Perceber que a pessoa com quem se tinha tudo em comum praticamente não existe mais pode ser tão frustrante quanto uma decepção amorosa

Com o passar do tempo, todas as pessoas mudam (ainda que de leve) de opinião, de comportamento, de atitude. Isso é normal do ser humano. Mas algumas, por quaisquer razões que as movam, mudam radicalmente e se tornam praticamente estranhas para os amigos. E daí quem não mudou junto fica naquele impasse: dá para manter a amizade com essa “nova” pessoa? Vale a pena conversar e ver se em alguns pontos ela volta a ser o que era? Ou pelo menos expor o que está incomodando na nova personalidade? 

OS INCOMODADOS QUE SE ANALISEM

Antes de qualquer abordagem à pessoa mudada, é necessária uma autoanálise. “Tem que ver até que ponto se está disposto a passar por cima de uma ou de algumas diferenças em nome da amizade. Não é uma questão de convencer o amigo a voltar a ser o que era, mas de lidar com o que mudou”, afirma a psicóloga Angelita Corrêa Scardua, mestre pela USP (Universidade de São Paulo) e especializada em felicidade e desenvolvimento de adultos. 

A mudança de comportamento de um pessoa pode ser tão radical ao ponte de ela passa a ser uma estranha para o amigo
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A mudança de comportamento de um pessoa pode ser tão radical ao ponte de ela passa a ser uma estranha para o amigo


De acordo com Angelita, relevar com facilidade é uma característica dos extrovertidos. “Eles não têm muitas exigências para considerar uma pessoa sua amiga, uma vez que as amizades recarregam suas energias”, explica. “Já os introvertidos são muito criteriosos e veem sua bateria acabando se tiverem que interagir com alguém que não lhes agrade. Para eles, é mais fácil se afastar”, continua. Assim, conclui-se que sentar e conversar não é regra: depende do perfil de quem se sente incomodado. 

NEM TODO CASO TEM SOLUÇÃO

Tudo resolvido por dentro, chega a hora de – se for o caso – conversar com o amigo. O principal para esse momento é estar preparado para tudo, inclusive para o rompimento. “O resultado desse papo varia de acordo com o grau da amizade e o motivo do distanciamento. Se o vínculo era forte, mas o desentendimento envolve um conflito de valores, dificilmente a amizade poderá continuar”, diz a psicóloga Cristiane Costa Cruz. 

Veja também: Amizades tóxicas: como saber se um amigo atrapalha sua vida

Em casos mais leves, ela acredita que as chances de sucesso sejam maiores. “Se foi um desentendimento por questões circunstanciais, uma conversa desfaz o mal-entendido”. Angelita concorda e acrescenta que a amizade verdadeira está sempre aberta para o diálogo. “A amizade supera embates e conflitos. Se for real, o outro aceitará uma crítica a uma postura nova e diferente do padrão, sem dramas”, garante. 

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EM CIMA DO MURO

Optar por não explicar para o amigo que as mudanças de comportamento tornam o distanciamento melhor ou desistir, no meio da conversa de que estávamos falando, de manter os laços tão apertados não são sinônimos de virar as costas e esquecer que a pessoa existe. Há situações em que manter um contato limitado, a uma distância confortável, vale a pena. 

“Se é um colega de trabalho que já foi muito amigo, por exemplo, ou alguém que convive com a família, dá para a amizade ficar nos ‘likes’ em fotos de gatinhos fofos nas redes sociais”, brinca Angelita. Cristiane considera que, quando é assim, não se deve nem usar o termo “amizade”: “É aprender a tolerar a presença de alguém que não é mais considerado amigo. É uma questão política, e o melhor a fazer é conviver de forma pacífica, sem ficar tentando lavar a roupa suja”. 

AMIZADES COM PRAZO DE VALIDADE

Há que se considerar, ainda, que alguns vínculos já nascem fadados a acabar. E por eles não vale a pena gastar muita energia, na opinião das especialistas. 

“Algumas amizades se formam em contextos sociais que têm um prazo determinado, como um curso, um emprego. Quando muda esse contexto – o curso acaba ou a pessoa muda de emprego –, se não houver razões mais profundas para manter o vínculo, as pessoas perdem o contato e a amizade esfria. Para que uma amizade se mantenha pela vida toda é necessário que haja vínculos profundos”, simplifica Cristiane. 

Como o desenvolvimento de adultos é sua especialidade, Angelita analisa essa parte sob a ótica do amadurecimento. “Existem amizades que surgem apenas pelo momento que está sendo vivido, ou seja, de acordo com a configuração cognitiva e afetiva das pessoas. Depois de um tempo, elas esfriam e somem por não serem mais relevantes para o desenvolvimento dos envolvidos”, afirma. 

Trocando em miúdos: uma vez que a função dessa proximidade se esgota, ela desaparece por simplesmente não fazer mais sentido na nossa evolução como seres humanos. E tudo bem.

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