Escritora e jornalista do New York Times conta sua traumática tentativa de transição de agendas de papel antigas para eletrônicas

Elizabeth Beier, editora-executiva da St. Martin's Press, não abre mão de sua antiga Filofax e da papelada em seu escritório
Robert Wright/The New York Times
Elizabeth Beier, editora-executiva da St. Martin's Press, não abre mão de sua antiga Filofax e da papelada em seu escritório
Em junho, fiz algo que nunca havia feito antes, em meus 20 anos como uma pontual neurótica, hiperativa, armazenadora de calendários e dependente do papel: deixei minha agenda (Filofaxes, Day Runners e outras, como são conhecidas no mercado) no escritório.

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Como se não bastasse, fiz isso numa sexta-feira, o que me deixou sem noção e desorientada por um fim de semana inteiro. Quais eram meus compromissos para o sábado? O que meus filhos tinham para fazer? Festas de aniversário foram ignoradas e recados, não transmitidos? Na noite de domingo, privada de meu ritual de revisão da semana seguinte, eu não tinha nenhuma preocupação, exceto sobre as coisas que eu não sabia que devia me preocupar.

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Essa situação patética tinha, é claro, uma solução, adotada por muitos: a conversão para o iCal, Calendário do Google, Outlook ou qualquer outro sistema eletrônico de gerenciamento de informações pessoais (como eles são conhecidos no mercado). Você pode atualizar instantaneamente. Pode sincronizar. Pode integrar, sem nenhuma colagem, o profissional e o pessoal em uma única e harmoniosa unidade.

Eu preferiria viver uma vida de mil compromissos perdidos.

A escritora Ayelet Waldman recentemente abandonou sua agenda antiga e se converteu aos eletrônicos
Trent Bell/The New York Times
A escritora Ayelet Waldman recentemente abandonou sua agenda antiga e se converteu aos eletrônicos
Muitas coisas de nossas vidas profissionais e sociais são determinadas pelos sistemas que usamos para fazer seu acompanhamento. Com cada vez mais pessoas convertendo-se aos calendários eletrônicos ou alternando entre papéis e PDAs, a maneira como construímos e coordenamos nossas agendas está em constante mudança. E não importa quão sincronizadas tenham se tornado as nossas vidas entrelaçadas, certa quantidade de conflito de agendas é inevitável.

Usuários de calendários eletrônicos (as 'pessoas normais’, como meu marido os chama) podem não ter consideração nenhuma por seus antepassados feitos de papel. “Você perde um calendário de papel e ele já era”, diz Ayelet Waldman, romancista que sincroniza seu iCal ao de seu marido e cinco filhos, com o zelo dos convertidos.

Na noite de seu casamento, ela perdeu sua Filofax e “foi tão traumatizante que, assim que uma opção eletrônica ficou disponível, fiz a troca”. O papel, diz ela, “é uma carruagem puxada por cavalos”.

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“Tenho um amigo que ainda vive no mundo do papel. Acho ridículo”.

“Não existe absolutamente nada que ninguém possa dizer que me faria trocar”, diz Dany Levy, fundador da Daily Candy e fiel usuário de Filofaxes desde o colegial. “As pessoas ficam chocadas. Aqui estou eu, empreendedor pontocom, que deveria estar usando a mais alta tecnologia de ponta, e ainda assim uso uma forma de gerenciar meus compromissos que data da Idade da Pedra”.

Nelson George, crítico cultural, produtor e cineasta, não abandona sua agendinha de papel
Robert Wright/The New York Times
Nelson George, crítico cultural, produtor e cineasta, não abandona sua agendinha de papel
Mas, segundo 'An Exploratory Study of Personal Calendar Use’ ('Estudo exploratório do uso do calendário pessoal’, em tradução livre), estudo de 2008 da Virginia Tech, a marcha do agendamento eletrônico é veloz e inevitável: “Com o uso crescente de aparelhos móveis, mais e mais tarefas de agendamento estão sendo realizadas fora dos computadores”.

Três anos depois, esse estudo já é uma relíquia, segundo um de seus autores, Manuel A. Perez-Quiñones, professor associado de ciência da computação.

“Aquilo foi antes dos smartphones, antes do calendário do Google, numa época onde você ainda tinha de plugar o seu PDA para sincronizá-lo”, diz. “Era um monstro completamente diferente”. O papel ainda não desapareceu totalmente, diz ele, “mas os calendários de mesa e de escritório estão com seus dias contados”.

