Guy Winch diz que perdas, rejeições amorosas, separações e fracassos profissionais geram feridas emocionais, que precisam de cuidados imediatos para não virarem uma 'infecção'

Em cartaz nos cinemas brasileiros e estrelado pela indicada ao Oscar pelo papel, Reese Whitherspoon,  o filme “Livre” conta a história real e dramática de Cheryl  Strayed, uma escritora que vê sua vida se desarrumar por completo quando um câncer fulminante leva sua mãe. A morte causa uma ferida emocional que Cheryl só consegue superar depois de caminhar por 1770 quilômetros numa árida trilha pela costa oeste dos Estados Unidos, durante três meses de um processo de autoconhecimento.

O livro  “Como curar suas feridas emocionais” (Editora Sextante), do psicólogo americano e PH. D Guy Winch, trata justamente destes solavancos da vida que nos fazem sair do eixo. Dores causadas por mortes como no caso de Cheryl, mas também por rejeições amorosas, separações ou fracassos profissionais, entre outros problemas.  Em entrevista ao Delas direto de Nova York, por Skype, Winch diz que este tipo acontecimento exige cuidados imediatos para não 'infeccionar' e se tornar uma ferida emocional. Tão doloroso quanto um trauma físico. 

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Em "Livre", Reese Whiterspoon vive escritora com uma ferida emocional originada na morte da mãe. Ela se recupera depois de caminhar 1770 quilômetros num processo de autoconhecimento


“É curioso como sabemos o que fazer com a dor física, se é caso de usar um curativo ou levar pontos. Mas quando se trata de emoções, ainda estamos no século 19. Não sabemos se podemos fazer algo a respeito, somos muito primitivos para feridas emocionais” , afirma Winch, que ainda aponta um paradoxo. “As pessoas consideradas mais fortes são aquelas que conseguem reprimir e seguir adiante, o que é ridículo porque se alguém tem um corte, não esperamos que ela aja de forma estúpida e não vá ao médico”, exemplifica o psicólogo. 

E essas feridas podem aparecer na vida de qualquer um. Segundo Winch, ‘todo mundo sangra emocionalmente’. A psicóloga, especialista em mudança de comportamento e professora convidada da PUC-RJ Daniela Faertes considera acertada a analogia entre a dor física e a emocional.

 “Se a gente não elabora as feridas emocionais, elas geram crenças distorcidas, ou seja, inflamam, infeccionam. Temos muito isso de seguir em frente, mas é preciso poder sofrer e refletir o que podemos fazer a partir da ferida”, pondera Daniela, ressaltando a necessidade de não se fugir do período de luto. 

A psicóloga Marina Barbi, da clínica Sintropia, concorda e ainda aponta uma desconfortável constatação comum a quem vive algo assim. “O que dói quando surge um problema é a sensação de que não temos nenhum controle sobre a situação. Se conseguirmos identificar suas causas e por que aquilo machucou tanto, a gente consegue mudar um pouco o jogo.”

O desamparo dessa sensação ainda esconde um mecanismo cerebral traiçoeiro. “A pessoa não percebe que o cérebro dela tenta impedi-la de voltar a sentir dor. O cérebro é desenhado para não sentir dor e, embora isso seja bom pra ele, não é para a pessoa. Nessas horas é preciso focar no que é possível controlar”, aconselha a terapeuta.

HUMOR SOME, DEPRESSÃO APARECE

Esta ‘infecção’ no nosso lado emocional se agrava quando destrói a autoestima numa decepção amorosa. “Quando a ferida é de rejeição, o humor despenca, a pessoa se sente deprimida, mais crítica consigo mesma e se acha pouco atraente. É uma atitude incorreta, mas comum”, constata Winch.

Guy Winch, autor do livro “Como Curar suas Feridas Emocionais”
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Guy Winch, autor do livro “Como Curar suas Feridas Emocionais”

Para Winch, nessas horas vale racionalizar e se apegar ao clichê que muitas pessoas usam para terminar uma relação: ‘não é você, sou eu’.  Porque o fato de alguém não querer mais o relacionamento pode se referir apenas a um sentimento dele e não a um comportamento ou uma característica da outra parte.

 “Minha sugestão é que a pessoa faça uma lista de todas as suas qualidades, se é uma boa ouvinte, se gosta de se divertir, se é companheira. É preciso se lembrar de tudo que é bom ao seu respeito e não de tudo que é ruim”, indica Winch.

Outro clichê valido é que uma dor de cotovelo se cura com reforço da autoestima.  “Quem se sente mais confiante também se sente mais atraente. Por outro lado, quem fica sempre tímido ou hesitante não permite que o outro o conheça bem para saber se terão uma boa química”, prossegue Winch. 

Mas a autoestima dificilmente vai se recuperar se o foco permanecer o tempo todo no fato que causou a ferida. “Pare de pensar na origem do sofrimento, aproveite para ver bons filmes, ler. O importante é conseguir desfocar da situação”, observa a psicóloga Daniela Faertes, lembrando que estas situações também são oportunidades para reinventar o curso da vida.

É importante ter em mente ainda que os amigos são pontos de apoio para nos reerguermos. Eles nos ajudam a ver a situação de fora do problema. “Quando a pessoa tem com quem contar, ajuda muito”, pontua a terapeuta Marina Barbi.

Veja frases para levantar a autoestima:


AJUDA PROFISSIONAL 

Claro que a uma autorreflexão como feita pela personagem de Reese Whitherspoon nem sempre é suficiente para curar a ferida emocional, muitas vezes é preciso recorrer a um profissional.

 “Se você não consegue se sentir melhor após um tempo, se sente como se nunca mais fosse conseguir outra chance profissional ou está disposto a nunca mais voltar à faculdade, trata-se de algo maior”, avalia Winch, exemplificando com o caso de quem sofreu o abalo de uma demissão. Ele ressaltando que evitar a situação assustadora não vai tornar o problema menor, pelo contrário.

Marina elenca outros indicativos de que a situação está fugindo do controle.  “Ir ao trabalho e não render tanto ou chorar um pouco é normal. Já quem não está comendo direito ou passa a comer demais, não sente prazer em nada ou fica desmotivado deve procurar ajuda: é sinal de que o sofrimento começou a contaminar o cotidiano como um todo.”

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