De fala tranquila, Martha Rocha é bem-humorada, mas com temperamento firme; diz que não ter marido ou filhos não lhe faz falta

“Em duas semanas de trabalho a gente já conseguiu mostrar resultados”
Isabela Kassow
“Em duas semanas de trabalho a gente já conseguiu mostrar resultados”
A primeira mulher a assumir o mais alto posto de comando da Polícia Civil do Rio diz que dorme cerca de seis horas por dia. “Acordo às 6h, leio jornais e começo a ligar para os delegados. Às 8h já estou no gabinete”, conta. Além de afirmar que "mulher não precisa de força física para fazer o trabalho bem feito", ela ainda acrescenta: “Acho interessante como as pessoas têm necessidade de ver uma policial empunhar arma. Uma boa caneta esferográfica azul é tão importante quanto um fuzil ou uma pistola .40”, arremata.

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Martha Rocha se considera obcecada pelo trabalho. “Sou workaholic sim. A polícia é meu caso de amor que não acabou”, afirma a delegada após pedir um tempo para passar “um batonzinho rápido” ao saber que a entrevista para o iG seria fotografada. “Vou ter que posar? Isso é muito chato, ainda não me acostumei”, revela.

Feminista declarada, solteira e sem filhos, a delegada não tem meias-palavras. Seja sobre as acusações de corrupção que pesam sobre a polícia investigativa fluminense ou sobre sua vida pessoal Martha é direita, com tiradas do tipo “Um dia percebi que não tinha casado, que não tinha filhos. E, me desculpe, isso não me faz sofrer”.

A aparência frágil da “xerife” de 1,52m e fala tranquila, devota de Nossa Senhora da Conceição e assídua das missas aos domingos, é logo desfeita quando ela entra em ação. “Em duas semanas de trabalho a gente já conseguiu mostrar resultados”, diz sobre a série de decisões implementadas em seu pouco tempo de gestão, como a que determina o prazo de 15 dias para delegados relatarem inquéritos e metas de prisões semanais. “Quero oferecer para sociedade uma polícia eficiente e ética”.

Além de listar suas primeiras ações, Martha conta com exclusividade como pretende melhorar a segurança do Rio sem perder a ternura. Veja mais:

iG: Como a senhora avalia suas duas primeiras semanas à frente da chefia de polícia do Rio?
Martha Rocha:
Acho que a gente conseguiu mostrar alguns resultados. Houve o momento da escolha dos delegados titulares e depois reuniões setorizadas. Fortalecemos a Corregedoria, que ganhou carros e pessoal para trabalhar. Também estabelecemos rotinas. Os delegados agora têm prazo para relatar inquéritos e metas de prisão a cumprir.

iG: A senhora percebeu resistência a essas mudanças?
Martha Rocha:
Olha só, amiga, a resistência não chega até a mim. Se existe, o termo não é jurídico, mas fica no “juris esperniandi” (um falso latim que significa o direito de reclamar). Formalmente ninguém reclamou. A gente tem resultados. Vou te dar uma ideia: o caso da menina Lavína (assassinada pela amante de seu pai em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense) foi prontamente resolvido. Prendemos quatro milicianos em Campo Grande (zona oeste do Rio); uma quadrilha envolvida em sequestro relâmpago, outra de cambistas; pessoas que furtavam bicicleta na zona sul; um turista que dava o golpe do seguro; duas mulheres envolvidas em estelionato; o autor do homicídio de uma menina em Campo Grande; apreendemos mais de 100 motos irregulares, fechamos bingos...

iG: A senhora citou todos esses casos de cor. Guarda tudo na memória?
Martha Rocha
: Deve ter escapado um caso e alguém vai reclamar com a chefe que não foi citado. Mas durmo muito pouco, em média 6h por noite. Acordo às 6h, leio jornais, ligo para os delegados para saber como estão os trabalhos e chego aqui no prédio da chefia por volta das 8h. Estabeleci contato direto com os delegados através de telefonemas e e-mails.

iG: A senhora já declarou que quer policiais gentis, educados e barbeados.
Martha Rocha:
Durante o carnaval fiz incursões em diversas delegacias do Rio, do interior e da Baixada. Contei com a ajuda de assessores. Encontrei policiais gentis, educados e a postos. Mas encontrei também uma delegacia com 11 motos dentro de seu pátio. Não se justifica as motos estarem ali. Imediatamente determinei que a direção do departamento apurasse o que estava ocorrendo e providenciasse a solução.

iG: Como é a sua segurança pessoal? A senhora vive cercada?
Martha Rocha:
Vivo cercada, sim. Mas não gosto de falar sobre como é minha segurança. Faço menos coisa do que gostaria. Mas continuo tentando manter minha rotina de ir ao mercado e fazer minhas coisas. Permaneço sem empregada, só tenho faxineira uma vez por semana. Gostaria de fazer outras coisas, por exemplo: eu brincava que sábado era o meu “Dia de Maria”, que era o dia que tirava para fazer todas as minhas coisas, ir ao mercado, bater perna na Praça Saens Peña (risos).

