Separação psicológica deve vir depois da física para que as pessoas possam se desfazer de planos e sonhos, reorganizar os laços amizades e se reencontrarem como indivíduos

Não importa de que lado veio o ponto final: toda vez que um relacionamento chega ao fim, as duas pessoas envolvidas precisam de um tempo para assimilarem verdadeiramente o rompimento e se reencontrarem como indivíduos, não mais como parte de um casal. É a chamada “quarentena amorosa”, um período de repouso sentimental considerado essencial pelos especialistas para que se possa entrar de corpo e alma em uma nova relação no futuro. 

“Após a separação física vem a separação psicológica. Você precisa se desfazer de planos, de sonhos, de relacionamentos com a família e os amigos do outro”, explica Angela Brandão, autora de “Quarentena Amorosa – 12 Princípios para Superar a Dor da Separação e Recomeçar” (Ed. Sextante). 

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E preciso tempo para assimilar verdadeiramente uma separação e se recuperar do rompimento
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E preciso tempo para assimilar verdadeiramente uma separação e se recuperar do rompimento


O livro nasceu depois de ela própria passar por uma quarentena amorosa de um ano e três meses – causada pelo término de um casamento de sete anos – e de ouvir muitas histórias de amigas e conhecidas sobre essa fase. “Escrevi o que gostaria que falassem para mim sobre separações. Quando querem aconselhar, as pessoas são muito assertivas, falam que é para a gente esquecer de uma vez e passar por cima. Mas não é assim na vida real, não se joga uma história no lixo porque uma relação acabou”, afirma. 

A FUNÇÃO DO LUTO

A psicóloga comportamental Denise Pará Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), compara o período de quarentena a um luto. “É a morte de uma relação. Não vai mais existir você com seu parceiro”, justifica. “Assim como quando morre alguém, é preciso encontrar forças para vivenciar isso e tocar a vida”. 

Nesse tempo, a expressão de ordem é “se resgatar”, segundo a psicóloga. “É necessário se adaptar à decisão, tenha ela sido sua ou do outro. Buscar sua autoestima, sua autoconfiança e até gerenciar a raiva que pode estar sentindo do ex”, diz. 

Para Angela, também é a chance de cuidar da saúde sentimental. “No pós-rompimento, ficamos com a imunidade emocional muito baixa. O cuidado físico é lugar-comum na nossa cultura, mas o emocional muitas vezes acaba sendo jogado para segundo plano. Tem que ser generosa com suas emoções para conseguir criar a própria perspectiva do término”, opina. 

EVITE DECISÕES DRÁSTICAS

Embora não exista fórmula para a recuperação de uma separação, algumas atitudes ajudam – e muito – a tornar a quarentena amorosa mais eficaz e produtiva. 

Livro nasceu após autora passar por uma quarentena amorosa de um ano e três meses
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Livro nasceu após autora passar por uma quarentena amorosa de um ano e três meses

“Evite decisões drásticas, como largar emprego, vender tudo, dar a volta ao mundo sem plano de viagem. O melhor é planejar pequenas ações para as grandes decisões criarem forma”, sugere Angela. “Introduza pequenas mudanças no dia a dia, como adotar um hobby, entrar em um curso para conhecer pessoas novas com os mesmos interesses que você, fazer trabalho voluntário. Tudo isso faz qualquer pessoa se sentir melhor consigo. E este é o objetivo da quarentena: se reencontrar, se reconhecer”, completa. 

Denise também considera esse um tempo para se questionar. “Não é caso de se isolar, mas não se pode deixar de olhar para dentro só porque está em companhia de pessoas novas. Então, é bom fazer algumas perguntas de si para si. Que sensações tenho tido? Tenho ampliado minha autoconfiança? Preciso do olhar do outro para me sentir bem? Enquanto a resposta para a última pergunta for ‘sim’, é necessário continuar o trabalho. Se for preciso, buscando a ajuda de um profissional”, orienta a psicóloga. 

UMA HORA PASSA

Assim como não há fórmula para a quarentena amorosa, não existe um prazo determinado para sua duração. Alguns se sentem prontos em dois meses, outros levam mais de um ano. 

De toda forma, os sinais de que ela se esgotou e já dá para entrar em outro relacionamento são bem claros. “Quando a pessoa consegue se ver e se entender, se resgatou. A quarentena foi bem sucedida”, afirma Denise. Angela complementa: “O fim da quarentena é aquele momento em que você percebe que não precisa mais dela, em que você faz suas coisas não para superar a dor de uma separação, mas apenas por você”. 

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E SE PULARMOS A QUARENTENA? 

Algumas pessoas dizem optar por pular a quarentena amorosa e entrar em outro relacionamento imediatamente após o fim. Na opinião de Angela, elas não pulam nada: “Quem diz que estava ótimo no dia seguinte já estava se separando emocionalmente durante a relação, já viveu a quarentena estando ao lado do ou da ex”. 

Mas se realmente ocorrer de engatar um namoro ou um casamento no outro, sem nenhuma cicatrização, é bom ficar de olho nos prejuízos que podem surgir. A autora detalha: “O maior risco é projetar na pessoa nova tudo que gostaria que tivesse acontecido com a anterior, mas não deu certo. E não vai dar certo de novo”. 

Angela, é claro, não recomenda que se faça dessa forma, e explica com base em sua experiência. “Em parte, o relacionamento que tenho hoje se deve ao fato de eu ter passado por uma separação, pela quarentena e ter estabelecido minhas prioridades, aprendido a lidar com minhas emoções. Entendi o que precisava mudar em mim, e só isso já fez valer a relação anterior”, finaliza ela, que é casada com o chileno Jaime há seis anos e com quem tem seu único filho, Santiago, de três anos.

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