iG Delas

Comportamento

enhanced by Google
 

Cachorros são “melhores que pai e mãe” para moradores de rua

Fonte de afeto e proteção, os bichos são motivo até para abrir mão de um abrigo

Simone Cunha, iG São Paulo | 16/07/2011 06:43

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

O alcoolismo fez Riberto Roque, 43, perder tudo: emprego, família e uma vida confortável. Hoje, passa os dias no Largo do Paissandu, no Centro da capital paulista, sem ocupação, sem destino, sem perspectivas. Sem nada, mas com uma companheira parceira, amiga, fiel: a cadela Pretinha. “Ela só dorme do meu lado, encostadinha. Se eu estiver dormindo e alguém ameaçar chegar perto, já começa a latir. Meu sentimento por ela é de pai para filho. Eu a chamo de filha”, conta o morador de rua.

TESTE: VOCÊ É UM DONO EDUCADO?


Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena

Pretinha monta guarda ao lado de Riberto



Ele lembra que ganhou a cadela vira-lata há oito anos, de um carroceiro (catador de papel e papelão). “Não sei se ela tem raça. Acho que é misturada”, diz. Mas pedigree para ele é o que menos importa. “Ela é ótima, me acompanha sempre. E é criada com ração e água fresca. Nunca passa fome. O povo (moradores e comerciantes locais) ajuda. Tem gente que até leva a Pretinha para tosar e tomar banho.”

Os latidos deram o aviso: tem ladrão!
Já David da Silva, 46, lembra do dia em que sua cadela Juliana o ajudou a recuperar seu carrinho de feira, no qual carrega seus poucos pertences, como um par de sapatos e peças de roupa. No meio da noite, alguém levou tudo. “Eu estava dormindo e ela começou a latir para me acordar. Fui atrás e recuperei meu carrinho”, diz o morador de rua.

Além de Juliana, ele tem outros dois companheiros caninos: Taco e Cisco. “Eles são melhores do que pai e mãe. Estão sempre juntos de mim. São amigos de verdade”, afirma. Mas Juliana tem um lugar especial no coração de Silva. “Eu gosto de todos, mas mais da Juliana porque é a que me protege. Os outros dois são sossegados. Mas a Ju não deixa ninguém chegar perto.”

Leia também:
Para não ver animais no lixo, donos procuram crematórios
Um cachorro de 370 mil reais para proteger quem tem tudo

Quando perguntado sobre a raça dela, ele foi direto: “Não sei, só sei que ela é linda.” Silva dispensa até os albergues – que não aceitam os bichinhos - para ficar ao lado dos animais. “Se eu não tivesse os cachorros, até dormiria em albergue. Mas prefiro ficar com os bichos, na rua.”

Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena

Leandro e sua companheira Luana Billy

Bichinho com nome e sobrenome
A cadela de Leandro, 17, tem nome e sobrenome: Luana Billy. Apesar da pouca idade, Leandro mora na rua há seis anos. Atualmente, ao lado dos pais e de uma tia, vive na Praça da Sé e conta que Luana é sua maior companheira. “Ela me segue sempre, a qualquer hora. Até quando eu entro no Metrô, ela me acompanha. Desce a escada rolante e vai atrás de mim.”

A cadela também é sua protetora. “Ele protege a gente. Quando alguém chega perto, late e ataca. Não morde, mas ataca. E só dorme comigo”, afirma. A tia do adolescente, Valdelice Sandra Teixeira, 51, há 41 anos nas ruas, diz que contou com o apoio da cachorra para recuperar seu cobertor furtado. “Roubaram meu cobertor enquanto dormia. Acordei descoberta. A Luana Billy foi atrás, me levou e me mostrou uma mulher com meu cobertor. Ela é ótima e muito inteligente”, elogia.

Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena Ampliar

Billy, que tem muitos donos

Só na faixa de pedestre
No final da Rua Benjamin Constant, perto da tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, um grupo de moradores de rua reúne-se todas as noites para dormir. Junto deles sempre está Billy. O nome é o mesmo de Luana, só que este é macho. E muito esperto, segundo seus muitos donos. Um deles, Joel Pinheiro, 49, afirma que o cachorro só atravessa a rua na faixa de pedestres. “Mesmo quando a gente atravessa fora da faixa, ele vai até a faixa, atravessa e corre atrás da gente. E olha para os dois lados antes de atravessar.”

