Pesquisa revela que emotividade, baixo comprometimento e agressividade atrasam as conquistas profissionais femininas

Qualificação profissional não é o principal rival das mulheres na hora de disputar um cargo de liderança em grandes organizações brasileiras. Pesquisa da empresa de consultoria Bain & Company revela que ausência de oportunidades e questões culturais, como crenças e estereótipos, afetam diretamente a ambição da funcionária que entrou no mercado sonhando com o cargo de CEO.

Executiva: crenças mantidas pelas próprias mulheres dificultam a ascensão a altos cargos
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Executiva: crenças mantidas pelas próprias mulheres dificultam a ascensão a altos cargos

De acordo com o trabalho chamado “Sem atalhos: o caminho das mulheres para alcançarem o topo” , apresentado nesta quarta-feira (23) ao Comitê de Mulheres Executivas, em São Paulo, as mulheres sentem que não têm as mesmas chances de atingirem o topo da escada corporativa. A pesquisa é resultado de entrevistas com 514 profissionais, entre homens e mulheres. Desses entrevistados, 42% ocupam posições de gerência sênior ou executiva.

O empenho feminino em conquistar uma qualificação diferenciada é reconhecido há quase três décadas. Desde 1985, o número de mulheres com diploma em curso superior é maior do que os dos homens, representando 58% dos alunos universitários contra 42%, segundo levantamento de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essas mulheres graduadas e ambiciosas, no entanto, encontram barreiras quase impossíveis de serem superadas: apenas 14% delas conseguem ocupar cargos executivos.

Atributos masculinos

Lutar contra o estereótipo “mulher deve equilibrar os ambientes trabalho e família e, por isso, tem baixo comprometimento” não é o único desafio. Segundo a pesquisa, homens e mulheres concordam que empresas brasileiras valorizam cinco estilos de liderança tipicamente reconhecidos como masculinos. São eles: solucionar problemas , encorajar times , influenciar equipe , inspirar e delegar .

Leia: Personalidades de homens e mulheres são diferentes, diz estudo

Para Luciana Batista, gerente da Bain no Brasil, o resultado explica por que as mulheres sentem não ter as mesmas oportunidades.

A executiva Luciana Batista, da Bain Brasil
Divulgação
A executiva Luciana Batista, da Bain Brasil

“A mulher tem um estilo de liderança diferente, apoiado em grande parte na colaboração e parcerias. Esse tipo de gerenciamento coletivo pode trazer menos reconhecimento daqueles que são responsáveis por promoções e indicações”, disse durante a apresentação da pesquisa.

Em entrevista ao Delas , a executiva garantiu que o problema está longe de ser apenas brasileiro. Além do Brasil, países como Inglaterra, Austrália e Estados Unidos também registraram casos de conflitos, sendo o mais comum a diferença salarial entre gêneros. "É uma realidade, mas não é um preconceito declarado", explica.

Luciana cita ainda que as diferenças nos perfis de progressão de carreira contribuem com a disparidade. "O homem sabe brigar por uma oferta melhor. A mulher entende como é difícil alcançar uma posição de liderança e enxerga a oportunidade como uma conquista. Não pensa tanto em dinheiro". Ela cita ainda a predominância de mulheres em áreas como judiaciário e administrativo - que normalmente recebem menos do que os setores estratégicos da empresa, dominados por homens.   

“A chefona”

A disputa não termina ao alcançar o cargo dos sonhos. Para Cristiane Oliveira, gerente comercial de uma empresa de engenharia, ramo majoritariamente masculino, a mulher precisa enfrentar desafios diários em busca da aprovação no escritório.

“Sou uma pessoa dura, mas preciso ser ainda mais dura na rotina de trabalho. São como pequenas comprovações da minha capacidade e posso facilmente receber rótulos negativos por isso. É muito delicado”, explicou Cristiane ao Delas , confessando que mal consegue acompanhar o crescimento da filha de seis anos por conta de muitas horas diárias dedicadas ao trabalho.

A executiva Natalia Gonzales, diretora de uma multinacional especializada em segurança, conta que é comum o surgimento de apelidos, como “mandona” e “chefona”. Na tentativa de reafirmar sua autoridade dentro da empresa, a mulher com cabelos loiros e de pequena estatura confessa que às vezes chega a ser grosseira com os funcionários.

“Fora do escritório, sei que não sou essa pessoa durona e até grosseira. Mas entendi que precisava agir de outra maneira para ser respeitada. Garanto que tenho apelidos por aí”, conta.

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