Protagonista aos 96 anos, Rosa conta ao Delas detalhes de um romance da década de 30 que não foi superado pelo tempo

"Querida Rosinha, [...] sinto que nos amaremos sempre porque entre nós não há somente amor, é algo mais, é o que eu chamaria ‘superamor’”. A declaração apaixonada foi escrita à mão em uma carta no começo de 1940, mas permanece atual e explica a devoção de Rosa Maluf Milan, de 96 anos, ao marido Rachid Milan, morto há quase meio século. “Ele me deixou há 45 anos, mas amo como se o tivesse conhecido hoje”, disse Rosa em entrevista ao Delas . A história de amor foi eternizada no premiado curta-metragem "Dona Rosa", lançado na última semana no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.


No documentário, a idosa exibe disposição em suas aulas de ginástica e mostra como conseguiu cumprir a promessa que fez ao marido. Antes de morrer prematuramente, aos 48 anos, Rachid disse: “Se você quiser superar a minha morte, comece a trabalhar. Se eu morrer hoje, comece a trabalhar amanhã”. Rosa colocou o conselho em prática. “Ele morreu no domingo, segunda foi o enterro e na terça-feira eu já estava nos bancos”, conta. A rotina nos escritórios durou até os 90 anos, quando a filha mais nova decidiu assumir os negócios.

Rosinha recebeu a reportagem do  Delas  em seu apartamento nos Jardins, bairro nobre da capital. Nascida em 30 de dezembro de 1917, a paulistana foi a quinta filha de um casal de imigrantes libaneses. Ricos, eles construíram um palácio em três quadras na região da Bela Vista, com dez quartos, onde Rosa viveu até o seu casamento. Mas antes disso, em 1931, uma inocente visita a Capivari, a 140 km de São Paulo, mudaria a vida da protagonista, então com 14 anos. “A primeira coisa que eu vi foi um jovem moreno com olhos verdes. Ele usava um uniforme verde do colégio”, explica. O desconhecido era Rachid, de 16 anos, também filho de libaneses, mas sem muitas posses.

'Meus lábios tremiam', relembra Rosa o dia do casamento, realizado na casa da família em 1942
Carolina Garcia / iG São Paulo
'Meus lábios tremiam', relembra Rosa o dia do casamento, realizado na casa da família em 1942


Os namoros eram diferentes. O nosso momento mais íntimo era quando ele pegava na minha mãozinha. Só isso

Rosa e Rachid viveram um longo namoro restrito às cartas de amor, que somam mais de 50, danças de tango e ‘escapadas’ ao cinema, onde o contato ficava mais intenso com toques nas mãos. “Os namoros eram diferentes. O nosso momento mais íntimo era quando ele pegava na minha mãozinha. Só isso”, garante Rosa aos risos. Com as cartas como promessa de amor eterno, os dois superaram a distância quando Rachid foi estudar medicina no Rio de Janeiro. O primeiro beijo do casal só aconteceria dez anos depois, na semana do casamento, em 1942. “Meus lábios tremiam tanto. Só fiquei calma depois que ele apertou meu braço”, comenta Rosa lembrando os primeiros minutos da cerimônia.

Os últimos 15 minutos

Em vinte anos de casamento, período “muito curto para o tamanho do amor”, o casal já tinha três filhas, havia construído um patrimônio e planejava uma nova casa. Quando tudo parecia tranquilo, Rachid foi diagnosticado com leucemia, aos 48 anos, como resultado dos anos de exposição aos aparelhos de raios X na faculdade sem a proteção adequada. “Fomos direto para a França, tentamos de tudo, até transplante de medula, mas nada deu certo. O médico falou ali mesmo: ‘Vão embora, ele tem no máximo uns 15 dias’. Voltei chorando muito porque sabia que ele me deixaria”. A doença ganharia força nos dois meses seguintes.

Quinze minutos antes de morrer, segundo ela , o marido a chamou para uma das conversas mais sinceras de sua vida. Ciente da devoção e dependência da mulher, Rachid teria aconselhado Rosa a buscar “um novo sentido para viver”, como um trabalho, por exemplo, para superar sua morte. “Eu precisava criar minhas filhas e dar uma boa educação para elas e isso me manteve motivada. Mas esse tempo passou. E agora? Até hoje sinto vontade de chorar se falo muito sobre ele”, contou Rosinha enquanto acariciava o livro "O Amor do Amor", com as cartas datilografadas do casal.

Hoje, a visão limitada pela idade já a impede de reler as histórias de Rachid. E, por isso, Rosa conta com a memória. “Decorei todas as cartas, não consigo ter uma preferida. Todas são tão lindas”, disse suspirando. Para ela, é mais fácil falar sobre a morte “que não chega” do que relembrar o amor perdido para a leucemia. “Eu estou pronta para embarcar. Até quando vou viver? Já escuto pouco, enxergo mal e minha compreensão não é das melhores. Acho que já está na minha hora”, disse. Ao menos três vezes por noite, Rosa ainda desperta em busca de uma foto do marido, que está presente em quase todos os cômodos do apartamento (veja na galeria de fotos acima) .

Pôster do Dona Rosa', de Mathias Mangin e Lucas Mandacaru
Divulgação
Pôster do Dona Rosa', de Mathias Mangin e Lucas Mandacaru

O curta-metragem

Com 15 minutos de duração, o curta-metragem resume mais de 12 horas de depoimentos gravados em dois anos por Lucas Mandacaru e Mathias Mangin, neto de Rosa. O objetivo inicial, segundo os diretores, era apostar nas histórias de vida da avó em um longa-metragem, mas perceberam que todos os eventos tinham Rachid como figura central. “Percebemos que precisávamos contar essa história de amor, o amor que ela sente por esse homem, o que ele trouxe para a vida dela e como ela ainda tenta superar sua morte”, explica Mandacaru.

O filme ganhou o prêmio de Melhor Direção de Curta Metragem no 10º Cine MuBE, em 2013. Para o neto Mathias, além da produção do curta ter permitido um maior conhecimento sobre sua família - como os detalhes da noite de núpcias dos avós - o maior desafio foi criar um filme universal. “Foi importante ter o Lucas nesse processo para me ajudar a universalizar o filme, não deixá-lo familiar demais, que só os membros da família poderiam entender”. Para eles, o jeito único e engraçado de Rosa ao contar o próprio drama é responsável por despertar a empatia no público. 

Assista ao trailer do Dona Rosa :

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