Calor fez com que PE e Rio tornassem o uso opcional. Mas, fora dos bastidores, advogados ainda preferem a formalidade ao conforto

O terno incomoda, mas não usá-lo às vezes incomoda mais
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O terno incomoda, mas não usá-lo às vezes incomoda mais
"Passei 28 anos de minha vida sendo obrigado, como inspetor do Banco Central, a me 'fantasiar' de executivo. Quando finalmente me aposentei, fiz questão de me livrar definitivamente do suplício de usar terno e gravata. Peguei uma tesoura e picotei todas as gravatas. Os ternos eu doei. Recentemente tive que comprar um novo conjunto por que todos do meu guarda-roupa haviam sido extintos", conta o músico Xico Bizerra, ex-funcionário público.

Os ternos são soberanos no ambiente corporativo mas, como indica a declaração de Xico Bezerra, estão longe de ser uma preferência unânime. Até problemas de saúde eles podem causar . Às vezes, a questão nem é de gosto: as altas temperaturas do verão impulsionaram a decisão da OAB nas seções do Rio de Janeiro e em Pernambuco a liberar advogados do uso de terno e gravata no exercício profissional.

Na prática, muita gente já dava um jeito de tentar driblar o uso, seja deixando o paletó atracado nas costas de uma cadeira no escritório ou abolindo a gravata pelo menos no corre-corre cotidiano. Depois da liberação, o drible passou a ser oficial. Mas só no trabalho “de bastidores”: em situações de maior exposição, como audiências, os advogados continuam preferindo ter a imagem formal e do ar de autoridade conferidos por uma gravata.

"Para estar condigno com a profissão não é necessário usar o terno completo, ainda mais nesse nosso clima. No entanto, em certos momentos solenes, como sessões de tribunal, o terno não deve ser abolido", argumenta Pedro Henrique Alves, do escritório Limongi Sial & Reynaldo Alves, que segundo ele já é flexível quanto ao uso do paletó para os associados no ambiente interno. "Grandes executivos de empresas vigorosas como Atlântico Sul, em Suape, ou do grupo JCPM, já não vivem de terno no cotidiano, a OAB acompanha o movimento, fazendo com que seja facultativo, mas tenho certeza de que a cultura do terno não vai desaparecer da noite pro dia", completa o advogado.

A decisão da OAB carioca e pernambucana aponta uma sutil tendência de que talvez o absolutismo do terno esteja sendo democratizado com um conceito mais contemporâneo, realista e sustentável de elegância.

Liberado, mas não muito
"Depois de quase 20 anos de profissão, não me vejo trabalhando sem paletó. É inimaginável um advogado sem terno tal qual o médico sem jaleco. O traje comunica a respeitabilidade do profissional”, acredita o tradicionalista advogado João Severino Vieira. “Ao chegar numa audiência ou numa delegacia, somos logo identificados, o que facilita nosso trabalho. E dá sim pra sobreviver ao calor, quase todos os lugares frequentados pelo profissional têm climatização”.

Mesmo Alves refuta a possibilidade de que seja aceito o uso de peças mais informais como tênis, jeans ou camisa pólo no universo da advocacia.

Silvio Meira, cientista-chefe do C.e.s.a.r. (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), se veste à vontade e defende que a seriedade do trabalho não é determinada pelo visual: "A liberdade é fundamental para a criatividade, o que acaba resvalando na produtividade. O mais importante é que a pessoa esteja feliz e confortável em seu ambiente de trabalho". 

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