O "pet-jornalismo" vira febre na internet. Há até quem diga que é arte. Será mesmo? Leia as histórias

NYT

Foi em 2007 que Juergen Perthold, engenheiro que vivia em Anderson, na Carolina do Sul, amarrou uma pequena câmera feita por ele mesmo à coleira de seu gato, Mr. Lee. Quando as imagens que Mr. Lee gravou enquanto passeava pelo bairro foram colocadas na internet, viraram um sucesso. Mr. Lee recebeu a atenção da mídia internacional e se tornou a estrela de um documentário, "CatCam: The Movie", que percorreu os festivais em 2012 e até ganhou alguns prêmios.

Desde então, Perthold refinou sua microcâmera, criada para gravar filmes ou tirar fotografias a intervalos programáveis e já vendeu quase 5.000 unidades a donos de animais de 35 países, muitos dos quais enviam as imagens de volta a Perthold, que as exibe em seu site. Afinal, Mr. Lee não é o único fotógrafo animal e sua CatCam não é a única máquina fotográfica feita para os pets.

A GoPro, fabricante de câmeras que ficou famosa nas mãos de surfistas e outros atletas que utilizam suas minicâmeras à prova de água, acaba de colocar uma versão para pets no mercado: a Fetch, uma coleira com câmera para cães.

Durante anos, os donos de animais têm colocado as câmeras da empresa, conhecidas como Heros, nas coleiras de seus bichos de estimação; talvez você já tenha visto o vídeo do porquinho surfista no YouTube (a GoPro tem apenas 10 anos e realizou um IPO impressionante em junho, mas não soube quantas Heros já foram utilizadas dessa maneira. Em 2013 o faturamento da empresa foi de 985 milhões de dólares; há uma década o faturamento foi de apenas 150.000 dólares. E o porta-voz da GoPro não deixou de lembrar que, apenas no ano passado, os norte-americanos gastaram 60 bilhões de dólares com seus pets).

À medida que câmeras digitais programáveis se tornam menores e mais baratas, o universo do, como podemos dizer, pet-jornalismo – ou será que podemos chamar isso de arte? – cresceu consideravelmente. Cientistas dos dois lados do Atlântico passaram a utilizar essas tecnologias para saber mais a respeito dos hábitos de diversos tipos de animais, incluindo gatos. As obras de Leo, um gato de Yellowknife, no Canadá, foram transformadas em pôsteres. Cooper, de Seattle, apresentou suas obras em uma galeria, e os resultados foram publicados em um livro.

Em setembro, o livro "PetCam: The World Through the Lens of Our Four-Legged Friends" (PetCam: O mundo pelas lentes de nossos amigos de quatro patas, em tradução literal), do fotógrafo Chris Keeney, foi publicado pela Princeton Architectural Press, tornando-se provavelmente a primeira coletânea de fotos tiradas por animais a ser publicada por uma editora famosa.

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Exibindo as obras de 20 animais, incluindo uma vaca e uma galinha, o livro foi inspirador o bastante para que o autor desta reportagem investigasse as práticas artísticas de seu gato, Tiger, quando saíram de férias em Rhode Island. Eu estava muito esperançoso com nosso projeto. Mas Tiger resolveu desaparecer exatamente na semana do experimento.

Causa e efeito? Keeney, o autor de "PetCam", se perguntou. Ele afirmou que seu gato, Alice, desapareceu logo depois que ele prendeu a câmera em sua coleira, reaparecendo triunfante algumas horas depois sem a câmera. Ele acabou encontrando a máquina sob o deque de sua casa, e "a bateria havia acabado porque Alice tirou 2.000 fotos da parte de baixo do deque antes de conseguir arrancar a câmera do pescoço", contou.

"Eu não colocaria a câmera em torno do pescoço de um animal que não esteja acostumado a usar coleira".

Com o sumiço de Tiger, fui obrigado a procurar outros artistas na vizinhança. Afinal de contas, eu tinha os equipamentos necessários: uma GoPro Hero e a CatCam do Mr. Lee, e Tony Cenicola, um dos fotógrafos do New York Times, veio até aqui para acompanhar o projeto. Em uma tentativa de capturar mais de um ponto de vista – o tipo de variedade que Keeney colocou em seu livro, recrutei uma tartaruga, um porco e um mini-schnauzer. Como suas personalidades e apetites afetariam os resultados artísticos? Será que eles iriam tolerar todas essas quinquilharias?