Leia também:
Faça um banquete caseiro para seu cão
O animal de estimação dele me odeia

Pinheiro diz que Billy tem mais de 20 donos. E cuida - muito bem - de todos. “Ele é inteligente demais, por isso é adorado por todos”, afirma. Mas Billy também apronta. “Ele não gosta de pão. Um dia, compramos três cachorros-quentes e deixamos numa sacola para comer de manhã. Na madruga, o Billye pegou pão por pão, tirou só a salsicha, comeu e deixou os pães na sacola. De manhã, quando vimos, só gritamos: ‘Billyeeeeeee...’ Ele colocou o focinho entre as patas, abaixou as orelhas e ficou quietinho”, lembra, aos risos. “Companheiro e fiel. Esse é o Billy”, resume outro dono, Marcelo Rufino Cordeiro, 37. “O Billy? Nossa! O Billy é tudo”, se empolga Paulo Alberto Pereira, 26.

Animais mais alegres e menos ansiosos
De acordo com Priscila Felberg, adestradora e consultora de comportamento de cães e gatos da empresa Cão Cidadão, o cão de pessoas de uma casa normal geralmente tem mais distúrbios do que um cachorro de morador de rua. “Isso porque se exercita pouco, anda menos e é menos sociável. Já o cachorro de rua é obrigado a enfrentar tudo isso no dia a dia. Convive com barulho de caminhão, de moto e até precisa defender seu dono”, explica.

Para a especialista, esses animais são mais alegres porque têm mais atividades físicas e até lúdicas. “Por isso, dificilmente cachorro de rua é ansioso, como acontece com os que são criados em apartamento”, completa.

No entanto, o amor de um cachorro pelo seu dono independe do espaço físico em que vive e da condição social. “O cachorro não faz distinção pelo ambiente em que vive: mansão, quitinete ou rua. Ele cria um amor incondicional e um vínculo muito forte com seu dono. O que importa é o grupo e o companheirismo”, conclui.

<span>Pretinha encara o fotógrafo "invasor"</span> - <strong>Foto: Alexandre Carvalho/Fotoarena</strong> <span>Billye ganha abraço de Paulo Alberto Pereira, um de seus muitos donos</span> - <strong>Foto: Alexandre Carvalho/Fotoarena</strong> <strong>Publicidade</strong> <span>O grupo de Billye</span> - <strong>Foto: Alexandre Carvalho/Fotoarena</strong> <span>O morador de rua Marcelo Rufino Cordeiro com Billye</span> - <strong>Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena</strong>

E mais:
Doga: aula de ioga para cães e seus donos

Cachorros frequentam restaurantes com aval de donos e clientes


 

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


94 Comentários |

Comente
  • eli | 22/07/2011 10:17

    Os animais são humanos, bem mais que os próprios humanos. Amam seus donos independente de cor, situação financeira, o que importa é o carinho por eles.Cuido de uma cadelinha abandonada na rua.Ela me adotou como sua dona, ew agora me sinto responsável por ela.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • nair maria pereira | 21/07/2011 14:01

    eu tenho um pudo, que é a minha vida, ele é tão inteligante, que quando estou triste, ele também fica trista, quando estou alegre, ele fica alegre, e concordo que se os homens tratasse os animais com respeito o mundo seria bem melhor.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • MANOEL LOPES | 20/07/2011 14:59

    tenho treis gatas (castradas) e uma cadela.todas vira-latas no momento passo por uma situação dificil mas,pra elas graças a Deus nunca faltou nada.\n\n\nmanoel/saogonçalo RJ

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • vagner luis | 17/07/2011 14:11

    Parabens pela reportagem,gosto muito de animais.E das pessoas que infelizmente mesmo sem ter dinheiro,roupa,comida e um lar e varias outras coisas essas pessoas cuidam dos animais que tambem estão nas ruas.Parabens a essas pessoa tao boas de coração.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • Camila | 17/07/2011 13:04

    Adorei a matéria, fiquei emocionada com a lição de amor sincero que os bichos são capazes de dar. Às vezes eu chego a crer que eles são mais elevados que nós, seres humanos, pelo menos em certos quesitos.\n

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • ADILSON | 17/07/2011 12:36

