Em NY, latinas querem levantar o bumbum, italianas rejuvenescem os joelhos, russas buscam seios maiores e chineses aumentam orelha

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"Antes e depois" mostra procedimento de ocidentalização dos olhos
Em uma clínica de cirurgia plástica de Manhattan, em NY, que atende principalmente imigrantes dominicanos, um dos procedimentos mais requisitados é o que levanta o bumbum, pois – como explica o cirurgião – “todos elas adoram as curvas”.

No bairro de Queens, os cirurgiões já têm a atenção treinada para dirigir o olhar um pouco mais para cima: para os narizes apontados para baixo dos pacientes chineses. As russas residentes no Brooklyn estão recorrendo às próteses de mamas, enquanto as coreanas de Chinatown estão afinando seus contornos mandibulares.

Com a demanda por procedimentos estéticos explodindo em todo o mundo, a cidade de Nova York se tornou uma hospedeira de nichos de mercado que permitem que seus muitos imigrantes façam ajustes e retoques cuidadosamente talhados de acordo com suas preferências culturais e ideais de beleza. Assim como eles conseguem encontrar folhas de uvas libanesas e tigelas de sopa vietnamita com gostinho da terra natal, os imigrantes também podem localizar cirurgiões aptos a recriar os seios da Thalia, a cantora mexicana, ou os olhos reluzentes de Lee Hyori, o pop star coreano.

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Eles também conseguem encontrar um número crescente de médicos que oferecem planos de financiamentos para facilitar o pagamento das cirurgias. Se ainda assim o preço for alto, cirurgias ilegais realizadas por médicos não licenciados também estão disponíveis em diversos bairros.

Ao mesmo tempo em que estas clínicas especializadas dão novas formas a pálpebras asiáticas e silhuetas latinas, elas também oferecem uma perspectiva das aspirações dos imigrantes na Nova York do século 21 – um retrato em mosaico moldado com Botox.

“Quando chega um paciente de determinada etnia e idade, nós já sabemos o que ele está procurando”, diz o Dr. Kaveh Alizadeh, presidente do Long Island Plastic Surgical Group – que conta com três clínicas na cidade. “Somos uma espécie de sociólogos amadores”, ele complementa.  Alizadeh, ele próprio um imigrante iraniano, admite que os resultados podem ser mais próximos a estereótipos do que à ciência.

Ainda assim, ele e outros médicos que trabalham em comunidades étnicas dizem que tendências evidentes podem ser identificadas ao folhear a agenda de horários dos pacientes: muitos egípcios estão fazendo lifts faciais, muitos italianos estão refazendo os joelhos e Alizadeh diz que seus conterrâneos preferem a plástica de nariz.

Para todos
E não há dúvidas sobre a alta demanda nos bairros de imigrantes, onde mandarim e árabe são falados nos centros cirúrgicos e, como disse um médico, “os pacientes vão de 18 a 80 anos de idade”.

Segundo dados da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica, aproximadamente 750.000 asiáticos nos Estados Unidos passaram por alguma cirurgia plástica em 2009 – cerca de 5% da população asiática naquele país, número que duplicou desde o ano 2000. Dentre os latinos, os números foram de 1,4 milhões - quase 3% desta população - e um aumento três vezes superior aos números de nove anos atrás. Em 2009, cerca de 4% dos americanos brancos passaram por um procedimento cosmético.

Em Nova York, novas clínicas foram inauguradas em territórios dominados por imigrantes, enquanto que as já estabelecidas tiveram de expandir para suprir a demanda.

Tradição
A “reforma geral” no visual, de certa forma, é uma tradição entre os imigrantes da cidade. Um século atrás, nos primórdios da cirurgia cosmética, judeus europeus faziam plástica de nariz e imigrantes irlandeses consertavam as orelhas de abano em uma tentativa de parecerem “mais americanos”, disse Victoria Pitts-Taylor, professora de sociologia do Queens College que escreveu sobre atitudes comuns em relação à cirurgia plástica.

“A maior parte destas operações era focada em questões de assimilação cultural”, explicou Pitts-Taylor.
Atualmente, as motivações parecem ser tão variadas e complexas quanto os procedimentos. Ao invés de tentar se encaixar no novo país, muitos imigrantes remodelam a imagem de acordo com os gostos e tendências culturais da terra natal.

“Meus pacientes sentem orgulho de terem o aspecto hispânico. Os pacientes não me procuram para ocultar suas etnias”, disse o Dr. Jeffrey S. Yager, que atende no bairro dominicano de Washington Heights, em Nova York.

Mesmo que as clínicas que anunciam em mídias de língua russa, chinesa ou espanhola tenham muito em comum entre si e também com aquelas que atendem à população de não imigrantes – afinal, todo mundo quer ter uma barriguinha sarada e um rosto sem rugas – o cerne de seus negócios é tão diferente quanto os idiomas falados por seus pacientes.

