Distante dos estereótipos, a mulher real luta contra a balança e sonha com mais liberdade

O que Grazi Massafera, Angélica e Paola Oliveira têm em comum? Não, elas não são cariocas. A primeira é paranaense, e as outras duas são paulistas. Mas sim, suas personagens, a desinibida do Grajaú, a traída da Barra e a Atormentada da Tijuca, respectivamente, são exemplos de representações sociais muito fortes sobre o que é a mulher carioca, segundo a antropóloga Mirian Goldenberg*. Apesar de as cariocas reais nem sempre se encaixarem no padrão estético das mulheres do seriado que a TV Globo está exibindo todas as terças-feiras.

Angélica e Paola Oliveira na série As Cariocas, da Globo
TV Globo/Divulgação
Angélica e Paola Oliveira na série As Cariocas, da Globo
O Rio de Janeiro é, por exemplo, a capital com o maior número de pessoas obesas do Brasil. O levantamento mais recente feito pelo Ministério da Saúde, em 2009, apontou que 17,7% dos cariocas são obesos e 50,4% da população do Rio está acima do peso (IMC maior ou igual a 25). Na comparação com outras capitais, a cidade fica atrás apenas de Rio Branco (52,2%) e praticamente empatada com Campo Grande (50,8%) e São Paulo (50,5%). Assim, a rata de praia, a rainha de bateria, a menina sarada e a moça linda que passa desfilando a caminho do mar até existem, mas não representam o coletivo.

A pedagoga Deborah Barros, de 24 anos, moradora da zona norte do Rio, conhece bem essa realidade. Gordinha desde a adolescência, ela vive na luta contra o ponteiro da balança que insiste em subir. “Amo praia e não posso mentir: queria muito ter um corpo perfeito e ser bem resolvida nesse sentido”. Para isso, Deborah lança mão de dietas radicais e inibidores de apetite. “Mas depois de um tempo acabo me rendendo aos prazeres da mesa e engordando novamente”, conta.

Deborah Barros:
Arquivo pessoal
Deborah Barros: "Queria muito ter um corpo perfeito"
Deborah sabe que conquistar a imagem da tal “garota carioca” não é fácil, mas volta a insistir após as recaídas. Mirian Goldenberg explica: “Para muitas cariocas, o corpo é seu principal capital. E assim ele acaba se tornando mais importante que a própria pessoa”. No entanto, a antropóloga acredita que a idade e o ambiente onde cada mulher vive podem modificar esse pensamento. “As mais maduras sabem que a vida é curta e não querem – e na maior parte das vezes nem podem – desperdiçar seu tempo apenas com exercícios”, diz ela ao comentar a glamourização que a televisão promove.

A carioca Claudia Lacombe troca a praia por um final de semana em casa com a família
George Magaraia
A carioca Claudia Lacombe troca a praia por um final de semana em casa com a família
Esta é a realidade de Claudia Lacombe, de 45 anos. Formada em História e com mestrado em Informática, Claudia é Presidente da Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos do Conselho Nacional de Arquivos e apesar de ser nascida e viver no Rio de Janeiro raramente consegue se enxergar no perfil da típica carioca mostrado pela TV. “Como a área em que eu atuo é nova, viajo muito para dar cursos e palestras, então não tenho tempo de ir à academia. Além disso, minha prioridade nunca foi ter um corpo malhado. Prefiro aproveitar meu tempo livre com meu marido e minhas filhas”, garante. Moradora do Leblon, zona sul da cidade, assume: “Moro pertinho da praia, mas no máximo caminho no calçadão de vez em quando. Nos fins de semana, gosto mesmo é de ir para a cozinha preparar pratos gostosos pra família”.

Na década de 60, Leila Diniz, nascida em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, quebrou tabus em uma época de repressão. Lembrada até hoje por expor sua gravidez na praia e defender o amor livre e o prazer sexual das mulheres, a atriz morreu aos 27 anos, vítima de um acidente aéreo. Agora, décadas mais tarde, Mirian Goldenberg reflete: “Acho que Leila seria revolucionária até hoje”. Esta percepção se manteve ainda mais sólida após comandar, em 2008, uma pesquisa entre mulheres de classe média do Rio. Sobre o que elas mais invejavam em um homem, a resposta da maioria foi taxativa: “a liberdade”.

Filha de um diácono, Thaís Macedo lamenta:
George Magaraia
Filha de um diácono, Thaís Macedo lamenta: "A religião está fora de moda"
Filha de um diácono – membro da igreja católica que exerce algumas funções de padre, mas pode ser casado e ter filhos, a fonoaudióloga Thaís Macedo sente que existe até certo preconceito com o que é ‘politicamente correto’. “É que a religião está fora de moda”, diz. E completa: “Apesar disso, sempre tive muito orgulho da vocação do meu pai, que também é médico”. E Thaís não está sozinha. Mesmo que muitas não sejam praticantes, no último Censo (2000) 61% das mulheres do município do Rio de Janeiro se declararam católicas. Thaís só lamenta o fato de sua criação ter sido um pouco conservadora. “Vivi todas as transformações típicas da adolescência e não tinha com quem conversar sobre isso. Sexo foi e ainda é um tabu na minha casa”, confessa.

No livro “Coroas”, da editora Record, que faz um retrato “de corpo inteiro” da mulher brasileira e de seu envelhecimento, Mirian Goldenberg defende a liberdade de escolha da mulher, em todos os domínios de sua vida. Para a antropóloga, elas deveriam “imaginar o próprio futuro, ter orgulho da própria vida, demonstrar sua aceitação para com sua idade, seu corpo, sua pessoa e sua história. (...) É no mínimo estranho pensar que, após décadas de lutas femininas pela liberação da opressão e pelo pleno exercício da sexualidade (...), muitas mulheres aceitaram submeter-se a um novo tipo de prisão”.

* Mirian Goldenberg , antropóloga, é Doutora pelo programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional e Professora do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É também autora dos livros O corpo como capital; Toda mulher é meio Leila Diniz; A outra; Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade; De Perto Ninguém é Normal, entre outros.

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