Você é muito mais influenciado pelo que está a sua volta do que gostaria de acreditar

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O ambiente em que estamos influencia quem somos: no 'happy hour' temos reações diferentes daquelas que teríamos em um almoço com os avós
Hoje, aceita-se que exercícios de introspecção são a chave para alcançar o auto-conhecimento. Basta o indivíduo debruçar-se sobre si mesmo e sobre sua história familiar para compreender a imensa maioria das razões que o levam a agir e sua forma de estar no mundo.

De repente, chega um professor norte-americano que nos lembra que existe uma dimensão social por trás de cada ação humana e que as situações importam. E muito.

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No livro “ Situations Matte r” (“Situações fazem diferença”, numa tradução livre porque o livro ainda não foi publicado em português), Sam Sommers apresenta a ideia de que para entender verdadeiramente a natureza humana precisamos apreciar a força do contexto e tudo o que ele pode nos revelar sobre nós mesmos.

E quase entra em rota de colisão contra a introspecção.

Em um longo bate-papo por telefone, Sommers defende essa ‘importância do contexto’:

“A introspecção e o olhar interno seriam as maneiras mais fáceis de alguém conhecer-se a si mesmo. Meu argumento é que a introspecção tem diversas limitações quando se trata de obter uma leitura acurada e relevante sobre porquê fazemos o que fazemos ou nos sentimos como sentimos. Ela pode ser útil, mas é um erro pensar que é a única maneira de obter informações sobre você mesmo. Nós aprendemos quem somos quando nos comparamos às outras pessoas”.

Entre os tantos casos e exemplos que o doutor em psicologia social e professor-associado da Tufts University, apresenta no livro, talvez o que melhor resuma esse ponto de vista seja um relato sobre o avô de sua mulher que, diante da pergunta “Como você está está?”, sempre costumava responder “Comparado a quê?”. 

Para Sam Sommers, a confiança de que se pode prever o comportamento alheio com base em poucas evidências é falsa
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Para Sam Sommers, a confiança de que se pode prever o comportamento alheio com base em poucas evidências é falsa

Leia aqui por que a familiaridade é um ingrediente essencial para a atração

Aprenda a exercitar a atenção para não perder detalhes do contexto

Hoje, quando muitas vezes a convivência virtual substitui o contato pessoal, é preciso exercitar a atenção para conseguir entender o contexto do mundo real. “Para prevenir o amortecimento da atenção, evite o fênomeno de massa chamado e-mail, evite o contato cibernético, saiba os nomes das pessoas com quem convive”.

Por outro lado, esse universo paralelo e glamourizado das redes sociais reproduz o mundo do lado de cá. “Nossa realidade social é subjetiva. A realidade está nos olhos do espectador. Então, quando alguém está passando o tempo no que chamamos de realidade virtual, aquilo é muito real para ele naquele momento, dentro daquele contexto”. 

WYSIWYG: você só vê aquilo que você conseguir enxergar ou como ampliar o olhar para ser um melhor observador do contexto .

What you see is what you get . Ou WYSIWYG . Pronuncie ‘wizzywig’. Ou seja, o que você vê é o que você obtém. O termo, usado por programadores de computador se refere a um programa que permite visualizar o resultado final do trabalho ainda durante o processo de criação. Na vida social, exemplifica o que acontece quando presumimos o comportamento geral de outra pessoa observando suas características gerais e o contexto no qual ela está inserida.

‘Wizzywig’ é o ‘mantra’ de Sommers. Se aquilo que você vê é só aquilo que você consegue enxergar, então quanto mais estreita e limitada for sua visão, mais imprecisas e passíveis de erros serão suas reflexões ou a análise que você fizer de determinada pessoa ou situação. 

Como você é levado a acreditar em tudo que as celebridades dizem
Sommers lembra que somos facilmente seduzidos pela ideia de que os atributos dos personagens de TV, por exemplo, valem para qualquer situação. Então, se simpatizamos com Michael Jordan e confiamos que ele vai dar seu show habitual nas quadras de basquete, naturalmente vamos confiar quando ele garante num comercial que as cuecas Hanes são as melhores.

Transpondo aqui para nossas telas, se sabemos que Gisele Bundchen é a top model mais famosa do mundo, então parece natural confiar nela quando aparece dizendo que suas calcinhas favoritas são da marca Hope.

“A falsa confiança de que é fácil prever o comportamento dos outros a partir daquilo que é mais familiar para nós é reconfortante, mas nos faz resistir a evidências contrárias e temos mais chances de errar”, conclui, porque justamente essas evidências contrárias ampliam nosso olhar e nos ajudam a entender melhor a situação como um todo.

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Acredite, você não é tão especial e único quanto imagina. Dependendo da situação, você vai reagir exatamente como aquele vizinho que você acha tão irritante
O contexto onde você está inserido transforma aquilo que você é (ou acha que é)

Fazemos quase a mesma coisa em relação ao que pensamos de nós mesmos. Detestamos imaginar que aquilo que nós somos também – ou, sobretudo – seja moldado pela situação em que nos encontramos ou pelas pessoas com quem estamos em determinado momento. Resistimos a esta ideia, porque ela lembra muito aquelas falas de avó: ‘diz-me com quem andas e direi quem você é’ e fazem chacoalhar nossa certeza de que somos criaturas únicas, especiais, construídas por traços de personalidade constantes e reconhecíveis em qualquer circunstância.

Não somos. Dependendo da situação e se estamos sozinhos ou num grupo, agimos de maneira diferente. E nem sempre nos reconhecemos na forma como agimos. “Não sei como tive coragem de fazer aquilo!”, dizemos depois. Mas se examinarmos o contexto talvez fique muito fácil de entender…

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Mas, mesmo no mundo das circunstâncias, nem tudo é tão relativo assim
Se tudo é tão relativo, se nós mesmos estamos bem longe de sermos um ponto imutável no universo, de que valem todas essas ideias que cultivamos sobre quem somos? Como sabemos se nossos pontos fortes e limitações são mesmo nossos pontos fortes e limitações? E nossos sonhos mais brilhantes para o futuro e nossos mais profundos arrependimentos do passado, de que adianta pensar neles se vão ficar mudando toda hora?

E é aí que Sommers enfim se curva, admitindo que existem coisas que escapam ao poder das circunstâncias: “É claro que existe uma resposta mais profunda para essas questões. De fato, existem várias. Para se conhecer melhor, é válido fazer uma lista com os 10 momentos mais definitivos da sua vida, com as 7 escolhas mais importantes da sua trajetória ou com as 5 pessoas mais importantes para você. Mas, inevitavelmente, as suas respostas para essas perguntas vão mudar ao longo do tempo, dos lugares e das pessoas com quem você estiver”.

Por isso, o melhor conselho seja para quem busca o autoconhecimento, seja para quem quer conhecer melhor os outros continua sendo muita reflexão, mas sem nunca esquecer de dar uma boa olhada para os lados, para garantir que você captou direitinho a importância da situação.

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