Clara, do BBB14, quer propor ao parceiro uma relação a três. Leia histórias de quem defende o amor por mais de uma pessoa e aceita múltiplos envolvimentos

Maria Fernanda Geruntho Salaberry, de 28 anos, e Regina Faria, de 44, são amigas e têm gostos parecidos. As duas vivem uma relação amorosa com Marcelo Soares, de 24, que também se relaciona com outras e outros, em Porto Alegre (RS). Ciúme, exclusividade e casamento não fazem parte do vocabulário. Eles preferem liberdade e respeito.

Defensor do "relacionamento livre", uma vertente extrema do relacionamento aberto, o trio acredita que a monogamia fracassou e os relacionamentos convencionais, a dois, estão sentenciados a acabar.

Clara polemizou edição do BBB por ter um casamento aberto e se envolver com Vanessa
Reprodução/GShow
Clara polemizou edição do BBB por ter um casamento aberto e se envolver com Vanessa

As relações não monogâmicas voltaram a ser discutidas durante a última edição do BBB, com a formação do casal de participantes Clara Aguilar e Vanessa Mesquita - a primeira é casada e tem o aval do marido para viver experiências extraconjugais com mulheres.

Ao sair com o terceiro lugar, na terça-feira (1º), Clara falou que não abandonaria a companheira e até pediria ao marido para incluí-la no casamento dos dois.

Para psicólogos e psicanalistas ouvidos pelo Delas , amar duas, três ou mais pessoas ao mesmo tempo e de diferentes gêneros tem se confirmado como uma tendência das relações modernas.

"Relacionamentos para mim têm uma duração. Não dá para negar que o tesão tem um tempo pré-determinado”, diz a jornalista Regina, relembrando a experiência do casamento monogâmico que durou 15 anos. Ela garante, no entanto, que foi feliz, mas viver várias relações simultâneamente aumentam as chances de alcançar a felicidade.

O encontro

Aos 20 anos, Marcelo ainda pensava que trilharia todos os estágios de relacionamento exclusivo, como namoro e noivado, e seguiria até o casamento. A publicitária Maria Fernanda entrou na sua vida naquele mesmo ano, em 2009, no cursinho pré-vestibular, e mostrou que a realização amorosa não é necessariamente restrita a dois.

“Ela falou que fazia parte de um grupo que acreditava em relações livres. A curiosidade me levou a frequentar reuniões e palestras e me encontrei”, explica o programador.

Maria Fernanda é uma das fundadoras do grupo Rede Relações Livres (RLi) e, desde 2006, promove encontros em Porto Alegre. O objetivo, segundo ela, é mostrar que o relacionamento monogâmico, imposto como doutrina desde os primeiros anos da infância, não é a única opção.

“Queremos mostrar para as pessoas que existe alternativa à monogamia em um espaço de amor, com segurança e sem pressão moralista”.

Maria (à esq.), Marcelo e Regina dizem que não há lugar para ciúme, pois são livres e independentes
Arquivo pessoal
Maria (à esq.), Marcelo e Regina dizem que não há lugar para ciúme, pois são livres e independentes

Ainda estudante, Marcelo precisava de um lugar para morar e Maria procurava uma babá para a filha Pandora, hoje com 9 anos, fruto de outro relacionamento livre e ciente dos diversos tios e tias que tem. A casualidade, explica Marcelo, os colocou dentro do mesmo apartamento.

“Não fomos morar juntos por causa da nossa relação, o único contrato que temos é a divisão do aluguel”, respondeu o jovem ao ser questionado se formavam um casal. Eles dormem em quartos distintos e têm um sonho fora do convencional para pessoas apaixonadas - querem morar separados.

“Buscamos a estabilidade financeira para cada um ter seu espaço e independência, é importante”.

A jornalista Regina entrou nessa história pelo menos dois anos depois, quando decidiu trocar São Paulo pela capital gaúcha e engatar um namoro com Marcelo, após encontros na RLi. O trio recusa qualquer rótulo, inclusive o de triângulo amoroso, já que não existe envolvimento sexual entre as duas mulheres. E muito menos dizem que existe uma divisão de Marcelo, seguindo o pensamento de que “ninguém é de ninguém”. Engana-se, no entanto, quem pensa que não há sentimentos entre todos os envolvidos. Sempre há, explica o programador, mas em diferentes níveis.

