Se você é do tipo que quer dar conta de tudo, cuidado: a síndrome da mulher perfeita pode deixar você em maus lençóis

Mania de agir como se tivesse superpoderes sai
cara para as mulheres: filhos, marido, casa e
trabalho viram
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Mania de agir como se tivesse superpoderes sai cara para as mulheres: filhos, marido, casa e trabalho viram "metas de sucesso"
O livro “The Superior Wife Syndrome” (“Síndrome da esposa excelente”, ainda sem tradução para o português), da psicóloga americana Carin Rubenstein, discute bem sobre aquele tipo de mulher que quer abraçar o mundo. Chega correndo do trabalho, vê as lições de casa dos filhos, dá uma geral na casa e voa para a cozinha para preparar o jantar. Reconheceu a cena?

A autora entrevistou 1.500 homens e mulheres para descobrir os segredos desse posicionamento “mulher maravilha” que muitas assumem, tentando dar conta de tudo, enquanto o marido relaxa no sofá. De acordo com a psicóloga, muitas mulheres acham que se largarem a corda um pouquinho, a família toda desmoronará sob sua cabeça (e por sua máxima culpa!). Há ainda aquelas que acham que parte do amor do marido por elas está no fato de que, com elas por perto, ele nunca precisará se preocupar com nada.

Essa mania de agir como se tivesse superpoderes acaba saindo um tanto cara para as mulheres, que vivem exaustas, de mau humor e sem energia para nada (principalmente para o sexo, que é o primeiro que dança nessa história). Além de tudo, isso reforça a ideia dos homens de que o serviço de casa é uma espécie de milagre, que acontece por mágica. Eles não imaginam o trabalho que existe por trás de uma casa relativamente “em ordem”.

Era exatamente assim que Leyla Grandberg, produtora cultural de 35 anos, se sentia ao encerrar o casamento de 17 anos. Casada com um músico, ela vivia infeliz e se sentia sempre sozinha, exigida, desvalorizada e esgotada. “Achava que a raiz do problema era ele, que nunca estava em casa, que trabalhava o tempo todo e não me ajudava. Fui me cansando, me decepcionando até o dia em que percebi que o casamento tinha acabado”, conta.

Mãe de três meninas, Leyla percebeu, com o passar do tempo e com a ajuda de muita terapia, que o problema não era só a omissão do ex-marido, mas a compulsão que ela mesma tinha em cuidar de tudo. “Não me arrependo de ter me separado, não estava feliz e as coisas tinham ido longe demais. Mas se tivesse percebido antes que muito da culpa pelas coisas estarem tão caóticas era minha, que me esforçava demais e permitia que meu marido fosse acomodado, talvez tivesse lidado com o problema de outra maneira”.

Tendência em se doar

A escritora Carin Rubenstein fala que foi interessante perceber que essa dinâmica não acontece no começo dos casamentos: ela vai se estabelecendo aos poucos. A mulher acha que deve ser perfeita em tudo, principalmente quando vira mãe. E isso só aumenta o trabalho e o número de pessoas que ela tem que atender e satisfazer. Nesse momento, a mulher perde a feminilidade, a sensualidade e a delicadeza. Deixa de ser uma mulher para ser uma professora, cozinheira, arrumadeira e mãe (inclusive do marido!).

Jurandyr Jantalia, psicanalista e especialista em medicina comportamental pela UNIFESP, diz que essa sina é comum, já que é da natureza feminina proteger, nutrir e cuidar. “A mulher tem uma tendência enorme em se doar. Se preocupa com aqueles que ama e os coloca sempre em primeiro lugar. Ela mesma, suas necessidades e importâncias, ficam pra trás”, comenta.

De acordo com ele, a mulher não tem recursos, assume com as próprias mãos a satisfação da família. Se ela tem condições, mesmo que contrate um exército de ajudantes, vai ficar constantemente preocupada com o nível de contentamento e, movida por culpa, ainda vai cobrar a absoluta perfeição de quem trabalha para ela.


Formigas cansadas

Jacqueline Dantas, ilustradora carioca de 45 anos, conta que já padeceu desse mal: “ficava me cobrando uma casa linda, dessas de revista, um cardápio incrível, roupas impecáveis, crianças arrumadas... Parecia uma formiga. Uma formiga cansada”.

Ela foi se achando cada vez mais incompetente, porque não dava conta de tudo (ela dá aulas durante o dia e faz ilustrações e roteiros durante a noite). Um belo dia, o marido disse: “um dia a gente vai morrer e vai ficar tudo aí: a casa, a louça, tudo”. Foi quando ela refletiu se valia a pena perder o tempo de brincar com as crianças, namorar, ler e ouvir música arrumando algo que nunca ficará arrumado. “Desde então, tenho me exercitado para fazer bem feito o essencial”.

Reverter essa situação não é fácil, afinal de contas, não é só a mulher que está acostumada a carregar tudo nas costas. O marido e os filhos estão para lá de acomodados na confortabilíssima condição de reis do pedaço. Todo mundo vai estranhar a nova disposição dos papéis (principalmente a mulher), mas, para conseguir um equilíbrio, é preciso fazer um esforço. Segundo a pesquisadora Claudia Marinho, da PUC-Rio, as mulheres trazem uma programação interna, feita pelas mães e avós, e são vítimas de arquétipos femininos ultrapassados.

“Como diz a música, é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter sonho sempre. A mulher tem que lembrar de si mesma, se fortalecer antes de querer fortalecer o outro. Uma mãe feliz tem um filho feliz. Uma esposa feliz tem um marido feliz e assim por diante”, diz Claúdia. Portanto, vá devagar, dividindo as tarefas e aprendendo a relaxar. A vida ficará mais leve – e melhor.

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