Tem dias em que todo mundo parece estar reclamando de alguma coisa...

E se, muitas vezes o alvo é o próximo, o vizinho, o outro, na grande maioria das vezes,  o maior responsável pelas nossas mazelas e infortúnios é sempre Ele, ou Ela, a sorte, o destino , o azar ...mas será que realmente nós somos tão frágeis assim? Será que de fato, somos meio como as folhas ao vento de outono, empurradas de um lado para outro, à mercê dos caprichos deste Outro, tão Outro?

Por isso adoro os livros de histórias . Sempre que me pego fazendo estas perguntas impossíveis, agarro um da estante, assim ao acaso...e eles nunca me falharam, acredite! São idéias tão simples, tão sem jeito, tão sem pompa, mas carregam na escolha das palavras e na complexidade dos temas, os insights acumulados ao longo dos séculos, por tantos outros de nós, outros humanos que buscaram junto às estrelas, no coração das florestas, no colo da natureza, maneiras mais humanas de viver...

Só que desta vez, a inspiração veio da web . Um site excelente só com histórias tradicionais, contos e mitos tradicionais. Traduzi essa para vocês porque, desculpem, embora tenha histórias do mundo todo, o site Sur La Lune está em inglês.

Era uma vez um caçador que certo dia se afastou da aldeia mais do que de costume e acabou num lugar da floresta no qual ele jamais havia estado. Um pouco apreensivo, ele parou para tentar se localizar e ouviu um som, uma música. Alguém cantava no meio da floresta? Encantado com a voz maravilhosa, o homem começou a seguir a canção que dizia:

São os homens que forjam os fatos das suas vidas. Não são os fatos da vida que forjam os homens. Qual não foi o espanto do caçador quando chegou perto o bastante para ver que a cantora de voa belíssima era, na verdade, uma tartaruga, que dedilhava as cordas de uma harpa minúscula, da qual extraía o som mais extraordinário que ouvidos humanos já tinham ouvido.

Durante muito tempo ele voltou ao mesmo lugar para ouvir a música da criatura maravilhosa. E ela sempre cantava para agradá-lo. Um dia, pensando que seria bem mais cômodo se não precisasse fazer todo o trajeto até o fundo da floresta para ouvir a música, ele propôs à tartaruga que voltasse com ele para a aldeia. E ela concordou, com a condição de que ela cantaria apenas para ele, para ninguém mais.

O arranjo era perfeito, mas o caçador logo começou a se impacientar. Por que ele não poderia mostrar sua maravilha para o mundo todo? Afinal, ninguém nunca tinha ouvido falar de coisa assim tão disparatada e fanomenal, uma tartaruga que cantava com voz humana e tocava harpa como os deuses...

E pensando assim ele contou para um, depois para outro, até que a história chegou no chefe da tribo. Ninguém queria acreditar. O chefe reuniu o conselho e ordenou que o rapaz provasse o que dizia. Se eu não estiver falando a verdade, disse, pode me matar.  Muito bem, disseram os anciãos, e se o que você diz for fato, pode pedir o que quiser, que nós faremos.

O caçador voltou para casa feliz com o acordo. Ao amanhecer, pegou a tartaruga e sua harpa e caminhou até o centro da aldeia. Todo o povo foi chegando, e se ajeitando em volta da grande mesa onde ele havia colocado a criatura mágica. Mas, nenhum som veio da garganta da tartarua, nenhum som das cordas da harpa.

Nada...horas se passaram e, para vergonha e desespero do caçador, nenhum som se ouviu. A multidão enfurecida e sentindo-se enganada, carregou o rapaz e, sua cabeça rolou, segundo o costume da tribo,  junto com os últimos raios de sol...

Naque mesmo instante e para pasmo geral, a tartarua falou com voz clara e forte. E cantou sua canção uma última vez, antes de desaparecer na floresta:

São os homens que forjam os fatos das suas vidas
Não são os fatos da vida que forjam os homens

Leia a história na íntegra no site Sur La Lune

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Barker, William H. e Cecilia Sinclair. West African Folk-tales. Lagos, Africa: Bookshop, 1917. Traduzido por Adília Belotti, a partir do texto publicado no site Sur la Lune

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