O ciúme é controlado diariamente e não atrapalha as relações que cada um dos três mantêm. Enquanto, Maria tem outros três parceiros (duas mulheres e um homem), Regina namora o piloto Alexandre e paquera uma garota. Já Marcelo segue com outros casos.

“Não há nada de tensão entre nós. Saio com a Regina para bares e até nos aconselhamos, inclusive sobre o Marcelo. Quando ela viaja até cuido da cachorrinha dela, sem problemas”, conta Maria aos risos.

Os três, coincidentemente, são bissexuais assumidos, mas isso não é uma regra para viver um relacionamento livre. Contar para a família que escolheu ter múltiplos relações, por exemplo, pode ser mais desafiador do que assumir a orientação sexual.

“Hoje o tema sexualidade é mais trabalhado na sociedade do que a não monogamia, que é sempre associada como um processo de experimentação e não como uma opção para ser feliz”, explica Maria. Ao ser questionada se ao lado de Marcelo, Regina e outros parceiros formava uma família, a publicitária disse: “Não é uma família, é melhor do que uma”.

Diferença de gêneros

Para os especialistas da Psicologia, vivemos um momento de reflexão sobre as crenças, um processo de quebra de tabus e preconceitos. No consultório da psicanalista Sandra Teixeira, adolescentes, homens e mulheres estão apaixonados ou ligados afetivamente a mais de uma pessoa, mas ainda sentem a obrigação de escolher apenas uma.

“O conflito ainda existe, às vezes o parceiro aceita ou não. Nessa incerteza, o melhor caminho [para eles] é esconder”. Sandra conta que a mudança nas relações amorosas e a diferença de gêneros sempre existiram, mas essa liberdade sexual é mais permitida aos homens “de uma maneira hipócrita”. A profissional ressalta ainda a sociedade já superou outras grandes mudanças sociais.

“Até pouco tempo, se as mulheres não fossem virgens não casavam. Se fossem separadas eram desprezadas. Agora, precisamos entender o poliamor”, diz Sandra.

Um válido argumento dos que defendem o amor livre, segundo ela, é que já lidamos com a pluralidade em outros segmentos da vida. Se a mãe é capaz de amar os filhos de maneira igualitária, se conservamos inúmeras amizades com o mesmo carinho e respeito, o que impede relações com várias pessoas, questiona Sandra. A resposta estaria no tratamento dado ao sexo, considerado ainda como algo feio e promíscuo.

“Enquanto o ser humano for tratado como propriedade, não como pessoa, não conseguiremos entender a liberdade de cada um. O mundo ideal seria um lugar de respeito, amor e muitas possibilidades”, conclui a psicanalista.

Mudanças culturais

A efetividade da formação tradicional do casamento é questionada também por sexólogos. A visão do homem provedor e responsável pela família deixou de ser a única opção, mas alcançar a maturidade emocional para viver diversos amores é o verdadeiro desafio. Essa é a opinião de Antonio Carlos Amador Pereira, psicólogo, psicoterapeuta e professor do curso de psicologia da PUC-SP. Ele vê com naturalidade o momento de liberação sexual, mas acredita que isso não será assimilado facilmente pela sociedade.

“Temos um sistema com regras morais vigentes que não aceitam a poligamia e poliandria [uma mulher com vários homens]. Aceitar a não monogamia do parceiro implica em mudanças culturais profundas”, diz o professor. Pereira concorda, no entanto, que as formas mais tradicionais se esgotaram, o que pode ter provocado essa descoberta sexual e gerado outras formas de amor, como por exemplo, um marido e a mulher decidirem abrir o casamento para uma terceira pessoa.

"A decisão implica em uma quebra do amor romântico, que ainda rege o mundo em que vivemos", diz Antonio. Ele explica ainda que o maior desafio para o indivíduo que aceita esse tipo de relação é perder os vícios de um relacionamento tradicional.

“Não dá para ter uma visão romântica do amor vivendo uma relação aberta. Você passa a olhar tudo de outro jeito, abandona idealizações, expectativas e o sentimento de posse”. A posse é considerada por muitos uma prova de amor. Adeptos do RLi, porém, acreditam que a sociedade trata o sentimento como sinônimo de exclusividade.

O programador Marcelo Soares assume que era uma pessoa ciumenta, mas define essa fase da vida como uma desconstrução da monogamia.

“É um desapego. Entendi que não sou dono da outra pessoa e muito menos controlo as relações afetivas e sexuais dela. Posso dizer ‘eu te amo’ e será sincero, mas não minto falando ‘eu te amo para sempre’.”

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