Aniversários, chás de bebê e outras reuniões estão ficando menos dependentes do contato presencial graças à serviços de videochat

Ao cair da noite em dezembro, a família Darvick de Birmingham, Michigan, iniciou seus rituais do chanucá, como fazem todos os anos. Debra e Martin Darvick expuseram uma menorá de metal, presente de parentes que já se foram há muitos anos. Seu filho, Elliot, 27, riscou um fósforo e acendeu a primeira vela. E sua irmã, Emma, 24, juntou-se a eles numa prece.

Tamra Sandford conversa à com seu sobrinho de 11 meses, Maximino Stafford Johnson, à distância
Roberto Wright/ NYT
Tamra Sandford conversa à com seu sobrinho de 11 meses, Maximino Stafford Johnson, à distância
Os Darvick celebraram esta tradição antiquíssima com um toque de modernidade: a família estava distribuída em três cidades por todo o país, mas conectada pelo Skype. "Chamamos isso de Skypanucá", contou Elliot. Já é o segundo ano que a família utiliza o programa na comemoração. "Poder utilizar o Skype nos feriados me permite vivenciar momentos com minha família que não seriam possíveis de outra forma".

Em seu oitavo ano de existência, o Skype - assim como outros do mesmo gênero, tais como o FaceTime da Apple e o Google chat - se tornou um acessório comum para um número crescente de lares americanos, possibilitando novas formas de conexão familiar em uma era na qual se torna cada vez mais difícil o encontro de gerações ao redor da mesa para compartilhar uma refeição no domingo à tarde.

Há os hábitos familiares, é claro - sobrinhas fazendo apresentações de dança para as tias, irmãos mostrando a decoração de Natal para os primos, avós conhecendo seus novos netos, ainda que estejam separados por centenas ou milhares de quilômetros.

Ao passo que o Skype se torna parte do dia-a-dia, famílias espalhadas pelo mundo podem abrir juntas os presentes de aniversário, contar histórias antes de dormir e até ajudar um pouco no cuidado com as crianças. As pessoas estão compartilhando experiências que antigamente seriam impossíveis sem uma passagem de avião.

Com a proliferação de câmeras e microfones acoplados a computadores e aparelhos móveis, da conexão de banda larga e das melhorias nos programas, é realizada uma média de 300 milhões de minutos de ligação com vídeo todos os dias com o Skype. Um aumento de 900 por cento em relação a 2007, de acordo com os dados fornecidos pela empresa. Muitas outras ligações têm sido feitas com o uso de outros softwares populares, como o FaceTime e o Google chat.

Domingo de manhã é a hora de pico nos Estados Unidos, quando 30 milhões de pessoas estão online em suas contas do Skype e mais de meio milhão fazem ligações de vídeo simultaneamente, segundo a empresa.

Neste verão, quando Jamie Van Houton, 28, se mudou de Riverside, na Califórnia, para Ohio durante o sexto mês de gravidez, sua amiga Tasha Montgomery, 33, se preocupou, pensando que sua melhor amiga poderia se sentir solitária na reta final da gravidez.

"Eles não conhecem ninguém por lá", afirmou Montgomery. Em julho, Tasha decidiu fazer um chá de bebê utilizando o chat de vídeo. Ela chamou amigos em comum em Riverside para fazer um prato especial e se juntar para a festa.

"Arrumamos tudo sobre a lareira, pra que ela pudesse ver todo mundo", afirmou Montgomery, que enviou um cartaz por correio para Van Houton antes da festa. "Nós achávamos que a festa iria durar umas duas horas, mas as pessoas se juntaram e ficaram conversando por umas quatro ou cinco horas. Foi muito legal".

Van Houton disse que ficou surpresa com a animação de seu chá de bebê de última geração. "Eu havia pensado, 'Ah, vai ser legal, mas não é a mesma coisa que estar lá'", afirmou Van Houton. "Mas acabou sendo ainda melhor", afirmou, explicando como os amigos se revezaram para falar com ela. "Eu consegui me comunicar em particular com cada pessoa, mais do que se eu estivesse lá".

Terceira idade
Cada vez mais aposentados estão se tornando adeptos do chat de vídeo, já que cada vez mais centros para a terceira idade oferecem aulas para ensinar aos idosos como ligar o computador, abrir uma conta e se conectar.

Elaine Welin, de 64 anos, é uma tecnóloga aposentada que mantém um laptop em sua mesa de jantar, perto de um passador de crochê e uma vela perfumada. Ela utiliza o serviço para aproveitar seu café da manhã com um dos muitos amigos que vivem na mesma cidade. "Eu adoro fazer isso", afirmou Welin, que dá aulas de Skype no Centro da Terceira Idade de Eau Claire, no Wisconsin. "Nós nos sentamos, tomamos um café e batemos".

