A mulher que marcou o ano de 2011 para os franceses e provocou polêmica ao defender seu marido das acusações de abuso sexual

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Anne acompanha SK em todos os tribunais
Anne Sinclair é nova-iorquina, de origem francesa, vive em Paris, tem 63 anos. É jornalista, escritora, apresentadora de TV, bonita, bem-sucedida e profissionalmente respeitada, além de herdeira de uma fortuna que só em obras de arte está avaliada entre 100 e 200 milhões de dólares, segundo a revista Forbes .

Apesar de estar naquela lista de mulheres invejadas, de quem se costuma dizer que poderiam escolher qualquer homem do planeta como marido, Anne é a terceira esposa de Dominique Strauss-Kahn, político, ex-diretor do FMI, mulherengo assumido. Um homem que foi várias vezes capa de jornal por acusações de assédio e estupro e, mais recentemente, suspeita de envolvimento com uma rede de prostituição.

Desde 2008, quando DSK (abreviação que a mídia adotou do nome de Dominique Strauss-Kahn) foi pela primeira vez acusado publicamente de envolvimento com uma funcionária do FMI, a atitude de Anne, sempre defendendo o marido, vem provocando perplexidade mesmo entre os franceses, tradicionalmente conhecidos pela tolerância com que tratam as questões amorosas, incluindo fazer sistematicamente vista grossa aos casos extraconjugais de celebridades, políticos e de gente comum.

Na França, políticos que ‘têm um caso’ simplesmente não viram notícia e as questões de amor e sexo são tradicionalmente tratadas com mais liberdade do que em outras partes do mundo. Ted Sanger, autor do bem-humorado livro “Sacrés Français” (“Malditos franceses”, numa tradução livre da expressão popular francesa), sobre os costumes e hábitos dos gauleses, em uma entrevista para a Bloomberg , comentou: “Os franceses fazem uma distinção entre moralidade e sexo. Eles não consideram a expressão sexual fora do casamento como um ato de imoralidade”.

Não faltam comprovações para essa tese do jornalista e ex-diretor da Newsweek . Quando o ex-presidente da França, François Mitterrand morreu, em 1996, uma das primeiras providências de Danielle, a viúva, foi ligar para a amante do marido, Anne Pingeot, e convidá-la para se despedir do homem que ambas haviam amado.

Assim como Anne Sinclair, Danielle Mitterand era um mulherão: ativista e defensora de causas muitas vezes impossíveis, ela criou uma ONG, a France Libertés, para defender as minorias e provocou a Inglaterra quando se recusou a ajoelhar diante da rainha Elizabeth II durante a cerimônia de casamento do Príncipe Charles e de Lady Di.

Mesmo num contexto tão favorável, a atitude de Anne espanta.

De 1984 a 1997 seria difícil encontrar um francês que nunca tivesse ouvido falar de Anne Sinclair. À frente do programa semanal “ 7 sur 7 ”, do canal TF1, ela frequentava as residências de 12 milhões de pessoas todos os domingos, recebendo convidados ilustres, como Nicolas Sarkozy, Bill Clinton, Príncipe Charles, Woody Allen e Paul McCartney.

Foi em uma das gravações de “ 7 sur 7 ” que Anne conheceu Strauss-Kahn, em 1989. A química entre os dois foi imediata e o então jovem presidente da Assembleia Nacional Francesa, assim que se viu longe das câmeras, convidou-a para almoçar. Entre uma taça de vinho e outra, os dois – ambos casados à época – teriam descoberto afinidades e, segundo a New York Magazine , compartilhado lembranças de infância típicas das crianças judias. Um caso de amor à primeira vista! Dois anos depois, já com seus respectivos relacionamentos terminados, o casal se uniria oficialmente em uma cerimônia discreta. O segredo em torno da data e local foi tão bem administrado que nenhum fotógrafo da imprensa conseguiu registrar a festa.

MiGCompFotoLinks_C:undefined Para não atrapalhar a trajetória política do marido, Annie desistiu do programa de TV, alegando conflito de interesses. Vinte e um anos se passaram e a vida pessoal do casal, bem à moda dos franceses, que, além da tolerância amorosa, têm certa aversão pelo exibicionismo fácil das celebridades, jamais ocuparia nem mesmo um paragrafo de jornal se não fosse pelos escândalos sexuais envolvendo DSK. E não foram poucos.

