Geração digital está discutindo perda e morte em fóruns bastante públicos, às vezes com resultados desagradáveis

NYT

Em 2010, quando o pai de Rebecca Soffer morreu de ataque cardíaco durante um cruzeiro nas Bahamas, choveram notas de condolência, muitos no formato de SMS.

"Recebi tantas de pouquíssimos amigos", afirmou Soffer, de 37 anos, em seu apartamento em Manhattan pouco tempo atrás. "Eles escreveram 'pêsames' e ' como vc está'".

O SMS também foi o meio preferido de um rapaz de 20 e poucos anos que pediu que uma funerária de Los Angeles lhe enviasse uma mensagem com a foto do cadáver da mãe, assim ele não precisaria ir identificar o corpo. Caitlin Doughty, 29 anos, diretora da funerária à época, declarou em entrevista telefônica que a princípio pensou: "Não vou fazer isso. Mas, como sou uma pessoa que acredita em lidar com a realidade da morte da maneira mais natural possível, achei que a mensagem de texto era melhor do que nada".

Doughty é agente funerária e fundadora de The Order of the Good Death (Ordem da Boa Morte, em tradução literal), site sobre a mortalidade. A funerária, que nunca antes havia recebido tal pedido, pediu que o rapaz assinasse um formulário afirmando compreender o desconforto emocional que poderia advir da foto antes de recebê-la.

As normas sociais para perda e a internet estão ainda claramente em evolução. Porém, integrantes da geração Y (também chamada geração do milênio) mal começaram a projetar suas sensibilidades quanto a rituais e discussões cercando a morte. Como convém à primeira geração de nativos digitais, eles estão abrindo blogs, séries no YouTube e feeds no Instagram sobre luto, perda e até mesmo o macabro, levando a conversa sobre a perda e os falecidos para um fórum bastante público, às vezes com resultados desagradáveis.

Leia: O luto é um processo particular, singular e público

Em novembro passado, para criar um espaço específico para sua geração a respeito do assunto, Soffer e Gabrielle Birkner, 34 anos, abriram o Modern Loss, site destinado a pessoas da mesma faixa etária que elas para falar sobre perdas, desde abortos até a morte de um dos pais. As duas já lidaram com a segunda opção: quatro anos antes do infarto do pai de Soffer, sua mãe morreu num acidente de carro. E em 2004, o pai de Birkner e sua madrasta foram assassinados em casa, na cidade de Sedona, no Arizona, por um viciado em metanfetamina.

Gabrielle e Rebecca,do Modern Loss: artigos, recursos e conselhos para enlutados
Chester Higgins Jr./The New York Times
Gabrielle e Rebecca,do Modern Loss: artigos, recursos e conselhos para enlutados

Soffer e Birkner encontraram o apoio emocional e psicológico que faltava para pessoas em sua faixa etária. "Fui a um grupo de apoio a familiares de vítimas de homicídio da Safe Horizons no porão de uma igreja no Harlem quando eu estava morando no Upper West Side e não havia ninguém da minha geração", disse Birkner, escritora e editora que mora no Brooklyn. "Mesmo assim, salvou a minha vida.”

Soffer contou que era a única pessoa com menos de 65 anos nos grupos de apoio ao luto de que participou, acrescentando que entre as pessoas de sua faixa etária, "eu não conhecia ninguém que tivesse perdido os dois pais".

Para uma geração conhecida por divulgar monólogos internos pela internet, alguns de seus membros parecem ansiosos por espaços para expressar não apenas as coisas boas que entulham o Facebook de todo o mundo, como também a dor. Em novembro, Melissa Lafsky Wall, 35 anos, fundadora da nova-iorquina Brick Wall Media, procurou a Modern Loss depois de um aborto, publicando o texto "A tristeza silenciosa".

"A internet deveria falar de aspectos da vida que todos nós vivenciamos, mas não estão representados na maioria das mídias, como o luto e a perda", disse Wall, acrescentando que todos os comentários que leu foram positivos, o que ela atribui ao site. "Se você for escrever sobre seu aborto no Reddit, por exemplo, terá uma audiência muito diferente."

O Modern Loss é um depósito de artigos, recursos e conselhos que os fundadores tentam editar para que não soe superficial, muito religioso nem trivial. Por exemplo, nunca se verá "pelo menos eles estão num lugar melhor" – "essa é a frase que menos gostamos", disse Soffer.

