Cientista defende que temos bons instintos para julgar mentirosos, só não conseguimos acioná-los corretamente

NYT

Será que um candidato a emprego está mentindo para você? E quanto ao seu chefe ou a um empreendedor que promete dobrar seu investimento? Você sabe reconhecer uma mentira?

A maioria se sai mal ao detectar uma mentira. Pelo menos de forma consciente. Nova pesquisa publicada mês passado em "Psychological Science" sugere que temos bons instintos para julgar mentirosos, mas que eles estariam enterrados tão profundamente que não conseguimos acioná-los.

A descoberta é fruto do trabalho de Leanne ten Brinke, psicóloga forense, que estudou pais que mataram os filhos e mentiram a respeito, e que voltou sua atenção ao mundo dos negócios.

Capacidade inconsciente de flagrar mentirosos teria se perdido na tradução para a consciência
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Capacidade inconsciente de flagrar mentirosos teria se perdido na tradução para a consciência

"Talvez nossos próprios corpos saibam melhor que nossas mentes conscientes quem está mentido", explicou ten Brinke, agora na Escola de Negócios Haas, da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley.

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Aceita-se que a maioria de nós não é melhor do que “cara ou coroa” na detecção de uma mentira. Um experimento clássico envolve mostrar aos participantes no estudo a filmagem de pessoas, algumas das quais mentindo, dizendo que não roubaram US$ 100; os participantes descobrem acertadamente os mentirosos em metade das vezes.

Ten Brinke e seus colaboradores na Haas se basearam nessa experiência, mas com uma mudança: depois que os participantes assistiam ao vídeo e faziam a avaliação consciente de quem estava mentindo, os pesquisadores tentaram medir suas reações inconscientes.

Para fazer isso, os pesquisadores mostravam lampejos de imagens de alguém já visto na filmagem, mas desta vez em milissegundos, algo indiscernível de forma consciente. A seguir, os participantes completavam uma tarefa com palavras que envolvia colocar palavras ligadas à "verdade" (tais como verídico, honesto, válido) e à "mentira" (desonesto, inválido, enganoso) nas categorias adequadas.

Quando os participantes viam o mentiroso de relance, eles eram nitidamente mais lentos em juntar palavras como verídico ou honesto na categoria "verdade" e mais rápidos em amontoar palavras como enganoso na classificação "mentira". O oposto também era verdade quando os participantes viam uma pessoa sincera.

Assim, em geral, as mesmas pessoas pareciam melhores em detectar mentiras de forma inconsciente do que consciente. Em mensurações científicas, o tamanho do efeito era claramente incomum, mas não de forma esmagadora.

Existem muitas teorias sobre por que a capacidade de flagrar mentirosos se perdeu na tradução para a consciência. Ten Brinke especulou que contamos mentiras uns para os outros o tempo todo – por questões de sobrevivência, estratégia reprodutiva e assim por diante – e que parte da habilidade de se dar bem socialmente é ser capaz de não perceber as mentiras inofensivas.

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Será possível acionar a capacidade inconsciente? "Essa é a questão que vale um milhão", ela respondeu. O estudo se enquadra numa história abundante de pesquisa para detecção de mentira, com alguns pesquisadores dizendo que podem ler mentiras nas expressões faciais e outros argumentando que os mentirosos não dão sinais claros suficientes para permitir a detecção.

"As pistas são muito tênues", afirmou Bella DePaulo, professora visitante de psicologia na Universidade da Califórnia, campus de Santa Barbara, e especialista em detecção de mentiras. Segundo ela, existem indícios, também levantados por sua pesquisa, dando força à ideia da detecção indireta ou inconsciente, mas a professora duvida que isto se torne um sistema realmente eficaz.

Ten Brinke começou uma nova experiência, da qual se espera que venha a oferecer táticas concretas para nos ajudar a identificar mentirosos. O experimento engloba mensurar sintomas fisiológicos como fluxo sanguíneo e perspiração em participantes que estão ouvindo um mentiroso. Trata-se de uma nova mudança. O teste tradicional de detecção de mentira faz medições semelhantes em uma pessoa suspeita de mentir. Talvez o melhor detector seja a pessoa que ouve, pelo menos se a mente consciente puder ser deixada de lado.

* Por Matt Richtel

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