Comum em diversos países, as festas com músicas transmitidas em fones de ouvido começam a fazer sucesso no Brasil

Uma festa sem música não pode ser animada. Mas preste atenção no que está acontecendo se, em algum lugar do Brasil, você se deparar com um silêncio quase absoluto e pessoas com fones de ouvido dançando bem animadas. Não, você não teve um bloqueio momentâneo de audição. Você está em uma balada silenciosa, ou Silent Disco, como essas festas são conhecidas no exterior.

Novidade aqui no Brasil, a primeira Silent Disco surgiu no início de 1990, ideia de ecoativistas preocupados com a poluição sonora. Quinze anos depois, em 2005, o Glastonbury Festival consagrou o estilo. No famoso festival inglês, realizado desde 1970 perto das misteriosas pedras monolíticas de Stonehenge, as leis ambientais restringiram os decibéis mas não a criatividade dos organizadores. Em meio às várias tendas com atrações musicais, os fones de ouvido foram surgindo conforme o horário da festa avançava -- tudo para seguir as novas regras de proteção ao meio ambiente.

Um ano depois, em 2006, na Índia, os cuidados com a poluição sonora mudaram a cena dos famosos festivais de música trance psicodélia. "Nós começamos a fazer Silent Disco em Goa há três anos. Foi uma resposta direta à lei ambiental", diz Simon Banks, organizador da Headphone Party naquele país. A inspiração, diz Banks, veio das festas inglesas. "Organizávamos festivais abertos de música trance há dez anos. Goa era reconhecida por eles. Após a lei ambiental, ficamos sabendo das festas inglesas e isso pareceu a solução lógica para o nosso problema."

Foi também a solução apresentada na Virada Cultural de 2008 para fazer uma festa de 12 horas bem no meio do centro histórico de São Paulo. Em frente ao Mosteiro São Bento, o silêncio predominou ao lado da animação comandada por DJs como Mau Mau e Patife que ficaram nas pick-ups retransmitidas em dois canais simultâneos de música house, techno e eletro. Foram distribuídos 500 fones de ouvido em pistas nos largos São Bento, São Francisco e nas ruas das imediações.

Nesse ano, as Silent Parties foram parar até em blocos de carnaval. A experiência aconteceu no projeto Shh! Club Silêncio, da produtora cultural Adriana Lima e dos irlandeses Conor Brady e Alex Brennan. O bloco Silent Monkey tomou conta das ruas do Rio de Janeiro. Com máscaras de macacos, com bananas e cervejas, o bloco passava cantando e dançando animadamente, mas em importunar as pessoas com músicas altas. Além desse inusitado bloco, o Shh! Club Silêncio teve festa no bar Dama de Ferro e em espaços externos diversos.

Em São Paulo, o silêncio chegou com o outono, no início de abril, na festa Nokia Silent Club, no Sonique. Para quem se deparou pela primeira vez com essa experiência, a sensação foi de estranhamento. "De fora, parecia tudo estranho, havia três DJs, todos dançando e eu sem saber que música estava tocando", disse a educadora Michelle Stravinski, de 25 anos. Sem nunca ter ouvido falar de Silent Disco, Michelle tratou logo de arrumar uns fones. "Quando consegui escutar a música, achei muito interessante porque havia três opções distintas de canais de áudio, cada uma com um DJ. Achei muito bacana", contou.

A ideia foi de Adrian Harley, gerente de música da Nokia Brasil. Para promover o Nokia Music Store, bolou uma Silent Party em que as músicas tocadas pelos seis DJs que se revezaram em três pick-ups diferentes fossem todas do acervo da empresa. "Conheci a Silent Party em Glastonbury, em 2007. Achei divertido porque o movimento da galera não sincorniza, cada um dançava uma coisa", diz Harley. "Aqui a experiência foi melhor porque as pessoas têm essa coisa de interagir mais, trocar, querer conversar sobre o que cada um está ouvindo." Para ele, o ponto alto da festa foi quando a música "Heve you ever seen the rain", do Creedence, virou um coro só. "Todos começaram a indicar com os dedos o número dois. Era a dica para trocar o canal de música e sintonizar naquele hit", conta.

Entre os seis DJs que se revezaram no comando da festa estavam as meninas do coletivo De Polainas. "Era a nossa primeira balada silenciosa e foi uma experiência maravilhosa", disseram
Adriana Recchi, Ana Flavia e a Glaucia++. "Como as pessoas podiam escolher qual DJ ouvir no fone acabou rolando uma 'competição' entre nós djs (De Polainas X Killers On The Dancefloor X Thiago Ney) pela preferência do público. Foi muito bacana ouvir em vários momentos da festa a maioria das pessoas cantando nossas músicas", comemoram.

A novidade nem sempre agrada todo mundo. A psicóloga Ana Cláudia Morita, de 25 anos, que foi na Nokia Silent Club, prefere as festas tradicionais com a mesma música para todo mundo. "Quando toca algo que todos escutam, dançam e cantam, você compartilha com as pessoas que estão lá os sentimentos que a música traz para você. Ali parecia que eram todos da geração iPod, cada um com a sua música, curtindo com os seus amigos, sem muita interação."

Opiniões à parte, a festa é popular em quase todos os continentes do mundo. No Reino Unido e na Irlanda são mais de 150 shows por ano, contando somente aqueles organizados por Graham Henrik Larrson Ferguson, da Headphone Disco. "Nós já levamos a festa por toda a Europa, Estados Unidos e Canadá. Até em Uganda, na África, teve uma Headphone Disco no ano passado, no Bayimba International Festival."

Será que a moda pega por aqui? As meninas do De Polainas torcem para que sim. "É um evento interessante de se estar, aconselhamos à todos que puderem ir. Foi um sucesso." Michelle também aprovou a proposta. "Iria de novo e acho que até poderia ser um pouco mais ousado, como misturar em uma mesma festa o público do rock, reggae e bossa nova, por exemplo. Queria ver como seria a hamornia entre essas pessoas diferentes." O Sonique e a Nokia prometem mais uma balada silenciosa nos dias 4 e 18 de maio, mas o playlist ainda não está fechado. Está lançado o desafio. 

Saiba mais em:

www.headphonedisco.com
www.headphoneparty.biz
www.silentnoise.in

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