A porto-riquenha Irene Vilar expõe sua vida numa história nada convencional: ela passou por 15 abortos

Irene Vilar levou tempo para perceber que tinha
um problema sério
Gary Isaacs
Irene Vilar levou tempo para perceber que tinha um problema sério
Considerado um “crime contra a vida” – ou, na melhor das hipóteses, uma prática legal e aceitável em determinadas circunstâncias – o aborto sempre foi polemizado pelos dois lados da moeda. Agora, em livro a ser lançado na próxima semana nos Estados Unidos, a porto-riquenha Irene Vilar conta seu ponto de vista sobre 15 intervenções médicas para interromper a gestação. Contando que o número quinze não é nenhum equívoco, já podemos prever mais controvérsias sobre o assunto.

Para a publicação de “Impossible Motherhood: Testimony of an Abortion Addict” – na tradução literal, “Maternidade Impossível: Testemunho de uma Viciada em Abortos”, Irene recebeu 51 rejeições de diferentes editoras para finalmente conseguir alguém que consentisse em colocar no mercado sua perturbadora biografia. Dona de uma vida digna de ser narrada, a autora de 40 anos (que hoje é mãe de duas meninas) diz não ter intenção de que sua história seja lenha para a fogueira da interminável discussão sobre o aborto, seus prós e contras.

Por outro lado, já inicia controvérsias ao afirmar, conforme o jornal americano “The Vancouver Sun”, que seus abortos foram possíveis porque ela conseguiu “abusar” dos procedimentos legais dos Estados Unidos, que permitem a interrupção voluntária da gravidez, embora esta esteja sujeita a restrições.

Vida atribulada, tendência familiar e auto-sabotagem
Irene, que recusa a ver-se como vítima dos acontecimentos de sua própria vida, fez uso deste direito durante quinze anos, desde que se apaixonou por um professor de 50 anos quando ela mesma tinha 16. E ali se iniciou uma luta contra seus próprios desejos maternos, por então se casar com um homem que não queria ter filhos.

Ela, filha de uma mãe que se suicidou quando tinha oito anos e que sofreu com casos de alcoolismo e vício em drogas na família, demorou a perceber seu singular problema. A sua sequência de abortos foi causada, em parte, pelo “esquecimento” das pílulas anticoncepcionais que, antes, faziam parte de seu dia a dia. A sabotagem a si mesma acabou tomando reais proporções que a faz afirmar, hoje, ter sido um “detrimento para as mulheres que lutaram para proporcionar o direito do aborto e um detrimento para seu próprio corpo e à solidez da maternidade”.

Foi apenas em 2002 que Irene passou a notar seu comportamento como um vício e buscou um terapeuta, o que a levou a falar e escrever sobre seus múltiplos abortos. O que, consequentemente, levou ao livro que será publicado pela editora novaiorquina Other Press.

Segundo a editora e psicanalista Judith Gurewich, “o comportamento de Irene é muito similar ao da anorexia ou bulimia. É um tipo de vício onde ela quer impor sua própria regra ao corpo embora, no caso dela, envolva um diferente objetivo”.

Atualmente, Vilar situa seu chocante drama como parte do passado enquanto afirma, segundo o site bookslut.com, que o livro consiste numa história sobre obsessão, traumas de infância e sua luta para encontrar a própria voz. Hoje, após finalmente se tornar mãe ao lado de seu segundo marido, reuniu coragem e força para expor, a todos que queiram saber, o que passou por sua mente ao redor dos anos em que esteve viciada em realizar abortos. Um vício nada comum, mas que sem dúvida poderá ser mal entendido por aqueles que vêem o aborto como uma prática moralmente incorreta.

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