Além de atuar no blogs, fanpages e canais no YouTube, elas aproveitam o poder das redes sociais para disseminar o feminismo e engajar mais simpatizantes na causa

Foi em 2010, quando assistia ao documentário “Killing Us Softly”, que a publicitária Luise Bello, de 25 anos, teve o insight. O filme mostra como a publicidade americana das últimas décadas retratou a mulher de forma estereotipada e machista. Naquele momento, ela percebeu como o seu cotidiano também era cheio de situações de machismo. Com o tempo, Luise foi se percebendo feminista, como alguém que defende e trabalha para o equilíbrio social, econômico e político entre os sexos. 

Luise Bello: “Como mulher, é difícil nunca ter vivido uma situação de desigualdade
Arquivo pessoal
Luise Bello: “Como mulher, é difícil nunca ter vivido uma situação de desigualdade"

“Como mulher, é difícil nunca ter vivido uma situação de desigualdade. Sem uma reflexão crítica, a gente acaba passando por cima de muita coisa, achando que ‘é assim mesmo’, naturalizando o machismo que vivemos. Em 2013, quando conheci a campanha [contra cantadas] Chega de Fiu Fiu, me envolvi mais ativamente com o movimento feminista”, relata Luise, que é uma das colaboradoras do Think Olga , blog feminista idealizado pela jornalista Juliana de Faria, que aborda inúmeras questões relacionadas à emancipação feminina. 

Assim como outras jovens ouvidas nesta reportagem, Luise tenta desmistificar o movimento feminista e atingir cada vez mais pessoas. Para isso, ela conta com uma aliada poderosa. “Eu faço da internet a minha principal ferramenta de militância. É inegável que essa seja a mais poderosa forma de transmitir mensagens atualmente. Então, o meu esforço é para que o assunto na boca e na ponta dos dedos de todo mundo seja o feminismo”, revela ela. 

Neste mês do Dia Internacional da Mulher, essa jovem geração feminista quer deixar de lado as ‘homenagens’  que reforçam estereótipos femininos sobre maternidade, beleza e delicadeza. O objetivo é dar atenção as questões que realmente importam, como desigualdade salarial, violência, feminicídio, cultura do estupro e descriminalização do aborto.  

“As pessoas precisam mudar e perceber que as mulheres são seres humanos, o resto é consequência disso. O primeiro passo é combater a relação insistente de poder e controle sobre a mulher, para que ela deixe de ser objetificada”, defende Débora Cassolato, redatora e autora dos blogs Ouvindo antes de morrer  e Música de menina  - esse último é uma provocação ao preconceito sofrido pelas mulheres no meio da música. 

Débora critica a objetificação feminina, que faz mulheres serem agredidas, violentadas, perderem o direito sobre o próprio corpo e ficarem presas em relacionamentos abusivos. “Entra nessa questão o ato de reforçar que peso, idade, tipo de cabelo ou pele ela deve ter para ser desejada pelos homens. Para mim, essa é uma das principais bandeiras para combater o machismo”, argumenta ela, sem esconder o entusiasmo com a causa.  

Esse momento em que o feminismo é reavivado por uma nova geração é reforçado por uma apropriação que a cultura pop faz do movimento, em figuras como Valeska Popozuda no Brasil e Beyoncé, nos Estados Unidos. Aliás, um exemplo arrepiante disso aconteceu na premiação Video Music Awards da MTV do ano passado. No prêmio, a estrela americana, que só tem mulheres em sua banda, apareceu no palco à frente de um letreiro gigantesco com a palavra “feminist”.  

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Estrelas do cinema também se engajaram na causa. Na recente premiação do Oscar, Patricia Arquette, vencedora como melhor atriz coadjuvante, fez um discurso emocionante e empolgante pedindo que as mulheres tenham igualdade salarial com os homens. A fala foi bastante aplaudida, especialmente pelas estrelas Meryl Streep e Jennifer Lopez.  

