Nudez em excesso, abandono de regras morais e desrespeito às mulheres durante o carnaval afastam os entrevistados

Os primeiros agudos do agogô e os batuques no tamborim dão um frio na espinha de alguns brasileiros. Tido por uma legião como a representação mais pura da cultura nacional, o carvanal é considerado por outros a pior época do ano para ficar no País. Ouvidos pelos Delas , personagens elencaram os dez motivos para odiar o carnaval.


Nasci brasileira, mas sou obrigada a gostar de carnaval? Cada um tem o direito de curtir o que quer

Apelação com a nudez e os excessos lideram os desabafos. O mesmo discurso citado por todos foi sobre como o carnaval deixou de exibir o melhor do Brasil e passou a ressaltar o que é mais desprezado, como o desapego às regras morais de boa convivência e desrespeito ao próximo. Outros citaram também a influência política do feriado, que elimina importantes discussões na sociedade.

Leia os principais motivos para ser inimigo do ziriguidum:

1. "O carnaval não é o mesmo de antigamente"

Para a estudante Fernanda Bondioli, de 22 anos, a atual festa perdeu o real sentido e está muito longe dos antigos bailes e festas de salão, com as tradicionais marchinhas. “Respeito a origem do carnaval e do samba e a cultura das escolas. Mas isso já se perdeu faz tempo. Hoje, a festa se resume a dinheiro e corpo”, diz. O excesso de “peito e bunda” na televisão e nas ruas liderou as reclamações entre homens e mulheres. A professora Priscila Rocha, de 35, por exemplo, deixou de participar do carnaval por causa dos excessos. "Tudo é sempre associado à nudez e traição. Não ensina nada para as futuras gerações". 

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2. “O carnaval cega a sociedade e apaga os problemas do País”

O ódio ao feriado nacional e seus efeitos negativos na sociedade foram a justificativa do músico paulista Eduardo Escobar, de 25 anos, compositor da música “Ópio” e vocalista da banda de rock Loccix. Para ele, durante o feriado, importantes discussões sociais são esquecidas e perdem espaço para os desfiles. “O carnaval é uma máscara que cega a sociedade. Temos importantes manifestações nas ruas, por exemplo, e só se ouve sobre preparação para os desfiles”. 

3. “O ano só começa depois do feriado”

Para muitos, 2014 ainda não engrenou e a espera pelo carnaval é responsável por isso. Durante uma busca por um novo emprego, por exemplo, é comum ouvir a frase: “Ah, eles só contratam depois do carnaval”. “E todo o ano é assim, a mesma história. Se algum processo está lento ou algo não andou, logo pensam que é porque o ano ainda não começou. Virou desculpa para a lerdeza e má vontade”, diz Michelle Lemes, de 26, que trabalha como secretária em São José dos Campos, interior de São Paulo.

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4. “Todos os locais estão lotados e os preços nas alturas”

É unanimidade. Os quatro dias livres do feriado são bem recebidos até por quem odeia o carnaval. Mas o que fazer com os dias livres? Para os avessos aos famosos “bloquinhos” de rua, ir a bares e restaurantes pode ser uma ação arriscada. “Não dá para fugir do País? Então o jeito é estar disposto a pagar o preço. Todos os locais estão abarrotados de turistas e os preços são inviáveis. Você chega a pagar R$ 5 em uma garrafinha de água”, desabafa a produtora de TV Bárbara Aires, de 25 anos, que mora há oito anos no Rio de Janeiro. Em São Paulo, Priscila conta que prefere ficar em casa e até trabalhar com aulas particulares durante o feriado. "Busco manter minha vida o mais normal possível", conta. 

5. “Fugir dos que pensam que todo brasileiro deve amar a folia”

Assumir para o mundo sua personalidade anticarnavalesca tem um preço. Além do julgamento dos foliões, você pode acabar ficando de fora de todos os planos de viagens dos amigos e receber o título de careta. Em Florianópolis (SC) há quase dois anos, Fernanda Bondioli já ficou de fora de vários programas, mas não se importa muito com os possíveis rótulos. “Nasci brasileira, mas sou obrigada a gostar de carnaval e exibir meu corpo? Acho que cada um tem o direito de curtir o que quer”, explica. 

6. Abandono dos conceitos básicos da moralidade

Caminhar por uma rua que foi palco de blocos é um ato de coragem, explica a estudante de direito Ana Luisa Gimenes, de 19 anos. Se, no cotidiano, usar paredes e árvores como banheiro e ter relações sexuais em público são atos condenáveis, no carnaval isso parece estar liberado. “Parece que as pessoas pensam que o carnaval é um passe livre ao desrespeito. Todo canto vira mictório. Se você não faz isso no dia a dia porque fazer nesses quatro dias?”, conta. A solução para Ana Luisa? Fugir do Brasil. No próximo final de semanal, ela embarca com a namorada para Argentina. “Estou realizando um sonho”.

7. “Lidar com bêbados, suor alheio e aperto por todos os lados”

Celebrações de carnaval não são ideais para quem não aprecia contato físico com estranhos. Bárbara conta que a soma aperto, suor e álcool é a responsável por afastá-la de blocos e quadras de escolas de samba no Rio. Já para Michelle o trauma foi o exagero com o álcool quando tinha 14 anos no meio do carnaval. “Tomei meia garrafa de pinga sozinha no meio de um bloco em Guararema (SP). Meus amigos estavam tão bêbados que ninguém conseguia me ajudar. Fui deixada ali no chão de um bar sujo”. Além de espantar a solidariedade com amigos, o álcool acaba representando outros perigos quando associado ao volante.

8. “Clima excessivo de pegação e desrespeito às mulheres”

O carnaval é condenado pelos religiosos por ser a “festa da carne”. Campanhas do governo contra a Aids e doenças sexualmente transmissíveis ganham força devido ao número expressivo de relações casuais. “As pessoas surtam e conquistar alguém vira um objetivo. Só o número importa, quanto mais melhor”, explica Eduardo. E as mulheres podem sofrer durante essa caçada. Com o calor, os shortinhos e vestidos mais curtos são interpretados como “convites”, desabafa Fernanda. “Se uso um shorts é porque estou com calor e não quero ser alvo de cantadas agressivas ”. Puxadas de cabelo, beijos forçados e baixarias ao pé do ouvido são reclamações comuns do mundo feminino.

9. “Alegria em excesso é falsidade”

Amantes dos confetes e serpentinas citam o feriado como um “momento para esquecer os problemas e ser feliz”. No final, a Quarta-Feira de Cinzas vem com o peso da culpa e sentimento vazio. “É um êxtase de alegria falso . A pessoa está na pior fase da vida, mas ali no bloco pula e canta. Acho muito triste”, conta Bárbara. Para ela, há muita futilidade por uma data passageira. Eduardo concorda e diz ainda que a data não é motivo de celebração para o País. “É só olhar os milhões de reais que são jogados fora. O governo poderia aplicar esse dinheiro no próprio povo e dar motivo para o brasileiro comemorar nas ruas”.

10. “A televisão aberta só mostra uma coisa: carnaval”

Os inimigos do carnaval celebram uma conquista durante o feriado: a assinatura da TV a cabo. Depender da programação da televisão aberta pode significar uma sentença de morte. “Normalmente passo em casa, mas devo isso à TV a cabo. O carnaval domina todos os canais, todos os programas e até as novelas. É desesperador”, desabafa Ana Luisa. Para Eduardo, a grande mídia não respeita a pluralidade de opiniões. “Aquecimento das escolas, desfiles eternos e depois apuração, como se todos os brasileiros gostam e se importam”.

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