Milton é uma tartaruga fêmea de cinquenta e poucos anos. George Jacobs, de 52, é curador e marchand de obras de arte offbeat e de artistas autodidatas, comprou-a em uma petshop quando ambos tinham 10 anos de idade. A tartaruga pertence a uma espécie ameaçada nos EUA; durante a Grande Depressão, elas eram conhecidas com "Galinhas de Hoover", porque as pessoas caçavam e comiam as tartarugas assadas. Ao ver o adorável rosto de Milton e sua passada estranhamente graciosa, é impossível não estremecer com a ideia. Tony usou uma cola de prender quadros para colocar nossa GoPro Hero nas costas da tartaruga, depois de remover a caixa à prova de água da câmera.

Um pouco antes, nos encontramos com Mrs. Grima, uma porquinha de quatro anos que pertence a James O. Coleman, nativo de Nova Orleans que está passando algumas semanas na cidade. A porca recebeu o nome de uma propriedade histórica na cidade de Coleman, a Casa Hermann-Grima, e é uma criatura com certa seriedade, embora não seja lá muito charmosa.

"Ela é um bicho de estimação pavoroso", afirmou Coleman, "só pensa em comida e nela mesma". Ainda assim, passeia com orgulho com a porca e seus cachorros quase todos as tardes, atraindo multidões para a Bellevue Avenue, próxima de seu apartamento. Como os porcos não têm pescoço, ela usou uma espécie de cinta nos ombros, e foi difícil manter a GoPro firme no lugar (Tony usou elásticos e prendedores, e acabou irritando Mrs. Grima, que respondeu com cabeçadas a intervalos regulares). Quando a levamos para passear em frente à Marble House, a mansão do século 19 de Alva Vanderbilt na cidade, um turista impressionado perguntou: "Isso é um porco?".

Monique Coleman, esposa de Coleman, estava intrigada com o "cérebro suíno" de Mrs. Grima emoldurando a Marble House. "Ela está observando um símbolo da era dos excessos e do consumo, justamente o que faz a visita a Newport valer a pena". Um porco fazendo crítica social, é isso aí.

No fim do dia, visitamos Harvey, de 9 anos, um mini-schnauzer com personalidade expansiva e curiosa, que vive ao lado de Rufus, um cairn terrier de 13 anos, e Diana Oswald, agente literária e autora de "Debutantes: When Glamour Was Born" (Debutantes: quando o glamour nasceu), livro de fotografias publicado no ano passado pela Rizzoli. Com a GoPro pendurada na coleira, Harvey deu uma volta no jardim, e então o levamos à praia e deixamos que ele corresse com sua quia extensível.

Que tipo de obra Oswald acredita estar produzindo? Fotojornalismo, definitivamente, afirmou, como um colaborador da National Geographic, "todas as suas viagens e aquilo que ele explora".

Uma das coisas que é preciso saber a respeito da fotografia animal é que a edição é uma parte significativa da empreitada. Programamos nossas câmeras para baterem fotos a intervalos de 10 segundos para Mrs. Grima e Harvey, e 30 segundos para Milton; Em média, os animais tiraram fotos durante uma hora. Isso significa que precisamos conferir milhares de imagens. Digo nós porque foi Tony que se dedicou a isso, coletando cerca de 30 fotos interessantes em cada sessão. Keeney, por sua vez, afirmou que passou semanas editando seu livro. "Depois de um tempo, fiquei exausto. Não aguentava mais", admitiu.

Mas a arte, logicamente, pode ser mais o processo que o produto. Pedi ao galerista de fotografias James Danzigerton para criticar nosso projeto. Ele destacou que os animais não escolheram o que iriam fotografar; que as câmeras foram acionadas e registraram o que estava dentro de seu campo de visão.

"Para ser claro, não estávamos criticando as capacidades artísticas dos animais, mas seus olhos", afirmou.

"De toda forma, não há muito o que possamos falar sobre os dois primeiros, a tartaruga e o porco".

Keeney não tem dúvidas de que esse seja um gênero emergente. Fred, seu cachorro misto de Chihuahua e terrier, já tem uma conta no Instagram, graças à filha de Keeney. "PetCam será o termo que descreverá essa nova tendência", continuou.

"As pessoas são malucas por seus pets. Essa atividade vai estreitar ainda mais seus laços, porque não deixa de ser uma colaboração".

* Por Penelope Green

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