Tolerância, novos conhecimentos e a quebra de mitos são algumas das vantagens das amizades entre gerações diferentes

Experiência e juventude: amizades com grandes diferenças de idade beneficiam as duas partes
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Experiência e juventude: amizades com grandes diferenças de idade beneficiam as duas partes

Tolerância e um entendimento maior sobre o próprio futuro são alguns dos benefícios que se pode obter de uma amizade entre pessoas com grandes diferenças de idade entre si.

"Aprender com a experiência de vida dos mais velhos não significa (apenas) ficar ouvindo histórias", diz ao iG a psicóloga Simone Bracht Burmeister, mestre em gerontologia biomédica e autora do livro Família e Pessoa Idosa: Reflexão e Orientação (Ed. Sinodal).

Entre outras aprendizagens importantes que se pode tirar da convivência com os mais velhos, a psicóloga destaca, por exemplo, a aceitação das diferenças de cultura, de pensamento, de agilidade, a valorização da saúde e da própria vida, o exemplo de lutar pelo que se quer, a chance de receber um conselho sobre uma relação que não anda bem, além de dicas de como lidar com um filho, com uma doença ou uma perda.

Conhecimento e tolerância

A amizade entre pessoas de gerações distintas expande "a visão do todo, não apenas de aspectos pessoais, mas a partir da visão de quem já viveu mais, o que (para o jovem) é um benefício enorme", diz Lenita Sampaio, geriatra e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

"Para a maioria das pessoas mais velhas a habilidade emocional é diferente, elas são mais carentes. Para a pessoa que está querendo se aproximar há a vantagem de (os idosos) estarem mais abertos a novas amizades."

Ao demandar mais atenção, o idoso desafia os mais jovens ao mesmo tempo em que pode encantá-los com suas narrativas únicas do passado e com toda a vivência acumulada.

"O idoso requer paciência, tem o humor geralmente mais deprimido, pode ter dificuldades para viver e isso pode ser chato para o jovem, que está ainda com muita energia. A pessoa mais velha tem outro tempo, faz as coisas mais devagar, tem conversas mais longas", explica a geriatra.

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No entanto, se o mais jovem tiver a curiosidade de ouvir o que um idoso tem a dizer, a amizade pode até mesmo acrescentar cores totalmente novas às lições aprendidas até então.

"Há fatos da história recente que nem sempre estão nos livros. E, mesmo que estejam, ouvir de quem viveu um momento histórico é muito mais interessante", acrescenta Simone.

Trocas

Um caminho que viabiliza a amizade entre as gerações pode surgir no momento em que uma pessoa com menos idade se predispõe a trocar conhecimentos com o idoso.

"A avalanche de tecnologia pode ser um bom motivo para aproximar jovens e velhos. Os idosos querem aprender a usar a internet, as redes sociais, saber passar uma foto do celular para o computador", destaca a psicóloga.

A amizade com grande diferença de idade pode surgir no ambiente familiar, na vizinhança e em eventos nos quais o jovem já está inserido, lembra Simone.

"O mais importante nas relações intergeracionais é a possibilidade de troca. Uma geração se alimenta da outra, aprende com a outra. O jovem pode aprender e amadurecer e o idoso pode se sentir mais jovem."

Derrubando mitos

"Acreditar que o idoso é pacato, que só fica em casa e é preguiçoso é um mito que está sendo quebrado", diz Lenita. No entanto, a especialista levanta um tema alvo de preconceito.

"O sexo ainda é um tabu. Os jovens acham que a pessoa mais velha não faz sexo, há muita brincadeira em relação a isso, mas as pessoas estão se mobilizando para mudar. Como tudo na vida, o sexo fica diferente com a idade, mas não deixa de existir."

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"O mito é de que o idoso é incapaz, coitado, fraco ou que só gosta de coisas entediantes e calmas" é outro que pode ser quebrado com uma amizade entre gerações, acredita Simone.

"Há idosos com todos os perfis e conhecê-los bem pode ser surpreendente", defende a psicóloga, lembrando ainda que a relativa “lentidão” do idoso pode ser um estímulo para o jovem "desacelerar" um pouco.

"Fazer as coisas devagar pode ser muito prazeroso", ressalta.

Espelho do futuro

A diferença entre as gerações pode ser desafiadora e trazer reflexões sobre a própria velhice daqueles que hoje são novos.

"Os jovens podem aprender a envelhecer. Os idosos de hoje não tiveram modelos, porque há 40 ou 50 anos uma pessoa com 45 ou 50 anos já era considerada velha e poderia morrer antes de completar 60. Os idosos de hoje pouco conviveram com outras pessoas idosas e, por isso, não sabiam como era envelhecer até chegarem a esta fase", compara Simone.

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"Temos de parar para pensar hoje nas coisas que fazemos que vão garantir uma qualidade no futuro, questões como fazer uma atividade fisica, cuidar de problemas como depressão", alerta Lenita.

"O idoso que fuma ao longo da vida toda adora falar que 'se arrependimento matasse, eu não teria fumado'. Isso é bom, por exemplo, para a gente encarar as coisas e ter essa consciência."

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