Vaidosa: chefe de polícia do Rio calça 34 e não abre mão de salto alto
Isabela Kassow
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iG: Mas os cuidados pessoais estão impecáveis (unhas pintadas, cabelo escovado e pintado).
Martha Rocha:
(Risos) Por trás de uma mulher tem sempre uma grande mulher ajudando. Tem a manicure que atende a gente às 22h em casa, a cabeleireira que vai em casa quando a gente precisa...

iG: Calça comprida, jamais. Não é?
Martha Rocha:
Eu uso sim, bem pouco. É que eu acho que fico mais bonitinha de vestido.

iG: E do salto alto, a senhora abre mão?
Martha Rocha:
Só se eu precisar sair correndo (risos). Senão, vou estar de salto.

iG: Ao longo de sua carreira na polícia, a senhora já teve momentos operacionais?
Martha Rocha:
Já. Mas acho interessante como as pessoas têm necessidade de ver a policial empunhar uma arma. Uma vez até perguntaram qual era o calibre da minha arma e eu falei que era uma boa caneta esferográfica azul. Antes de você prender alguém foi preciso ter uma investigação. E, antes disso, foi preciso buscar todos os elementos para convencer o juiz a aceitar os seus argumentos. Uma boa caneta esferográfica azul é tão importante quanto um fuzil ou uma pistola .40.

iG: A senhora é cobrada por não ter se casado e nem ter tido filhos?
Martha Rocha:
A maternidade nunca foi uma coisa que eu verdadeiramente pensasse. Acho que Deus nos dá os filhos e Nossa Senhora, os sobrinhos e afilhados. A maternidade é muito compensada com eles. É bom ser tia. A gente não manda escovar os dentes, não manda estudar. A gente só curte. Eu conheci pessoas incríveis na minha vida, tive bons relacionamentos, mas não aconteceu. O problema talvez seja meu. Eu acho que me encanto mesmo com a polícia, com essa possibilidade de fazer a diferença, essa falta de rotina. É um poder de justiça que você tem nas mãos. Quando você prende alguém, naquele momento você está fazendo justiça pela sociedade. Talvez tenha sido isso, nunca parei para pensar. Simplesmente não aconteceu. Vivo a minha vida um dia de cada vez e, um dia, percebi que não tinha casado, que não tinha filhos. E, me desculpe, isso não me faz sofrer.

iG: E o episódio de corrupção policial envolvendo seu ex-namorado, que também era seu chefe de gabinete, em 1993?
Martha Rocha:
Primeiro é preciso dizer que é evidente que eu me senti traída. E também é preciso dizer que eu fui testemunha de acusação e que ele foi devidamente punido, processado, condenado. E ponto. Nada além disso. Foi um momento difícil de superar. Mas eu não irei pedir desculpas por algo que fiz ou tentarei esclarecer o que eu não fiz. Houve o fato, foi terrível, me senti traída. Fiz o que tinha de fazer. Prestei meu depoimento, ele sofreu um processo administrativo, foi demitido. Enfrentou processo penal, foi condenado, preso e acabou. Se você me perguntar “e depois disso?”. Eu nada sei, não fui visitar na prisão, absolutamente nada.

iG: E empunhar a bandeira das causas feministas dentro da polícia do Rio de Janeiro. Tem uma importância especial para a senhora?
Martha Rocha:
Sem dúvida nenhuma. Foi na Delegacia de Mulheres (Deam) que eu percebi que era feminista. E a importância de ter políticas públicas diferenciadas e afirmativas, a exemplo da Lei Maria da Penha. A Deam tem um valor especial na minha vida, seja como mulher ou profissional. E acho legal ter o reconhecimento por também ter militado nessa área, porque a Deam já foi considerada coisa inferior, subdelegacia.

iG: E qual o simbolismo em ser a primeira chefe de polícia do Rio de Janeiro?
Martha Rocha:
Tem grande importância e aumenta minha responsabilidade com as mulheres que torcem por mim. Com a minha mãe, que é lá de Portugal e só tem a escola primária; com a Natália, minha sobrinha de 15 anos; com as pessoas que me encontram na missa e vêm me cumprimentar; com a senhorinha que me para no supermercado para dizer “olha, estou torcendo por você”; com esse grupo imenso de policiais valorosos.

iG: Além da sua religiosidade, como a senhora faz para abstrair os problemas?
Martha Rocha:
Eu falo sozinha. Falo muito sozinha, converso comigo o tempo inteiro. Adoro cantar. E assim vou levando a vida.

iG: E o que a senhora gostar de ouvir?
Martha Rocha:
Só música popular brasileira. Amo Elis Regina, gosto de Roberto Carlos, adoro Milton Nascimento, Chico Buarque e Tim Maia. Toda vez que estou triste eu ponho uma música do Tim Maia, começo a dançar e fico feliz.

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