- Organização. Um item repetido pode não agregar muito à coleção, que, conforme for crescendo, precisa ter controle das novas aquisições.

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