Em 2007, a jornalista Tristane Banon alegou que fora estuprada quatro anos antes por Kahn. Na época ela não prestou queixas e somente voltou a falar sobre o caso em 2011, quando lançou o romance “ Le Bal des Hypocrite s” (“O Baile dos Hipócritas”), uma ficção autobiográfica na qual narra a história de uma jornalista assediada sexualmente por um homem mais velho descrito como “babuíno”. Com tiragem de 40 mil exemplares, a obra rendeu algumas entrevistas e manchetes de jornais para a autora. O processo, no entanto, não foi adiante por falta de evidências e, em vez de estupro, virou assédio.

"É importante saber seduzir quando se é um político. Contanto que eu o seduza e ele me seduza, isso é o suficiente para mim."

Longe de se declarar incomodada, Anne Sinclair justificou o aspecto sedutor do marido. “É importante saber seduzir quando se é um político. Contanto que eu o seduza e ele me seduza, isso é o suficiente para mim”, disse em entrevista a L’Éxpress , em junho de 2006.

 Em 2008, o então diretor do Fundo Monetário Internacional se envolveu com Piroska Nagy, sua funcionária na instituição. Uma investigação interna foi feita e chegou-se à conclusão de que a conduta de Strauss-Kahn, apesar de reprovável, não poderia ser classificada como “abuso de poder”. Piroska não colaborou com a investigação por não acreditar na lisura do processo e, em carta obtida pela Bloomberg , a húngara descreveu DSK como “uma pessoa que tem um problema que pode fazê-lo pouco capaz de liderar uma instituição na qual tenham mulheres sob seu comando”. DSK levou um puxão de orelhas do FMI, mas o caso também não foi adiante.

Pouco depois, Anne fez questão de mostrar, em entrevista à R euters , que o problema havia sido superado. “Nós já viramos a página e faço questão de dizer que nos amamos tanto quanto no primeiro dia”.

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Enquanto nos Estados Unidos, o caso com a estagiária Monica Lewinsky quase provoca o impeachment de Bill Clinton, em 2008. Na França, os escândalos sexuais envolvendo DSK pareciam não interferir na sua carreira e, até o início de 2011, o político do Partido Socialista, era apontado como o principal candidato à presidência da França.

A reviravolta aconteceu em maio de 2011, quando Nafissatou Diallo, camareira do hotel Sofitel em Nova York, alegou ter sido violentada por DSK. Dominique foi detido e respondeu ao processo em prisão domiciliar. Todos os custos da defesa foram bancados por Anne, incluindo a fiança de US$ 1 milhão (R$ 1.800 milhões) e uma caução estimada em U$ 5 milhões para garantir a vigilância permanente, já que o político estaria aguardando o processo em casa.

"Não acredito nem por um segundo nas acusações levantadas contra meu marido. Não tenho dúvidas de que sua inocência será provada."

Mais uma vez Anne foi a público defender o companheiro. “Não acredito nem por um segundo nas acusações levantadas contra meu marido. Não tenho dúvidas de que sua inocência será provada”, disse, em nota oficial divulgada pouco depois da detenção do parceiro. Assim como nos casos anteriores, ela admitiu que a traição pudesse ter ocorrido, mas se colocou fortemente contra a possibilidade de ter havido o uso de qualquer tipo de violência.

Em pesquisa, 54% dos franceses apoiaram postura de Anne, sempre em defesa do marido
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Em pesquisa, 54% dos franceses apoiaram postura de Anne, sempre em defesa do marido

Em agosto o julgamento foi encerrado. Declarações pouco consistentes e um passado de problemas com a justiça levaram o tribunal a desconfiar da suposta vítima.

Na França, a lealdade persistente de Anne foi aplaudida. Uma pesquisa divulgada em setembro de 2011 pela revista Elle revelou que 54% dos franceses apoiavam a decisão de Anne. Outro levantamento, feito em dezembro, pela revista Terrafernina , deu à jornalista o título de “Mulher do Ano”.

"Ninguém sabe o que se passa na intimidade de um casal e não dou a ninguém o direito de julgar meu casamento. Sou uma pessoa livre."