Esse tipo de predição incita o terror entre os usuários do papel. Mesmo assim, não existe necessariamente uma correlação entre o comprometimento com a tecnologia e a escolha pelos calendários e agendas. “Eu tenho um iPad, um iPod, estou no Twitter e no Facebook e estou falando do meu BlackBerry agora mesmo”, diz Nelson George, crítico de cultura, cineasta e produtor, sendo entrevistado pelo telefone. “Mas isso é o suficiente. Eu sou uma pessoa de calendários de papel, à moda antiga”.

O medo de mergulhar no calendário eletrônico encontra um motivo peculiar nas manias pessoais de usuários de papel. “Mesmo que eu derrubasse minha agenda no banho, eu ainda poderia pescá-la de volta”, diz Simon Doonan, embaixador criativo para a Barneys, em defesa de sua agenda Goyard amarela, com monogramas em laranja, dourado, vinho e azul. Ele diz que há um apelo inerente sobre a fisicalidade de uma agenda. “Estou sempre rabiscando e desenhando, e escrevendo pequenos microrrecados insanos para mim mesmo”.

Lorin Stein, editor da Paris Review, já está em seu décimo calendário de mesa da New Yorker. “Eu posso enxergar exatamente tudo o que fiz nos últimos dez anos”, diz ele com orgulho. À noite, Stein deixa seu calendário no trabalho (“no mundo dos compromissos”, diz ele).

Esse intervalo de descanso entre a casa e o trabalho pode ser bem-vindo.

Parte do que aumenta a desconfiança dos 'papeleiros’ sobre os sistemas eletrônicos é que outros podem saber sobre um corte de cabelos à tarde ou uma sessão de terapia. Mas os usuários de calendários eletrônicos frequentemente se dão bem com a conveniência que vem da sincronização. Gina Neff, professora-assistente de comunicação na Universidade de Washington, compartilha um calendário eletrônico com seu marido. “Ele está sempre me convidando para encontros aos quais não preciso ir, mas que preciso estar ciente, para que eu possa agendar minhas coisas levando em conta esses eventos”, diz ela. “Distrai muito, mas funciona”.

É claro, nem todos os casais usam o mesmo sistema. “Isso é tudo o que eu e minha esposa fazemos: discutir sobre a agenda de papel dela, e a minha, que é eletrônica”, diz em tom parcialmente irônico David Shenk, autor sediado no Brooklyn. Shenk está no processo de converter sua esposa, ao menos em parte, a seu sistema. “Fico bravo com ela, quando ela não faz as coisas direito, mas é claro que não é culpa dela: é um processo muito complicado”.

Os fabricantes dos calendários à moda antiga estão tentando correr atrás da marcha eletrônica. A Letts, fabricante de diários sediada na Inglaterra, vende adendos personalizados para Filofaxes e outros diários, que incorporam aniversários e datas especiais, para que os usuários não tenham de laboriosamente anotá-las a cada ano. Em 2009, a Day-Timer introduziu aplicativos de calendário para o iPhone.

Isso pode ser uma batalha complicada. Segundo Matt Tatham, porta-voz da Experian Simmons, unidade da companhia de pesquisa de mercado Experian Marketing Services, o uso das agendas eletrônicas está aumentando. “Entre os americanos online, 22% online têm uma agenda em seus celulares ou tablets e 34% dos donos de tablets têm uma agenda eletrônica em seus aparelhos”, diz Tatham, citando os dados de sua companhia. “Imagino que esses números continuem a subir, à medida que o uso de smartphones de tablets continua a crescer”.

Mesmo os usuários convictos de calendários de papel, como a socialite e filantropa Muffie Potter Aston, admitem que existem inconveniências. “Não há dúvida que seria maravilhoso, simplesmente estar em uma reunião e poder aceitar um convite para um encontro, ali mesmo, na hora”, diz a filantropa, que mantém um calendário de mesa em casa. Mas, como outros viciados em papel, ela está relutante em migrar para a era eletrônica, parcialmente por causa do medo. “Já tive computadores queimados e que quase me queimaram também. Talvez, se eu tivesse um pequeno gênio de computadores que cuidasse das falhas, fizesse a troca para os eletrônicos”.

Quanto a mim, seria preciso muito dinheiro para me fazer trocar. É claro, eu disse a mesma coisa sobre o telefone celular e o Facebook, também. Agora, como explicar tudo isso em 140 caracteres ou menos...

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