Pais com filhos pequenos também descobriram alguns benefícios inesperados. Durante uma ligação com seus pais, há dois anos, Jeremy Rotham-Shore, 36, de Cambridge, Massachusetts, queria comprar um pouco de sopa para sua esposa, Aviva, grávida de seu segundo filho e acamada por causa de uma gripe. Ele perguntou a seus pais, Deborah e Robert Rothman de Rochester, Nova York, se eles poderiam distrair sua filha, Ayelet, com dois anos na época, durante a meia hora que seria necessária para que ele fosse até o restaurante asiático.

"Minha esposa mal conseguia se sentar", explicou Jeremy Rothman-Shore. Quando ele voltou, Ayelet "estava entretida e se divertindo muito". "Foi muito melhor do que colocá-la na frente da TV", afirmou. "E os meus pais também estavam felizes. Não é o mesmo que chamar uma babá para ficar algumas horas com as crianças, mas já é uma grande ajuda".

Participar - e não só ouvir falar - do dia-a-dia das crianças parece ser uma das principais vantagens do chat de vídeo.

Welin, de Fall Creeck, no Wisconsin, adorou quando Maleah, sua neta de dez anos que vive em Stevens Point, quis mostrar a nova decoração de seu quarto. "Ela disse: 'Vovó, eu quero que você veja as minhas cortinas'. Então ela pegou o laptop, apontou a câmera para as paredes e passeou pelo quarto", contou Welin. "Ela estava tão orgulhosa".

Da mesma forma que o chat de vídeo ajuda as famílias a celebrar a vida, ele também ajuda a lidar com a morte.

Por mais de uma década, Maxime Jackson, 90, mãe de onze filhos e uma de sete irmãos em Lansing, Michigan, falava duas vezes por dia com sua irmã mais nova, Selia Mae Basdon, que vivia em uma pequena cidade perto de St. Louis. No início de 2011, seu ritual teve fim quando Basdon, que tinha câncer no cólon, deu entrada no hospital.

Preocupado que sua mãe não tivesse a chance de dizer adeus à irmã, Jerome Jackson, conhecido como J.J., organizou uma ligação com vídeo por Skype. "Selia Mae estava muito doente e nós sabíamos que ela não iria viver por muito tempo", afirmou, acrescentando que sua mãe perdera dois irmãos e uma irmã nos últimos cinco anos e não teve condições físicas de visitar nenhum deles.

Um amigo que entendia de informática preparou tudo e Maxime Jackson pôde ver Selia Mae pela tela do laptop, sobre a mesa em sua sala.

"Nós preparamos tudo, eles já estavam prontos do outro lado e pronto. Tínhamos imagem e som", relembra Jerome Jackson. "Eu jamais me esquecerei daquele momento, havia umas 11 ou 12 pessoas na sala da minha mãe e na cozinha, todos esperando pelo momento. E eu ouvi minha mãe dizer, 'A gente se vê, Mae Mae!' E as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto".

A tecnologia abriu novas oportunidades, mas também criou novas complicações.

Uma mãe em Vancouver (seu nome não será revelado para preservar a privacidade de seus filhos), reclamou que seu ex-marido, que fazia ligações com vídeo três vezes por semana com sua filha de quase dois anos, acreditava que esse tipo de interação era uma forma adequada de ser pai. Isso lhe deu "uma boa desculpa para ser um pai ausente".

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"Ele pode dizer: 'Sim, eu a vi, ela está fazendo isso e aqui", afirmou a mãe. "Mas ela não o sente. Não pode tocá-lo, não pode senti-lo. Não há nenhuma experiência sensorial. Ele não a viu pessoalmente desde que ela tinha apenas três semanas".

O chat de vídeo também traz certos riscos.

Os vídeos "podem ser gravados e compartilhados com qualquer pessoa em uma plataforma online", afirmou Jill Murphy, diretor editorial da Common Sense Media. "Seu filho talvez não saiba disso". O grupo, uma organização sem fins lucrativos para pais, oferece em seu site uma lista de dicas para o chat de vídeo, por exemplo, dando instruções de como configurar os programas para que não aceitem ligações de estranhos.

"Caso seus filhos gostem de plateia", acrescentou Murphy, "é importante que você preste atenção em seu comportamento, evitando que determinadas partes do corpo fiquem expostas".

Apesar de todos os seus benefícios, o Skype e outros programas de chat de vídeo têm suas limitações inevitáveis.

"Não existe tecnologia capaz de reproduzir o que significa estar pessoalmente com seus filhos", afirma Debra Darvick, contando como preparou latkes antes da reunião de Chanucá por Skype, mas que só metade da família estava lá para saboreá-los. "É ótimo, mas, mesmo assim, nada se compara a ter meus filhos em casa, nos meus braços, celebrando em volta da mesma mesa".

"Por mais legal que seja", conclui, "isso só me faz sentir ainda mais saudades".

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