Diferenças
A médica anestesista Holly J. Bern se sente como se estivesse em uma gangorra quando vai do consultório de Yager para as clínicas nos subúrbios. “Em Long Island, elas fazem de tudo para remover a gordura do bumbum. Já em Washington Heights é o contrário, o que elas querem é um traseiro bem redondo e empinado”, ela conta.

Italia Vigniero, dominicana de 27 anos que é paciente de Yager, colocou próteses de seios em 2008 e está pensando em fazer uma plástic

A dominicana Italia Vigniero aumentou os seios e quer mais, para combinar com sua
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A dominicana Italia Vigniero aumentou os seios e quer mais, para combinar com sua "pechonalidad"
a para “levantar” as nádegas - para conseguir o que ela define como “uma silhueta de mulher”. “Nós, latinas, nos definimos através de nosso corpo. Sempre gostamos das curvas”, ela diz.

“Minha personalidade não combina com seios pequenos”, ela complementou. Usando as palavras personalidad e pecho – personalidade e peito, em espanhol – ela cunhou um termo que poderia ser o slogan de Yager: “Agora sou uma pessoa com muita pechonalidad !”

No Queens, bairro onde vive uma vibrante comunidade asiática com muitos imigrantes recentes, o Dr. Steve Lee, originário de Taiwan, faz alguns procedimentos que raramente, ou mesmo nunca, são realizados na clínica de Yager. Ele conta que alguns chineses acreditam que lóbulos da orelha proeminentes trazem boa sorte, então Lee não ficou surpreso quando foi procurado por um cliente que queria um preenchimento cosmético na região para tornar os lóbulos mais longos. “Quando maiores os lóbulos, mais próspero você será”, disse o Dr. Jerry W. Chang, outro cirurgião plástico do Queens que assimilou bem a idéia. Outros pacientes querem que o nariz arrebitado seja refeito para ficar “bem apontado para baixo”, de acordo com uma crença tradicional de que narinas proeminentes deixam a sorte escapar, disse Lee.

Talvez o procedimento mais requisitado pela comunidade asiática seja a cirurgia de “ocidentalização” dos olhos, que cria um vinco nas pálpebras fazendo os olhos parecerem mais redondos. Algumas pessoas criticam a operação, extremamente popular em muitos países asiáticos, considerando-a um retrocesso médico com o intuito de ocultar traços étnicos.

“Eles querem fazer parte da cultura e da etnia aceitáveis, por isso querem parecer mais ocidentalizados. A minha sensação é que eles acham que precisam fazer isso”, disse Margareth M. Chin, professora de sociologia do Hunter College especializada na cultura dos imigrantes asiáticos.

Durante as consultas que antecedem a cirurgia, Lee mostra aos pacientes uma apresentação de slides de uma mulher branca com um vinco natural nas pálpebras e de uma asiática que não tem o vinco. Ele discute as técnicas – uma incisão aqui, um ponto ali – que podem diminuir as diferenças anatômicas. Mas, como diversos outros cirurgiões plásticos asiáticos, ele diz que o procedimento tem muito pouca relação com a assimilação cultural. “Um dos traços de beleza é ter os olhos grandes e para ter este efeito o vinco nas pálpebras é necessário”, ele diz.

Semelhanças
Dadas todas as diferenças étnicas, os cirurgiões plásticos de Nova York admitem que os bairros de imigrantes não são ilhas. Eles dizem que a cultura pop americana tem uma forte influência sobre a aparência que os imigrantes e seus filhos acreditam que deveriam ter, além de reality shows da TV que estimulam tais soluções cirúrgicas.

No Brooklyn, a Dra. Elena Ocher, uma imigrante russa, atribui à cultura americana, e não à russa, a onda de jovens daquele país que busca por implantes de mamas – de longe o procedimento mais requisitado por este grupo em sua clínica nova-iorquina. “As novas gerações de russos são muito americanizadas, e na América os seios grandes têm um grande apelo. Por que tamanha fixação?”, ela questiona.

Maya Bronfman, 30 anos, contadora de Moldova, disse que muitas de suas amigas russas já passaram por algum procedimento cosmético, mas ela dá de ombros para as noções de ideais americanos de beleza. “Todo mundo em Nova York de certa forma é imigrante. Eles só fazem essas coisas para se sentirem bem”, ela diz.

Ocher disse que cerca de 90% das pacientes russas buscam por operações plásticas no corpo. Mas, entre as pacientes árabes, a grande maioria quer uma cirurgia facial. “Os árabes nunca expõem o corpo por completo”, ela explicou.

Ela diz que as iranianas e italianas recorrem a diversos tipos de procedimentos, que vão do rosto aos pés. Ela observou que as italianas costumam se preocupar bastante com os joelhos. “Os joelhos precisam ter o aspecto jovem. As garotas italianas adoram usar minissaias”.

Tradução: Claudia Batista Arantes

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