O site também examina assuntos do século 21, como, por exemplo, o que fazer quando o Gmail sugere alguém que já morreu como contato, assunto que Esther D. Kustanowitz, fundadora do blog My Urban Kvetch , explorou na postagem "apagando minha mãe". Como convém ao público-alvo, o site não é sério demais. "Fique ligado em futuros eventos da Modern Loss na vida real", diz a página "Sobre Nós" do site. "Pois a tristeza adora companhia e nachos. E margaritas."

Ex-produtora do programa televisivo "The Colbert Report", Soffer afirmou a respeito do site que "é preciso ter senso de humor".

Outro site sobre luto voltado para a geração mais jovem é o Lisa Frank Mixtape , que promete "música dos anos 90 e luto do século 21". A fundadora, Zoe Feldman, 29 anos, solicita artigos sobre perda (desculpe, bichos de animação não valem), enviando aos colaboradores uma fita de música em troca do texto a respeito do que vivenciaram. Batizado em homenagem à empresa Lisa Frank, conhecida pelos produtos de cores brilhantes que, para Feldman, são sua antítese para a dor, o empreendimento foi inspirado na morte da ex-namorada e colega de classe na Smith College, Rebecca Rosenthal, conhecida como Becca, em outubro de 2012, aos 27 anos.

"Procurei um xamã, um curandeiro e todos os psiquiatras de Manhattan, e a única coisa que me ajudou foi conversar com pessoas da minha idade que vivenciaram alguma perda devastadora", declarou Feldman, que trabalha com estratégia comercial para a PepsiCo, em Nova York, e que já enviou 50 fitas cassetes – ela grava um CD para quem não tiver um gravador onde ouvir a fita. "Uma pessoa escreveu dizendo que é como integrar uma tribo triste e esquisita."

Em fevereiro passado, quando Rosenthal completaria 28 anos, Feldman encontrou uma postagem longa no Facebook da amiga falecida escrita por outra amiga que especulava como Rosenthal havia morrido.

"Muita coisa que ela escreveu não era verdade", disse Feldman. "A mãe de Becca ficou muito chateada, e eu passei o dia tentando fazer gestão de crise."

A explicação de Feldman para esse tipo de comportamento é "perda performática". Ainda segunda ela, "essa é a única desculpa em que posso pensar. A natureza da internet permite essa espécie de comportamento autoindulgente do tipo 'olha para mim'". Por outro lado, Birkner contou ter encontrado apoio no Facebook em aniversários de morte esquecidos há muito tempo.

Zoe, do site Lisa Frank Mixtape:
Joshua Bright/The New York Times
Zoe, do site Lisa Frank Mixtape: "música dos anos 90 e luto do século 21"

E também existe a língua franca da mídia social – o botão gostar – que é completamente discordante da morte. "Meu Deus, será que existe algo mais sinistro do que uma publicação anunciando a perda de um ente querido e ver '136 pessoas gostaram disso' logo abaixo?", questionou Soffer. O Facebook pensou na ideia do "botão de demonstrar simpatia", que nasceu de seu "hackathon" anual, mas não tem planos de levá-lo a cabo, segundo a empresa.

O fato de que a internet talvez não seja o melhor canal para o luto (com gafes imortalizadas no ciberespaço) explica por que David Fajgenbaum, 28 anos, fundador de uma rede de apoio para universitários com pais doentes ou falecidos, afirmou que sua organização com 40 unidades em vários campi tem sido cautelosa quanto a integrar um componente online.

“Podem falar a coisa errada na internet, magoando muito alguém", disse Fajgenbaum.

Miss Manners, pseudônimo da jornalista Judith Martin, especializada em boas maneiras, escreve inequivocamente sobre o assunto. "Cartas de pêsames deveriam ser escritas à mão. Por mais fatigante que seja ela oferece o conforto de saber que alguém está representando o falecido para quem gostava dele."

Contudo, como Fajgenbaum admitiu, os jovens são ávidos pela conexão virtual. É isso que Jason Feifer, 33 anos, criador do "Selfies at Funerals" , que virou uma febre de forma instantânea, descobriu quando publicou dúzias de fotos de adolescentes tirando fotos de si mesmos em funerais. Dessa forma, Feifer, editor da revista "Fast Company", disse que estava documentando uma nova forma de luto.

Confessadamente, no entanto, algumas das imagens o fizeram se encolher todo. De acordo com Feifer, "existem muitos garotos que viram esse Tumblr e não vão tirar uma foto de si mesmos num funeral, mas isso não quer dizer que quem tirou não sabe como sofrer".

* Por Hannah Seligson

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