Autor decidiu dar visibilidade ao preconceito contra as empregadas domésticas na internet expondo autores dos posts preconceituosos

BBC

"Dei uma echarpe Prada para minha empregada e a anta mexicana usou como pano de chão. Que lástima."

"Minha empregada é muito burra, às vezes tenho vontade de tirar essas banhas dela com uma faca de cozinha."

"Minha empregada não chega, disse que está sem ônibus, minha casa está imunda, vadia, vem andando."

Acredite ou não, essas frases são reais e foram postadas publicamente no Twitter. Mas o que os autores não esperavam era que um perfil recém-criado na rede trouxesse visiblidade ao preconceito contra as empregadas domésticas na internet.

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Reprodução Twitter
#SalaSocial: "O pior de tudo é ver que a maiorias dos racistinhas e preconceituosos são jovens, que futuro nos espera?", diz autor

"Meu objetivo com a página é apontar o racismo e o preconceito. Muitas vezes as pessoas nem percebem que estão sendo preconceituosas e a ideia é ajudá-las a se ligarem nisso", diz o criador da página @aminhaempregada, que em apenas 48 horas ganhou mais de 2,4 mil seguidores na rede social.

Profissional de marketing, o dono do perfil tem 33 anos, mora em São Paulo, mas prefere não se identificar.

"Não quero ganhar louros com essa história", afirma.

Ele também garante que esta não é uma campanha profissional, como a #somostodosmacacos, lançada pelo jogador Neymar nas redes sociais. Na ocasião, o que inicialmente parecia uma atitude espontânea nas redes sociais se mostrou uma feita por uma agência de publicidade.

"Não tem nada de profissional aqui. Minha motivação é pessoal", assegura.

Buscas

Durante semanas, o autor da página fez buscas com os termos "minha empregada" junto a palavras-chave como "burra" ou "nordestina".

"Fiquei assustado com o que encontrei. As pessoas dão esse tipo de declaração em um espaço público como o Twitter, sem controle nenhum."

Com a descrição "A chibatada é serventia da casa (contém ironia e tristeza)", o perfil retuíta mensagens postadas por pessoas de todo o Brasil.

É o caso de um jovem de Recife, que na semana passada escreveu: "Vou pegar o Nokia da minha empregada e dar um rolé, pelo menos não vou ser abordado".

Ou de uma menina de São Paulo, que postou "Mano, a paraiba da minha empregada derrubou o meu jardim zen. To p***, serioo, nao acredito".

O criador da página afirma que não recebeu nenhuma resposta ou reclamação das pessoas expostas em @aminhaempregada.

Uma busca no Twitter permite encontrar algumas demonstrações públicas de apoio ao perfil: "O pior de tudo é ver que a maiorias dos racistinhas e preconceituosos são jovens, que futuro nos espera?"; "@aminhaempregada nos brinda com a verdadeira face do brasileiro. Ótimo para quem duvida da existência do preconceito" e "Sou filho de empregada e vendo os RTS do @aminhaempregada só vejo que tenho que cada vez melhorar minha postura e lutar".

Projeto de lei

O Projeto de Lei Complementar 302/13, que regulamenta os direitos e deveres do empregado doméstico no Brasil, tramita há quase um ano na Câmara dos Deputados.

Segundo o órgão, a última ação legislativa ligada ao tema aconteceu no final de abril, quando a pauta foi enviada ao Senado para "que seja proferido parecer às Emendas do Plenário".

Pagamento de horas extras, seguro contra acidente de trabalho, adicional noturno, indenização por demissão sem justa causa e seguro-desemprego são alguns dos benefícios que passam a ser obrigatórios em contrato. O projeto também restringe o trabalho doméstico para maiores de 18 anos e a carga horária em, no máximo, 44 horas semanais.

Leia mais: Como é a vida sem empregada doméstica

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