Festas como as de encerramento do colegial - com direito até a eleição de rainha do baile - viram opção de diversão para adultos

As festas são como as formaturas de colegial, com a diferença de que o álcool é permitido
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As festas são como as formaturas de colegial, com a diferença de que o álcool é permitido
Da última vez que a americana Ashley Moeller se meteu em um vestido de cetim e em reluzentes sandálias de saltos altos para um baile de formatura, ela recebeu um aviso implacável de seu pai: esteja em casa até as 23h, em ponto. E ele ainda ficou esperando na porta para cuidadosamente sentir o cheiro de seu hálito e detectar qualquer possível vestígio de álcool.

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Mas, desta vez, ela simplesmente deixou as crianças na casa da sogra. Ninguém estaria esperando por Ashley e seu marido, Kurt - ambos com 25 anos de idade - ao voltarem pra casa depois do bailinho para adultos.

“Balada ao estilo baile escolar, do jeito que você sempre quis: não é preciso esconder a bebida, o suco é “batizado”, e a banda toca a todo volume”, dizia o anúncio na cidade de Green Bay, na tentativa de atrair festeiros de plantão - cujos bons tempos de colégio há muito já se foi.

Ashley, de laranja, dança com uma amiga. Ela gastou mais de 200 dólares em preparativos para a
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Ashley, de laranja, dança com uma amiga. Ela gastou mais de 200 dólares em preparativos para a "formatura"
Estamos no ápice da temporada de bailes nas escolas americanas, quando adolescentes gastam centenas de dólares pelo que esperam ser a noite perfeita. Mas, em um número cada vez maior de cidades, as adolescentes em busca do vestido de baile estão se acotovelando com mulheres já crescidinhas, algumas com pelo menos o dobro da idade das garotas. Neste ano, já aconteceram bailes para adultos em Fort Wayne, Indiana, e em Beverly, Massachusetts. Outros já estão planejados em Decatur, Geórgia e Cedar Rapids, Iowa.

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Estes eventos não são encontros de ex-colegas de colegial ávidos a reviver a noite que passaram juntos no baile da escola. Embora alguns já beirem os 60, a grande maioria dos participantes é de jovens entre 20 e 30 anos de idade, empolgadíssimos com a perspectiva de se vestir para dançar e também votar pelo rei e rainha da noite.

Mas, como pode ser vista aqui em Green Bay, a versão adulta guarda muito das esquisitices do tradicional baile estudantil americano, que fica somente um pouquinho mais tolerável com a adição do álcool. Dentro do salão, tinha a mulher se perguntando em voz alta que fim tinha levado seu companheiro. Em outra mesa, havia um grupinho de amigas, com ar lastimável, em busca de diversão. Em um canto da pista de dança, uma mulher estava com os braços pendurados no pescoço do parceiro, enquanto que as mãos do rapaz passeavam pelo seu corpo de modo a deixar corada qualquer dama de companhia.

O casal Becky e Brent alugou até uma suíte de hotel para garantir que a festa durasse mais
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O casal Becky e Brent alugou até uma suíte de hotel para garantir que a festa durasse mais
A verdade é que ninguém parecia se importar. Era como se eles estivessem revivendo o passado, em uma nova tentativa do mesmo dar certo. Para alguns, talvez aquela fosse a primeira oportunidade de participar do ritual americano de passagem. E, para outros poucos, uma noite para recriar uma das melhores épocas de suas vidas.

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Na tarde de sexta-feira, Ashley e sua amiga Randa Genke se instalaram nas poltronas do cabeleireiro, comparando os gastos de cada uma para a grande noite. Ashley tinha investido 140 dólares em seu vestido drapeado laranja na altura dos joelhos, além de 50 dólares nos sapatos dourados. Teve também os 30 dólares da sessão de bronzeamento feita na véspera, e ela ainda gastaria no cabelo e nas unhas postiças. Tudo isso antes de encarar o filé e o martini do jantar.