Anne se manteve inabalável. Em janeiro de 2012, em sua primeira e única entrevista depois do julgamento de DSK, para a revista Elle , respondendo à uma pergunta se seria possível ser feminista e dar apoio incondicional a seu marido, ela respondeu: “Não existe apoio incondicional. Você apoia porque decide apoiar. Ninguém sabe o que se passa na intimidade de um casal e não dou a ninguém o direito de julgar meu casamento. Sou uma pessoa livre para pensar, agir e decidir minha vida de maneira totalmente independente”.

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Para as outras mulheres, sobretudo as feministas, que andavam criticando suas atitudes, ela mandou um recado malcriado: “Se existem mulheres que se decepcionaram comigo, preciso dizer a elas que sinto muitíssimo, mas isso não é problema meu! Não tenho que compreendê-las, elas exprimem suas posições e sentimentos, e eu ouço. Mas a ideia de que alguém possa julgar a atitude de um outro na sua vida privada é completamente estranha para mim. Eu reivindico minhas escolhas. É insuportável que as pessoas se apropriem dessa forma da minha vida”.

Apesar da defesa firme de Anne, a acusação de estupro acabou sendo a gota d’água para o eleitorado francês. Strauss-Kahn caiu nas pesquisas e foi preterido por François Hollande como candidato à presidência pelo Partido Socialista. A eleição ocorrerá em abril deste ano.

Recém-saído do escândalo america, em fevereiro deste ano, DSK voltou a se envolver em um outro  episódio, desta vez relacionado a uma extensa rede de prostituição que atuava em hotéis de luxo, em Lille, cidade do norte da França. Três meses antes, o político declarara em entrevista ao jornal Le Monde sentir “horror à prostituição”.

Embora alguns rumores deem conta de que Anne estaria perdendo a paciência com as polêmicas do marido, não existem indícios concretos de que o casamento esteja sequer abalado.

MiGCompFotoLinks_C:undefined Fato é que Anne Sinclair está retomando sua  carreira. Desde o abandono de “ 7 sur 7 ”, em 1997, ela teve alguns programas de rádio, manteve um blog e escreveu dois livros, mas é em 2012 que estão seus maiores projetos.

Em janeiro, ela assumiu o cargo de editora-chefe da versão francesa do The Huffington Post , influente site de notícias que existe desde 2005 nos Estados Unidos. Também está em plena campanha de lançamento do livro “ 21 Rue La Boétie ”, onde narra a história de seu avô, Paul Rosenberg, um comerciante de artes que representava Georges Braque, Henri Matisse e era amigo íntimo de Pablo Picasso, que fez, inclusive alguns retratos da mãe de Anne, Micheline.

Na entrevista sobre o livro para o programa Grande Librairie , da TV France 5, no Dia da Mulher, Anne se esquivou 'com elegância' de todas as perguntas sobre sua vida pessoal. Mas em um depoimento para a versão feminina do jornal Le Parisien , ela se permitiu algumas críticas à forma como a imprensa vem tratando o caso.

"A inquisição e o voyerismo passaram dos limites", ela disse, respondendo a pergunta sobre o trabalho da mídia, embora admitisse que a gravidade, sobretudo politica, do caso DSK.

"Essas autoproclamadas feministas se transformaram em uma máquina de interpelação para determinar o que cada um faz com sua própria vida."

Também falou de um 'retrocesso moralizante': "As pessoas têm medo do futuro. Daí essa tendência moralizante. As próprias palavras se afastam do seu sentido original. Veja 'feminismo', por exemplo, feminismo é a luta pela liberdade das mulheres. Mas essas autoproclamadas feministas se transformaram em uma máquina de interpelação para determinar o que cada um faz com sua própria vida".

Para o legislador francês Jack Lang, amigo antigo de Anne e de Strauss-Kahn, não há com o que se preocupar. “É impossível imaginar um sem o outro”, declarou em entrevista à Associated Press . Segundo ele, Anne e Strauss-Kahn têm uma “relação simbiótica” e são simplesmente inseparáveis.

Dividindo a opinião feminina, criticada e elogiada, Anne Sinclair foi a mulher de maior destaque em 2011 na França. E ela não abre mão da lealdade: “Não sou nem santa nem vítima. Sou uma mulher livre”, disse na entrevista para a Elle . E para aqueles que insistem que ela deveria se separar, faz questão de dar um recado: “Deixe seu marido, se quiser. O problema é seu”.

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