COMBATE AO ASSÉDIO NA RUA

Para a blogueira Danielle Cruz, do blog Mais Magenta , o movimento precisa ser divulgado mais amplamente, promovendo uma conscientização maior. “Hoje, vejo cada vez mais mulheres se identificando com a luta, porque elas têm mais contato com o que é o feminismo. Eu acho isso bom, pois faz com que muitas pessoas repensem seus comportamentos. Às vezes, nós oprimimos alguém sem perceber, porque fomos criados para isso.” 

Dani vê como questão fundamental do feminismo o combate ao assédio que as mulheres sofrem diariamente nas ruas. Tendo passado em vários momentos por essa violência, ela mergulhou na causa para fazer a sua parte na mudança.  

Danielle Cruz:
Arquivo pessoal
Danielle Cruz: "Às vezes, nós oprimimos alguém sem perceber, porque fomos criados pra isso"


“Há algum tempo comecei a ter mais contato com outras mulheres feministas e a aprender muito com elas. Percebi que as minhas experiências tinham uma grande repercussão. Algumas pessoas vinham conversar comigo sobre como passavam pelas mesmas coisas, mulheres que sentiam medo e homens que nem ao menos acreditavam que isso fosse possível”, explica Dani, que posta vídeos no YouTube discutindo as consequências do assédio travestido de elogio. 

DIVERSO, MAS UNIDO 

Como outros movimentos, o feminismo do século 21 não é homogêneo. Várias frentes atuam por um determinado segmento de mulheres, como o transfeminismo, que discute os direitos das mulheres transexuais. Isso não quer dizer que esses grupos se excluam. A emancipação feminina ainda é o foco central das discussões, sejam as ativistas trans, negras, brancas, ricas ou pobres. 

“O feminismo está em constante construção. É um movimento grande e diverso, por isso é difícil apontar uma direção quando há tantas possibilidades de crescimento. Não tenho críticas ao feminismo em si, acredito que ele seja a melhor opção que temos para conquistar cada vez mais espaço na sociedade”, pontua Luise. Para a ativista, as mulheres precisam se envolver mais na causa e evitar armadilhas que as desune. 

Entre as armadilhas, esta o fato de muitas mulheres repetirem comportamentos machistas, como chamar uma amiga ou conhecida de vida sexual ativa de “rodada”, “fácil” ou “vagabunda”. O uso desses adjetivos para se meter na vida alheia e espalhar preconceito é conhecido pelo termo em inglês ‘slut shaming’. 

Débora Cassolato:
Arquivo pessoal
Débora Cassolato: "Eles [homens] não podem protagonizar a luta ou dizer o que é ou não prioridade, o que é ou não sofrimento"

HOMENS: PARCEIROS OU INIMIGOS? 

Mas não são só as mulheres que estão conversando mais sobre as pautas feministas. Muitos homens também têm se engajado na causa. No entanto, a participação deles ainda é vista com reserva pelas ativistas.  

Para Débora, a parceria entre mulheres e homens pelo feminismo pode ser interessante, desde que com alguns limites. “Acredito que a contribuição deles pode ser muito produtiva sim, principalmente na hora de disseminar as ideias do feminismo entre outros amigos. Porém, eles não podem protagonizar a luta ou dizer o que é ou não prioridade, o que é ou não sofrimento”, ressalta a blogueira.  

Luise entende que o movimento é para e sobre mulheres, mesmo com alguns homens defendendo que o machismo também os atinge.

“O mundo é uma grande festa para a qual deveríamos ter sido, mas não fomos convidadas. Só que nós vamos entrar assim mesmo, de penetra, e curtir muito. Precisamos de homens que ajam naturalmente aos nos ver lá dentro, entendam que essa festa nunca teve necessidade de convite e, se possível, que nos ajudem a tirar os guardas da porta”, conclui de forma bem-humorada a ativista.

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