“Não sai barato, mas é muito especial”, dizia Ashley, enquanto olhava a lista do que ainda tinha de fazer. Sua irmã logo ligou pra saber das novidades. Ela atendeu ao telefone, respondendo: “Vamos a um baile para adultos, já te falei. Estamos fazendo um penteado no salão e depois vamos pra casa para nos arrumar”. Ela desligou o telefone, ainda surpresa com a falta de interesse da irmã.“Há semanas estou pensando nisso. Ontem eu estava tão empolgada que nem consegui dormir”.

Preparativos para a festa
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Preparativos para a festa
Na verdade, grande parte do prazer esta simplesmente na espera. O casal Beckie e Brent se hospedou no vizinho AmericInn Hotel, para criar a oportunidade de fazer uma festinha particular antes e depois do baile. A bebida escolhida? Drinques de gelatina encapsulados em seringas, como as usadas por Brent nas vacas leiteiras de sua fazenda.

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Poucas mulheres chegavam ao baile com namorados novos – o entusiasmo sincero podia ser detectado pelos tradicionais buquezinhos usados por elas no pulso. A maioria dos casais era formado por pessoas casadas há anos e poucas faziam piadinhas sobre o alívio de não ter de se preocupar em “ficar com alguém”.

“Somos adultos e ainda queremos nos divertir”, disse Beckie. Nas noites que não estão com os filhos – de 14, 7 e 5 anos de idade – o casal geralmente para no bar local para tomar um drinque. Na noite de hoje, Brent em terno e gravata e Beckie em um vestido violeta e azul iridescente estavam fadados a se sentirem diferentes. “Todo ano, quando vejo os vestidos de baile estudantil, penso como seria divertido usar um novamente”, disse ela.

Foto com as amigas
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Foto com as amigas
A moda também está presente nos bailinhos para adultos – mesmo que para os homens isso seja sempre uma reflexão tardia. Algumas mulheres reciclam vestidos de madrinha, enquanto que muitas outras parecem aproveitar a oportunidade de comprar um modelo novo. A cada baile, tem pelo menos uma mulher que consegue se enfiar dentro do mesmo vestido que usou no colegial (em Green Bay, tal honra foi de uma jovem formada poucos anos antes, que usou novamente seu longo rosa choque de alcinhas).

“Como vocês estão se sentindo hoje, no grande dia do baile?”, gritou o líder da banda. Gritinhos entusiasmados ecoavam por todo o salão. A pista de dança ainda não estava lotada, com a banda tocando temas clássicos do rock - como “Mustang Sally,” “Sweet Home Alabama” e “Hotel California” - de uma era longínqua, bem anterior ao nascimento dos frequentadores do baile.

Matt Miller, o organizador do evento, anunciado como filantrópico, esperava a participação de 300 pessoas – mas o número mal chegou a 100. Mesmo assim, exibindo um smoking branco, ele era o entusiasmo em pessoa. O comitê de organização tem de estar sempre animado.

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Matt conta que teve o cuidado de manter intacta uma das principais tradições dos bailes estudantis: a escolha do rei e da rainha. Cada voto custava um dólar e os participantes poderiam votar quantas vezes quisessem, sendo que homens só podiam votar em mulheres e vice-versa. Algumas fotos Polaroid (sim, eles tinham a máquina antiga) mostravam cada um dos indicados.

A apuração revelou que a mulher no chamativo vestido laranja tinha conseguido muito mais votos do que as outras candidatas. Ashley deu uma engasgada quando o organizador coroou a vencedora com uma tiara de strass, sobre os cabelos bufantes perfeitamente intactos.

Ela dançou com o rei do baile e em seguida rodopiou pelo salão nos braços do marido. Por volta das 11h30min, ela já estava a caminho da porta de saída.

“Estou exausta! Não quero beber demais”, disse ela, com uma pontinha de vergonha. Afinal, seus dois filhos pequenos esperavam por ela em casa.

Tradução: Claudia Batista Arantes

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