Desenhos complexos funcionam como uma terapia “não-verbal” e podem dar dicas sobre a personalidade e o estado emocional de cada um

Canetinha, giz de cera, lápis de cor e desenhos em branco deixaram de ser uma brincadeira exclusiva de crianças. Febre na Europa, os livros para colorir caíram no gosto dos adultos e estão disponíveis no Brasil, em séries especiais, com desenhos complexos e pouco infantis, ricos em detalhes e possibilidades. Mais do que um simples hobby, a prática de colorir é enxergada como terapia antiestresse e também ferramenta para aprimorar algumas habilidades cognitivas, como concentração e precisão.

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O livro “Jardim Secreto”, da artista Johanna Basford, é um exemplo desse tipo de entretenimento voltado para adultos. De acordo com a Editora Sextante, desde dezembro – quando o exemplar foi publicado no Brasil – mais de 100 mil livros já foram vendidos. Nos Estados Unidos, esse número pula para dois milhões, de acordo com a lista de títulos mais vendidos do jornal The New York Times.

Todos os desenhos de Johanna, que lembram verdadeiros jardins encantados, foram feitos à mão pela artista. Por isso, o trabalho é tão rico em detalhes – e extremamente desafiador para quem não consegue se concentrar em uma única tarefa com calma e dedicação.

“O exercício de colorir tem características terapêuticas, porque provoca sensações de prazer e bem-estar. Ele relaxa e desestressa, por ser uma forma de brincar infantil. A criança não consegue lidar com normas ou com os limites do desenho na pintura. O adulto sim, então ele se concentra mais e promove a harmonia entre emoções externas e internas. É uma forma de expressão não-verbal”, explica Asline Gomes, terapeuta ocupacional da Villa Bela Vista, de São Paulo.

Foco no presente

Depois de um dia atribulado, poder voltar à infância é um exercício libertador. Como os adultos têm uma tendência maior ao perfeccionismo do que as crianças, o foco total na pintura dos desenhos faz com que o praticante se desligue de tudo, inclusive das preocupações cotidianas. Com a mente alinhada com o momento presente, centrada no ato de colorir, esse entretenimento pode funcionar como uma espécie de meditação colorida.

“Além de trabalhar o cognitivo, o colorir trabalha a questão do bem-estar. Acaba refletindo em outros setores da vida, como o profissional. Se a pessoa se sente mais relaxada depois de colorir os desenhos, haverá uma interferência positiva no dia-a-dia dela, pois ela fica mais calma e feliz. Para uma pessoa distraída, por exemplo, é algo que estimula a capacidade de concentração, o que também pode ser aproveitado no trabalho”, afirma Giovanna Dias Amato, terapeuta ocupacional do Hospital e Maternidade São Cristóvão.

Esse é o propósito das oficinas de mandalas, por exemplo. Por meio dos desenhos, é possível revelar um pouco da própria personalidade e do estado emocional do momento em questão. Isso fica mais aparente devido à escolha das cores e tons e do desenho, bem como a pressão sobre o papel. Para os livros de colorir, vale a mesma lógica. Embora a brincadeira relaxe e neutralize o estresse, ela não substitui uma terapia convencional. Todas as informações subjetivas dos desenhos coloridos precisam ser traduzidas por um profissional.

 Outro erro comum é achar que esses livros podem funcionar às mil maravilhas para qualquer pessoa, como se fosse mágica. Não é bem assim. É fundamental que exista o interesse por atividades artísticas, como desenho e pintura. Do contrário, o exercício se transforma em uma obrigação tediosa e superficial, comprometendo todo o relaxamento que ele deveria proporcionar. Quem não gosta de atividades mais introspectivas, como essa, e não gosta de ficar parado muito tempo, precisa procurar outra forma de se distrair.

“Tem de existir um objetivo e um significado, senão a pessoa só se frustra com os livros para colorir. Não indico àqueles que são muito impacientes. Os desenhos não são fáceis e você precisa se comprometer a completar as etapas, com dedicação”, pondera Giovanna Dias Amato.

Como começar

O primeiro passo é fazer uma pesquisa entre os títulos que já estão disponíveis no Brasil, em livrarias e lojas especializadas. O Jardim Secreto, por exemplo, custa cerca de 30 reais. É interessante conferir os desenhos de cada exemplar, para escolher aquele mais atrativo e divertido para horas de pintura a fio. Se você é principiante e ainda está um pouco inseguro, o melhor é buscar aqueles com desenhos mais simples e avançar na complexidade artística aos poucos, sem pressa.

A escolha do material também pode variar. Há quem se sinta mais à vontade para usar giz de cera, mas o lápis de cor é o mais indicado para todos os níveis. A canetinha, por outro lado, só vale para quem sabe usar sem rasgar o papel ou manchar o verso, o que pode acabar comprometendo outros desenhos.

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Com o kit de artes em dia, é o momento de reservar um tempinho da agenda para se dedicar à brincadeira de colorir jardins e florestas encantadas. A escolha do horário depende do objetivo de cada um. Se a ideia é chegar mais disposto e focado no trabalho, a dica é pintar os desenhos pela manhã. À noite, porém, funciona mais para quem quer se desligar das preocupações do dia e relaxar, sem precisar fazer mais nada.

Mas, chega um momento em que os livros e os desenhos perdem a graça? Para Asline Gomes, não. “Acredito que não, porque os desenhos trazem essa sensação de conhecer novos limites, artes mais complexas. Hoje eu pinto flores, amanhã árvores e depois uma floresta. Então, é algo que estimula o conhecimento e traz novos desafios, por isso não tem um fim. E é até melhor que seja assim, porque as pessoas vão melhorando inúmeras habilidades com o tempo e com a prática”, diz.

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