Medo do antigo estereótipo de uma profissão que era quase extensão dos afazeres domésticos contribui para afastar novas candidatas

A profissão de professora passou de única escolha possível para uma entre muitas
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A profissão de professora passou de única escolha possível para uma entre muitas
Professora aposentada, Maria do Carmo, 68, escolheu sua profissão porque isso lhe parecia natural, quase inevitável. De suas seis irmãs, cinco acabariam seguindo o mesmo caminho: “Nunca pensei que pudesse fazer outra coisa”. Com Camila, 21, foi diferente – tinha outras alternativas, chegou a cogitá-las. Adolescente, imaginou-se psicóloga, por exemplo. Mas terminou fazendo faculdade de pedagogia. Dar aulas era preferência que vinha dos tempos de criança.

Quatro décadas separam o ingresso das duas no mercado de trabalho. Décadas em que o país conheceu significativas mudanças sociais, políticas e econômicas. Dentre as transformações, muitas se referem ao papel da mulher. E isso está refletido na maneira como Maria do Carmo Justo Teixeira de Carvalho, de São Roque (SP), e Camila Gasparetto Barazetti, da capital, se iniciaram como docentes dos primeiros anos do ensino fundamental.

Era bem outro o Brasil do final da década de 1950, quando a primeira ingressou no curso normal (equivalente ao ensino médio), que a habilitou a dar aulas para estudantes do antigo primário. “Naquele tempo, a maioria das moças não trabalhavam fora, elas iam se casar. Não existiam muitos empregos para mulheres, o mais fácil mesmo era ser professora”, recorda. Maria do Carmo sequer sabia se tinha verdadeiramente vocação. Conta que acabou gostando muito: trabalhou na rede pública, sobretudo com quarto e quinto ano, e se aposentou em 1988.

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Camila formou-se pedagoga em 2010 e, desde o vestibular, queria a educação infantil. Atualmente, dá aulas para o primeiro ano do ensino fundamental no Colégio Dante Alighieri, de São Paulo. Se aventou outras possibilidades de carreira, é porque o campo de trabalho se abriu para mulher e porque o status da profissional responsável pela alfabetização é outro. Mas ela sabe que representa exceção: “Acho que, dos cerca de 100 formandos no ensino médio do colégio em que estudei, fui a única que escolheu fazer faculdade de pedagogia”.

Normalistas e samba
Maria do Carmo e Camila não simbolizam apenas períodos distintos do exercício da atividade de professora. As diferenças de trajetória entre as duas trazem à tona, em alguma medida, o próprio lugar que a mulher passou a ocupar na sociedade. Antigamente, o ensino de criança era uma atividade complementar à formação materna. Era aceitável para as mulheres.

“Por quê? Porque podia ser feita em meio período, então a moça podia lecionar na parte da manhã e ter a tarde para cuidar da casa etc.”, observa Dermeval Saviani, coordenador geral do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil”, vinculado à Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Isso começa no Império e vai ter uma regularidade maior após a década de 1930, chegando até a de 1960”.

Mas a figura da “professorinha”, conforme se dizia antigamente, deixou de existir? Saviani crê que num processo de extinção, iniciado ainda nos anos 1970. “A ‘professorinha’ sobrevive no ensino pré-escolar, mas também tende a se extinguir, inclusive em áreas rurais, na medida em que a educação infantil passa a exigir formação específica.” Assim, se essas professoras são profissionais, elas tendem naturalmente a desejar ser reconhecidas como tais, e não como pessoas que fazem da carreira uma extensão da vida doméstica.

Situação bastante diversa da que viviam as normalistas do passado. Normalistas eram as jovens que faziam o curso normal, ministrado durante o antigo 2º grau, com o objetivo de se tornarem professoras das primeiras séries. Saviani cita uma referência pejorativa: a escola normal, em dado momento, era conhecida como “curso espera marido”. “Ao ser formada para instruir crianças, a mulher também estava aprendendo a lidar com seus filhos. Além disso, por ser meio período, ela também podia continuar o aprendizado de prendas domésticas em casa. Essa visão vinha desde o início da republica.”

Não por acaso, foi lançado, em 1949, por obra de Benedito Lacerda e David Nasser, o samba “Normalista”, famoso na voz de Nelson Gonçalves. Havia os seguintes versos: “Vestida de azul e branco/ Trazendo um sorriso franco/ Num rostinho encantador/ Minha linda normalista/ Rapidamente conquista/ Meu coração sem amor/ (...) Mas a normalista linda/ Não pode casar ainda/ Só depois que se formar/ Eu estou apaixonado/ O pai da moça é zangado/ E o remédio é esperar”.

Finda a espera, pensava-se, lá estaria uma futura esposa devidamente pronta a exercer todas as funções que lhe fossem atribuídas.

Exceção
Hoje em dia, a lei prevê que as professoras dos primeiros anos do ensino fundamental tenham curso superior (pedagogia ou Normal Superior). Maria Stela Santos Graciani, coordenadora do curso de pedagogia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), aponta que quem escolhe essa graduação enfrenta questionamentos. “Os pais perguntam: ‘você vai querer ser professora, uma profissional desvalorizada, que não tem prestígio social?’. Logicamente, eles preferem filhas médicas, engenheiras, representantes das multimídias, advogadas...”

A lista de profissões segue longe. A coordenadora diz que, dentre suas alunas (há raríssimos graduandos do sexo masculino), só a minoria escolhe exercer o magistério no ensino fundamental. A maior parte elege atuar em outras áreas paras quais o curso de pedagogia habilita. Entram em empresas, no terceiro setor, prestam consultorias.

“Antes, essa era a única opção do mercado de trabalho para a mulher. Um lugar onde a mulher poderia estar protegida, uma extensão do lar. Muito dessa tradição permanece: é seguro, só tem criança. Mas também é um espaço conflituoso para mulheres de gerações mais recentes. Elas descobrem que o amor a profissão é pouco”, afirma Maria do Rosário Longo Mortatti, professora do curso de pedagogia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e autora e organizadora de diversos livros sobre o tema, como “Formação de professores” e “Atuação de professores”.

Censo
O último censo da educação superior no Brasil, de 2009, revela a maioria (55%) dos professores do ensino infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental são formados em cursos de educação a distância. De acordo com Maria do Rosário, isso pode ter relação com a atual necessidade de essas professoras terem um diploma de nível superior.

Antes, para essa faixa do ensino, era suficiente o curso de magistério feito no ensino médio. De maneira que, atualmente, as que pretendem atender a exigência buscam se habilitar. Os cursos de Normal Superior e pedagogia a distância constituem, para muitas delas, a opção mais imediata, ainda que questionado por especialistas que atentam à importância da troca de experiência, presencial, entre as futuras professoras.

Seja como for, nos cursos presenciais de parte das faculdades e universidades, as estudantes dispostas a tomar parte no ensino de crianças adotam postura diferente da que tinham as professoras de décadas atrás. Um tempo em que, como no caso de Maria do Carmo, o magistério era também um sintoma das restrições ao ingresso da mulher no mercado de trabalho. Hoje, a despeito das questões que envolvem políticas de educação e valorização do profissional, a vocação tem um papel anterior, como acontece com Camila.

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