Conheça a história da designer cadeirante que decidiu não se isolar em casa, caiu no mundo e hoje mantém um blog sobre turismo adaptado

Depois do dia 29 de julho de 2006, Michele Simões teve a impressão de que trocara de corpo, da noite para o dia. Era nítida a falta de sensibilidade nas pernas e no tronco. A designer de moda de Londrina, no Paraná, precisou encarar o diagnóstico definitivo dos médicos depois de um acidente de carro. A lesão medular na altura do tórax lhe custou os movimentos de algumas partes do corpo e ela precisaria se locomover com uma cadeira de rodas dali para frente.

Não erre a mão: como lidar com portadores de deficiência

Apesar da notícia dura, Michele teve para si que nada seria definitivo contra a vontade dela de viver. Embora os médicos dissessem que as chances de recuperação total eram baixas, ela preferiu seguir em frente com uma mentalidade positiva e esperançosa.

“Quando dizia às pessoas que lutava para voltar andar, me olhavam com pena. Diziam que eu era muito bonita, mas que era uma pena eu estar numa cadeira de rodas. Uma coisa que você aprende depois de uma lesão como essa é a ter paciência e perseverança. Os progressos, não só físicos, vêm aos poucos. Não me apeguei à autopiedade”, recorda ela.

Independência

A paraplegia e a cadeira de rodas limitaram algumas vivências de Michele, mas ela não desistiu de nenhum sonho ou projeto de vida. Nem mesmo quando disseram que seria perigoso demais enfrentar um intercâmbio longe de casa. Foi quando Michele tomou coragem e criou o blog Guia do Viajante Cadeirante , em 2013, para compartilhar aventuras e experiências mundo afora. Boston, nos Estados Unidos, foi o primeiro destino escolhido pela designer, já na condição de cadeirante.

“No intercâmbio, vivi uma série de situações complicadas. Eu estava há oito anos sem ir para a rua sozinha. Foi tão gratificante e tão bom, que por mais medo e receio que tivesse, existia uma força que me impulsionava para conhecer o mundo. Finalmente percebi que eu não era deficiente, a deficiência estava no meu país”, conta a designer.

Durante os três meses que passou nos Estados Unidos, Michele conseguiu sair sozinha sem a sensação de ser o “elefante branco” das ruas. Lá, ninguém a encarava com pena ou estranhamento, como se fosse errado um cadeirante estar fora de casa, por conta própria. Ao contrário, Michele encontrava com frequência cadeirantes em situações mais delicadas que a dela, convivendo normalmente com outras pessoas.

Superação: Mãe cadeirante conta como cuida de bebê

Fazer tudo sozinha, aliás, foi uma das premissas da viagem de Michele. O intercâmbio do namorado coincidiu com a mesma época e destino, mas ela se manteve firme quanto à decisão inicial. O casal frequentou aulas em períodos diferentes, para que Michele pudesse se sentir “sozinha no mundo”.

“O grande momento que me fez encarar a solidão com coragem foi quando vi um tetraplégico sozinho pelas ruas de Boston, se movimentando só com queixo. Compreendi que a limitação só existe na nossa cabeça. Você é a única pessoa que pode ter consciência do que consegue ou não fazer, e não quem não tem deficiência alguma”, acredita Michele.

Leia: 12 passos para criar coragem

O trabalho no Cadeirante Viajante acabou sendo a prova de que não existe uma regra para as limitações dos cadeirantes, ao contrário do que as pessoas acreditam. Pela experiência negativa no Brasil, muitos leitores confessaram à autora que viajar para um país estranho era uma ideia fora de cogitação. Que ninguém acreditava que eles seriam capazes de tal ação.

Tudo mudou quando Michele postou fotos da aventura em Boston, mostrando como a acessibilidade da cidade permitia experiências incríveis aos cadeirantes. Ela andou de caiaque, visitou museus, viajou para cidades como Flórida e Nova York e também enfrentou alguns perrengues.

“É claro que todos nós passamos por situações ridículas, no dia a dia. Uma vez, caí de barriga para cima na plataforma do trem. Fiquei parecendo um besouro no chão, com as pernas para o alto. Comecei a rir de mim mesma, por causa da vergonha, mas me ajudaram e passou. Não foi o fim do mundo”, diz ela. Segundo Michele, esse foi o segredo para driblar as dificuldades: a capacidade de seguir em frente com leveza e bom-humor.

Realidade

De volta ao Brasil, Michele precisou encarar o choque cultural entre duas realidades muito distintas. A designer, que sempre foi muito independente e ativa, estava se reacostumando à sensação de liberdade e independência de Boston quando voltou para casa. As limitações ainda eram as mesmas: dificuldade para sair de casa sozinha, falta de acessibilidade, preconceito e poucas referências.

“Aqui, a gente nunca pode sair de casa. Então, você não vive coisas novas, não conhece outras pessoas, porque está frequentando aqueles mesmos lugares de sempre”, desabafa.

Além das limitações cotidianas, Michele precisa lidar com problemas de pressão, uma das sequelas do acidente e da paraplegia. Nos dias em que a pressão cai, não há o que fazer, senão ficar na cama.

Mesmo com todos os obstáculos, a personalidade inquieta de Michele não permite que ela fique parada por muito tempo, apenas lamentando a atual condição. A vontade de seguir em frente é tão grande que ela já está de viagem marcada novamente. Em outubro, a designer de moda embarca em mais uma aventura, desta vez no Canadá, para estudar inglês. Serão mais de duas semanas entre Montreal e Toronto, completamente sozinha.

“O turismo é uma referência muito legal para as pessoas saírem de casa, tanto que tenho feito isso em são Paulo também, descobrindo novos lugares e compartilhando com outros cadeirantes. Nós não precisamos parar de lutar. É uma batalha árdua, mas o retorno é realmente gratificante. Mesmo que a conquista seja conseguir pegar um copo de água. Toda conquista merece ser reconhecida”, finaliza.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.