Azar Nafisi, autora do best-seller “Lendo Lolita em Teerã”, fala sobre a luta constante das iranianas contra a opressão

Azar Nafisi durante entrevista na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Eduardo César/Fotoarena
Azar Nafisi durante entrevista na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Com os olhos levemente amendoados e a postura firme, a escritora iraniana Azar Nafisi lembra a brasileira Clarice Lispector. As semelhanças vão além da aparência, ambas usam temas pessoais como base para livros sobre o universo feminino.

No best-seller “Lendo Lolita em Teerã” (Ed. Record), Nafisi conta sobre como criou um pequeno clube feminino de discussão de livros proibidos pelo regime iraniano. Ao falar sobre a reação de suas alunas diante de obras como “Lolita”, “Orgulho e Preconceito” e “As Mil e Uma Noites”, a escritora cria um retrato da resistência feminina no Irã na época pós Revolução Islâmica.

Azar Nafisi, que foi professora de língua inglesa na Universidade de Teerã durante mais de 10 anos, decidiu largar as aulas quando se recusou a usar o véu dentro da Universidade. Hoje ela mora nos EUA, mas ainda considera o Irã a sua pátria, como conta em seu mais novo livro, a autobiografia “O que eu não contei” (Ed. Record).

Há duas semanas no Brasil, Nafisi percebe semelhanças entre as mulheres brasileiras e iranianas, e fala ao Delas sobre literatura, liberdade e seu envolvimento no caso de Sakineh Ashtiani, a iraniana condenada a morrer apedrejada pelo crime de adultério.

iG: O que democracia significa para você?
Azar Nafisi: Democracia significa permitir diferentes vozes e dar espaço para que elas se definam. Essa é a primeira regra da democracia e a primeira regra da literatura. Quando você escreve um romance, por exemplo, tem que dar voz até mesmo para os personagens que não gosta, os “personagens malvados”.

iG: Fale sobre os “personagens malvados”
Azar Nafisi: Já aconteceu de eu ficar muito nervosa ou triste com esses personagens na vida real, mas, quando eu comecei a escrever sobre eles, acabei descobrindo os seus outros lados.

iG: Você se considera feminista?
Azar Nafisi: Eu me considero uma pessoa que acredita profundamente nos direitos humanos e nos direitos femininos. Acho que todas as pessoas que sofrem abuso devem resistir, não apenas em Teerã.

iG: Você está muito envolvida no caso Sakineh?
Azar Nafisi: Sim. É um caso no qual eu estou bastante envolvida. Para mim, esse não é uma questão política, mas existencial. Eu não posso aceitar que no país em que eu nasci outro ser humano possa ser apedrejado até a morte. Acabei ajudando na criação do freesakineh.org [site destinado a reunir assinaturas contra a execução da iraniana]. O Brasil tem o privilégio de não conviver com a pena de morte, por isso os brasileiros simpatizaram com o caso de Sakineh. Quando os brasileiros defendem o direito de Sakineh, defendem também os seus próprios direitos, os seus próprios valores.

iG: O que as brasileiras podem fazer para ajudar as iranianas?
Azar Nafisi: Vocês devem se informar. Conhecer a literatura persa, escutar música iraniana, entender um pouco de história do Irã e não depender da opinião das pessoas que se consideram politizadas. Vocês podem dar voz às vozes de mulheres iranianas. Se você for ao site da Assistia Internacional , poderá ver uma parte voltada penas para os Direitos Humanos.

iG: O que as mulheres iranianas estão fazendo para resistir ao regime antidemocrático? Qual é a revolução delas?
Azar Nafisi: As mulheres no Irã vêm resistindo contra o regime desde a Revolução Islâmica [que aconteceu em 1979]. Um pouco depois da Revolução, elas protestaram nas ruas de Teerã com cartazes que diziam: “Liberdade não é coisa ocidental ou oriental. Liberdade é global” . Por exemplo, o aiatolá Khomeini [líder da Revolução Islâmica] chamou o direito feminino ao voto de prostituição, mas quando ele subiu ao poder, não conseguiu tirar esse direito delas. Agora, elas organizam campanhas contra o apedrejamento, campanhas de um milhão de assinaturas contra as leis repressivas do Irã. As mulheres iranianas não desistiram, nem desistirão.

Nafisi assina a autobiografia
Edu Cesar/Fotoarena
Nafisi assina a autobiografia "O que eu não contei"
iG: Quem são as jovens mulheres do Irã?
Azar Nafisi: As jovens mulheres do Irã são como você ou como outras no mundo. Elas têm esperanças, querem poder fazer escolhas, viver ou casar com o homem que amam – essas são as coisas que todas nós temos em comum. Então você, como brasileira, tem muitas coisas em comum com elas. Às vezes a gente tem mais afinidades com as pessoas estrangeiras do que com os nossos próprios representantes políticos.

iG: No livro “Lendo Lolita em Teerã” você comenta que as “mulheres têm poder”. Qual é o poder das mulheres?
Azar Nafisi: As mulheres iranianas não têm sucumbido ao uso da violência, elas resistem quando saem na rua do jeito que querem ou quando informam às mulheres mais tradicionais sobre as leis abusivas do Irã. Acredito que as iranianas estão mostrando seu poder ao tentar mudar as mentes das pessoas. Para mim, não é importante o regime mude, mas que as cabeças das pessoas mudem e se transformem.

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