Em livro recém-lançado, autora americana combate o modelo de esposa infalível

Ela acorda cedo para fazer ioga, serve café da manhã para as crianças e as leva para a escola – tudo isso, antes de ir para o trabalho. Cuida das compras, põe a comida na mesa (às vezes no prato) e oferece seu ombro amigo ao menor sinal de tristeza. Sem o senso de organização dela, as férias da família seriam impossíveis, as finanças da casa teriam um rombo e a geladeira ficaria vazia. A mulher que cumpre pelo menos uma parte dessa rotina com eficiência e iniciativa pode estar sofrendo da “síndrome da superesposa”.

Essa é a tese de Carin Rubenstein, jornalista e PhD em Psicologia pela Universidade de Nova Iorque. No livro “Livre-se da Síndrome da Superesposa – Transforme seu casamento em parceria e seja mais feliz” (editora Gente), recém-lançado no Brasil, ela apresenta o resultado de uma pesquisa em que, durante dois anos, entrevistou centenas de casais americanos.

De acordo com a autora, é fácil identificar uma superesposa: ela faz várias coisas ao mesmo tempo, sacrifica projetos pessoais em função da família e faz questão de mostrar eficiência em todas atividades que exerce. A divisão de responsabilidades desigual, que ocorre independentemente da contribuição financeira da parceira na família, se explica pela diferença de como homens e mulheres vêem sua colaboração. 75% das esposas entrevistadas acreditam estar no controle familiar, enquanto 55% dos homens afirmam que sejam eles os responsáveis, de acordo com Rubenstein.

Luciana d'Agosto toca a Doces da Lu e administra a casa e a família ao mesmo tempo
Bruno Zanardo/ Fotoarena
Luciana d'Agosto toca a Doces da Lu e administra a casa e a família ao mesmo tempo

Embora a realidade brasileira seja um pouco diferente – dispor de empregada doméstica nos Estados Unidos é um luxo fora do alcance da classe média, por exemplo – no geral, o quadro também se aplica aqui. Um exemplo é a rotina da paulistana Luciana d’Agosto. Há 13 anos, engravidou do primeiro filho e decidiu abandonar a carga de trabalho pesada da corretora de seguros em que trabalhava. Em busca de uma jornada mais flexível, foi dar aulas de inglês. Com a possibilidade de fazer carreira, o dia a dia voltou a ficar extenuante, até que Luciana engravidou novamente. “Quando minha segunda filha nasceu, pedi demissão. Resolvi ficar em casa e transformei minha paixão em profissão”. Luciana virou doceira.

A empreitada deu certo. A Doces da Lu está crescendo. Porém, para a pequena empresária, o negócio deve progredir sem que isso afete suas tarefas no lar. Sem sogra ou mãe por perto para ajudar, Luciana se desdobra para dar conta de tudo, inclusive do parceiro. “A mãe do meu marido mimava ele demais. Arrumava a cama, colocava a comida no prato. Ele sente falta”, conta. A rotina de cuidar da casa, filhos, marido, contas e empresa é recompensada pelo reconhecimento do companheiro, que a elogia muito. “Sem dúvida ela dá conta mais do que a média das mulheres. Quando converso com os outros percebo isso”, diz Roberto, marido de Luciana, 40 anos. Ele afirma que quando vê a esposa repleta de encomendas de doces, tenta ajudar, sobretudo dando atenção à filha pequena.

Descentralizar para viver melhor
A habilidade de dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo está por trás da sobrecarga, defende Rubenstein no livro. “A mulher, tendo essa capacidade, vai absorvendo responsabilidades e o outro lado se acomoda”, diz a psicóloga Cecília Troiano, autora do livro “Vida de Equilibrista” (editora Cultrix). “O multitasking (capacidade de executar mais de uma tarefa ao mesmo tempo) é uma fonte grande de poder”, acrescenta. Para piorar, as mulheres tendem a ser impacientes e exigentes com a disponibilidade de colaboração do parceiro.

Segundo a autora da pesquisa sobre as superesposas, até mesmo as esposas Alfa, que sustentam financeiramente a família, se responsabilizam por sete entre dez das tarefas domésticas. “Para viver melhor, ela precisa mudar por dentro antes, porque a tendência de querer manter o lar funcionando perfeitamente sozinha é um patrulhamento interior”, diz Cecília.

Acordo em família
Negociação é palavra-chave para se livrar da síndrome e ser mais feliz. “As superesposas se mostram menos felizes com a vida conjugal que as outras, e apresentam probabilidade mais elevada de achar que o casamento foi uma escolha errada”, diz Rubinstein no livro. Alice, secretária de 34 anos que prefere não dar o sobrenome, acaba de sair de um casamento em tinha o papel de superesposa. “Eu vivia em uma solidão a dois desesperadora. Tinha que ter um plano B para tudo que eu pedia a ele. Tanto que, ao me separar, ele não fez falta na vida prática. Não ter que refazer tarefas e cuidar de mais alguém pesa muito menos”, afirma.

“Essa é uma das queixas principais no consultório: as mulheres se sentem solitárias no cuidado com a família e falta de divisão de tarefas”, garante Cida Lessa, psicóloga e psicanalista. Ela afirma que a mulher precisa abrir espaço para o companheiro contribuir, mesmo que ele não vale a louça imediatamente após o jantar ou que se mostre desajeitado ao cuidar das crianças.

Não se prender ao modelo de multimulher perfeita e infalível também é fundamental. “Às vezes ela tem que abrir mão de alguma coisa. Ela precisa respeitar seu limite”, afirma Cida. “Se ela tem mil responsabilidades e obrigações, precisa se livrar de algumas coisas, guardar um tempo para si, para namorar.”

A dona de casa e ex-secretária Maria Rosely Casella Donato, 58 anos, se arrepende de não ter tomado essa atitude a tempo. Deixou o emprego ao se casar para administrar a casa e criar os três filhos. “Eu era teimosa e não aceitava ter alguém para me ajudar. Paguei a teimosia com um problema de coluna, por sobrecarga”, conta. “Se pudesse, faria diferente. O trabalho de casa é todos os dias igual, e você vai deixando outras coisas que são importantes para trás. O tempo não volta.” Cecília Troiano concorda. “Cada casal precisa buscar seu acordo e revê-lo de tempos em tempos. A mulher precisa se permitir algum prazer, porque no mundo multitasking, a gente só olha para o outro.” Em outras palavras, se você é uma superesposa e a carga está pesada demais, a primeira pessoa a dar um passo para se libertar é você mesma.

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