    VIVEMOS NUM MUNDO DE VAIDADES, DE ESTATUS,DE LUXO,DE GANANCIA,DE EGOISMO,\nVIVEMOS NUM MUNDO DE CIENCIA,DE SABEDORIA,DE VICIOS,DE MEDO, DE INSATISFAÇAO,DE SUICIDIO,VIVEMOS NUM MUNDO DE PEDIGREE,\nESSENCIAL É VIVER NUM MUNDO DE RESPEITO,DE SIMPLICIDADE,\n NUM MUNDO DE AMOR ,NUM MUNDO VIRA LATA.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • Maura | 17/07/2011 12:30

    É muito,mas muito triste saber que pessoas vivem na rua, uma realidade que não podia existir e o foco recai sobre os animais... melhor seria que estes animais estivessem com seus donos em casas e não dormindo em calçadas! Deus do céu 41 anos vivendo na rua!!!! É um absurdo, algo que doi... e viva nosso lindo Pais de riquezas e abundância!!!!!

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • VANIA TORRES | 17/07/2011 12:22

    chego a chorar de emoção, ao ver estas imagens.\namo todos os bichos, considero todos meus irmãos.\nsempre tive cachorros e outros animais.\nchego a pensar que as pessoas estão chegando\nem um ponto de tamanha crueldade, que não\nvai demorar os ditos "animais" sairem com a gente\nna guia para passear.\nTodo ser humano deveria ter um animal,\nassim talvez conseguira ter mais amor e menos ódio.\nOs animais e as plantas é a forma mais vísivel de ter certeza que \nDeus existe.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • Betica | 17/07/2011 12:12

    NÃO TENHO DÚVIDAS QUANTO AO AMOR INCONDICIONAL DOS ANIMAIS, MAS COLOCO A PROVA O AMOR DOS HOMENS PELOS MESMOS. ENQUANTO SADIOS, SÃO ÚTEIS. QUANDO ADOECEM ABANDONAM-OS NAS RUAS SEM O MENOR ESCRÚPULO. MUITOS COITADOS, SÃO ATROPELADOS NAS RUAS E TANTO O MOTORISTA QUANTO SEUS DONOS NÃO PRESTAM SOCORRO, DEIXANDO-OS MORRER DE DOR OU CUIDAM DELES EM CASA DEIXANDO-OS ALEIJADOS, PARA "FUGIR DOS CUSTOS COM VETERINÁRIOS". DEVERIA TER UMA LEI MAIS EFICAZ PARA PROTEGÊ-LOS DE ABSURDOS COMO ESTES. SÃO VIDAS QUE MERECE RESPEITO! JÁ TIVEMOS TANTAS DEMONSTRAÇÕES DO "CUIDADO DELES POR VIDAS HUMANAS". MUITOS ARRISCAM SUAS PRÓPRIAS VIDAS P/NOS SALVAR E POUCOS DE NÓS TEM A MESMA CORAGEM PARA SALVÁ-LOS. OS MAIS MALTRATADOS PELO HOMEM SÃO OS CAVALOS. QUANDO VEJO-OS MANCANDO, PUXANDO CARGAS PESADAS E LEVANDO CHICOTES NO LOMBO, DÁ UMA VONTADE DE TOMAR DAS MÃOS DO DONO "AQUELE CHICOTE" E DAR UMA SURRA NELE ATÉ SENTIR "NA PELE" O QUANTO DÓI TAMANHA 'COVARDIA"... DEVIA SER BANIDO CARROÇAS NOS TEMPOS DE HOJE. "JÁ ROMPEMOS FRONTEIRAS EXPLORANDO ESTES ANIMAIS., É MAIS DO QUE MERECIDO, MANTÊ-LOS LIVRES OU CRIÁ-LOS COM AMOR E CARINHO FEITO BICHOS DE ESTIMAÇÃO. MEU COMENTÁRIO VALE PARA QUALQUER TIPO DE ANIMAL!

    Responder comentário | Denunciar comentário
    Va | 21/07/2011 15:37

    Concordo plenamente com vc. Detesto ver pessoas que maltratam animais. Será que essas pessoas não param para pensar que ali tem uma vida, um ser de carne e osso que sente fome, sede e dor? Eu já tive essa mesma idéia que vc, que vontade de dar umas boas lambadas em quem, além de precisar do animal para sobreviver, bate nele como se ele não sentisse absolutamente nada...\n

    Denunciar comentário
  1. Anterior
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. 4
  6. Próxima

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




*Campos obrigatórios

"Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

Mais destaques

Destaques da home iG

Ver de novo