Biógrafa se aprofunda em detalhes de histórias já conhecidas, mas defende obra dizendo revelar uma Oprah "controladora"

Kitty Kelley já escreveu livros sobre personagens controvertidos e acostumados às manchetes, como Jacqueline Kennedy Onassis, a família Bush, a família real britânica e o cantor Frank Sinatra. Seu último lançamento, no entanto, tem levantado mais polêmica que qualquer outro. Em "Oprah", a jornalista investigativa promete revelar os segredos mais bem guardados da apresentadora mais influente, popular e rica dos Estados Unidos. Mas quais segredos Oprah Winfrey, conhecida pelo seu estilo confessional de apresentação, ainda teria a revelar?

Em entrevista ao New York Times, a biógrafa disse que Oprah era mais restritiva em relação a suas informações do que o próprio Frank Sinatra - cuja vida era repleta de pouco lisonjeiros, como traições conjugais e envolvimentos com a máfia. Oprah, por outro lado, é reconhecida como dona de uma impecável trajetória de sucesso. Nascida em 1954 na zona rural do Mississippi, sul dos Estados Unidos, de pais adolescentes que nunca se casaram, ela foi criada até os seis anos pela avó Hattie Lee, na mais absoluta pobreza: usava vestidos feitos de sacos de batata, segundo declarou em entrevista, pois não tinha dinheiro para roupas.

Kitty Kelley, biógrafa de celebridades, e Oprah Winfrey: apresentadora preferiu não comentar sobre a biografia não-autorizada
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Kitty Kelley, biógrafa de celebridades, e Oprah Winfrey: apresentadora preferiu não comentar sobre a biografia não-autorizada
A avó, apesar disso, foi uma grande incentivadora de Oprah - cujo exótico nome é resultado de um erro de grafia cometido pelo cartório em seu nome original, que seria Orpah, tirado de uma passagem bíblica. Hattie Lee ensinou a neta a ler e a encorajava a estudar e a fazer leituras recitadas na igreja. Por seu excelente desempenho escolar, Oprah garantiu uma vaga na Tennessee State University, onde se formou em Comunicação. Apresentadora de rádio, estreou em rede nacional em 1984 e rapidamente levou seu programa para o primeiro lugar de audiência. Seu estilo direto, sua curiosidade natural e sua capacidade de se relacionar tanto com o público quanto com seu entrevistado são a marca registrada de seu estilo - e sustentam sua grande empatia e proporcional audiência - desde então.

Para os críticos, Oprah conquistou seu sucesso promovendo uma espécie de "glamourização da vitimização", colocando pessoas que são vítimas de algo - um marido opressor, um problema com peso - nos holofotes e atraindo audiência às custas delas. A multimilionária apresentadora, a um semestre de inaugurar sua própria rede de TV e dona de um império de comunicações que inclui programas de TV e revistas, parece não ligar.

Página do livro ilustra o conhecido problema de peso de Oprah
Reprodução
Página do livro ilustra o conhecido problema de peso de Oprah
Segredos em rede nacional

A própria Oprah revelou no ar, durante um de seus programas de televisão em 1986, que havia sofrido abuso sexual. Vindo de uma família pouco estável e marcada pela pobreza, Oprah já se descreveu como uma adolescente promíscua, fala sobre alguns de seus tumultuados romances e sempre tornou pública sua luta contra o peso. Também é conhecida a história de sua gravidez aos 14 anos, dando à luz um bebê que morreu poucas semanas depois.

Como escrever, então, uma biografia reveladora sobre alguém que conta, em cadeia nacional, sobre os abusos sexuais que sofreu na infância, ou sobre sua luta diária com a balança? Para Kelley, os méritos de sua biografia são ir a fundo e detalhar estas questões - dando, por exemplo, o nome e a certidão de nascimento do filho que a apresentadora teve aos 14 anos. E o fato de revelar justamente que Oprah é menos transparente do que parece.

Kelley revela, no livro, que a mãe de Oprah, embora mantenha uma vida luxuosamente confortável com o dinheiro da filha, não é capaz de contatá-la diretamente: tem que falar com a secretária antes. E que a apresentadora já implorou a parentes que a contem quem é seu pai biológico - ela foi criada por Vernon Winfrey, um ex-minerador de carvão que se tornou barbeiro e foi uma das fontes da autora - sem sucesso.

Amigos de Oprah

Kelley, cujos livros anteriores estrearam nas listas de mais vendidos melhor ranqueados do que este, atribui as dificuldades da divulgação de "Oprah" a um boicote da mídia. "Entre ser amigo de Oprah Winfrey ou de Kitty Kelley, não tem competição, não é?", se pergunta ela, em entrevista ao New York Times.

Na introdução, a biógrafa defende a liberdade e a independência de se escrever uma obra sem o aval e o controle do biografado, embora admita sentir-se "desconfortável" com o termo "não-autorizada", que acompanha todas suas biografias, pois acha que ele está relacionado a um ato "nefasto". "Apesar de meu desconforto com o termo, entendo porque a biografia não-autorizada provoca a raiva dos biografados; significa uma apresentação independente de suas vidas, sem respeito às suas demandas ou decretos", escreve.

Oprah, cuja língua solta e franca a fez tão famosa, ainda não se manifestou sobre a biografia desde que ela foi lançada nos Estados Unidos, mês passado. No portal oficial da apresentadora, a busca por "Kitty Kelley" retorna apenas um resultado - uma coluna assinada sobre o comediante Denis Leary que fala sobre o Twitter mas, lá pelas tantas, ironiza uma suposta falta de compromisso da Kelley com a verdade.

Trechos

Katharine Carr Esters, prima de Oprah:

"Ela faz um monte de boas coisas para as pessoas com seu dinheiro, mas é fácil quando você tem tudo aquilo e precisa de deduções no imposto de renda. E Oprah não move uma palha (...) a não ser que as câmeras estejam ligadas. Sim, ela deve ganhar divulgação por seus atos filantrópicos, e ela se certifica de que vai mesmo ganhar. Ela nunca perde uma oportunidade, especialmente de ganhar dinheiro. Ela não vem visitar, ela só vem para gravar seus programas. Ela esteve aqui três vezes nos últimos 20 anos, e todas as vezes foi para gravar um programa. Tudo, para Oprah, é negócio".

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"Oprah também se inscreveu na 'Underground Railroad Immersion Experience', para reencenar as emoções de um escravo fugitivo cuja liberdade e pensamento independente foram negados. Por dois dias ela viveu como fugitiva, vendada, perseguida por cães e por 'senhores de escravos' a cavalo. "Eu sabia que ainda era Oprah Winfrey, e eu podia tirar a venda a qualquer momento que eu quisesse, mas a reação a ser chamada de "crioula" foi simplesmente visceral para mim. Eu queria parar. Mas não o fiz. Eu queria sentir tudo. Eu toquei em um lugar sem esperança, vazio e escuro, do qual nunca me esquecerei. Foi uma experiência transformadora para mim. Eu saí daquilo corajosa porque aprendi de verdade de onde eu vim".

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